Fé e Filosofia Política

Conheça a importância das cartas através do livro de Leo Strauss e Eric Voegelin

Por Ana Maria Haddad | Foto Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Fé e Filosofia Política

O mundo contemporâneo, entre tantas e tantas coisas que poderiam caracterizá-lo, em grande parte, desconhece, o real papel e a grande importância que as cartas exerceram na memória e, consequentemente, na história da humanidade. Fé e Filosofia Política, editora É Realizações, é uma obra lançada, recentemente, que traz para os leitores, na primeira parte do livro, a cartas trocadas entre Leo Strauss (1899-1973) e Eric Voegelin (1901-1985) no período de 1934 a 1964.

Vamos lembrar que cartas até a chegada dos e-mails foram formas de comunicação de imensa importância para a humanidade. Por meio delas, hoje, sabemos, por exemplo, determinados fatos cotidianos que permearam a vida das pessoas desde a Antiguidade (mesmo quando os meios de comunicação eram bem precários). As cartas, nas diversas etapas da história, representam uma troca. Envio de notícias. Comunicação entre dois seres.

Graças às cartas podemos saber de fatos e acontecimentos que teriam sido esquecidos ou omitidos. As cartas, dentro de uma tipologia textual, (de uma forma geral), foram consideradas um ‘gênero menor’. Cartas entre dois poetas, cartas entre dois cientistas. Cartas entre dois escritores. E assim por diante.

No entanto, de tempos em tempos, o ‘gênero’ ressurge com a intensidade que, sob nossa perspectiva, merece. Uma carta possui diversas dimensões. Ou seja: primeiramente a exposição de uma intimidade em diversos graus. Por um outro lado, o conteúdo propriamente dito. E, claro, existem as famosas e tão procuradas cartas de amor.

As exposições das declarações de pessoas que se amaram. Que, em geral, buscam, (quando publicadas), apenas, as ‘bisbilhotices’. Lamúrias de um amor ou de uma paixão. Explorações, sem objetivos, de um espaço privado.

A obra Fé e Filosofia Política é de suma importância por diversas razões. Uma delas é resgatar o pensamento político e filosófico de dois pensadores, seguramente, importantes para a humanidade.

Nos dias de hoje, em que tantas tradições foram abandonadas e até esquecidas… este livro lembra o calor de discussões a respeito de filosofia, política e outras áreas do conhecimento, como no seguinte trecho: “Uma ciência social que não possa falar da tirania com a mesma confiança com que a medicina fala, por exemplo, do câncer não pode compreender os fenômenos sociais como aquilo que são. Não é científica, portanto. É essa a condição em que se encontra a ciência social contemporânea. Uma vez que tenhamos reaprendido com os clássicos o que é a tirania, estaremos  capacitados e obrigados a diagnosticar como tiranias diversos regimes contemporâneos que assumem a aparência de ditaduras. Esse diagnóstico só pode ser o primeiro passo para uma análise exata da tirania atual, porque a tirania atual é fundamentalmente diferente da tirania analisada pelos clássicos.”

O trecho em questão de Strauss a Voegelin é revelador. Primeiramente porque Strauss está indagando o outro pensador. E, também, observa-se o ‘ranço’  positivista querendo igualar a medicina com as ciências sociais. O fragmento também revela a preocupação, (a carta foi escrita em 1949), com as questões políticas que naquele momento envolviam o mundo.

E à medida que vamos lendo as cartas, temos uma perspectiva única e recortada que pontuam diversas discussões filosóficas e políticas profundamente atuais. O interessante e instigante da leitura é o acréscimo que, inevitavelmente, fazemos ao nosso repertório.

Não importa se concordamos ou não com os pensadores. É preciso, em especial nos dias de hoje, abalarmos nossas certezas. Renovar, acima de qualquer coisa, nossas convicções. Afinal… a situação de convulsão mundial
a qual todos estamos submetidos nos obriga a uma grande revisão de valores. Em inúmeras escalas.

Eis mais um motivo para se ler Fé e Filosofia Política. Infelizmente, poucas pessoas se dispõem a rever suas posições e convicções. Tal tarefa é desafiadora e, afinal, para poucos. Porque exige um exercício de autocrítica penoso. Profundo. Mas necessário. Muito necessário.

Adaptado de Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 131

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