Existe livre-arbítrio?

Por Flávio Paranhos* | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

deus (Deus?) é desses personagens fascinantes que vivem aparecendo em obras de ficção, algumas brilhantes, outras nem tanto. O grande luto, primeiro conto da coletânea Sete contos de fúria (Globo, 2002), do escritor português António Vieira, é exemplo do primeiro caso. Vieira teve a criativa ideia não só de matar Deus, mas apresentar seu cadáver a um astrônomo: “Desceu um novo crepúsculo, e Efraïm não veio ao observatório. Estava entregue à maior inquietação que a alma humana pode experimentar, estado-limite das inquietações possíveis. Recebera pela manhã, das mãos distraídas dos técnicos da câmara escura, mais uma placa fechada com películas inéditas de filme contendo as imagens de um quadrado céu. […] Passeava o olhar pelas películas quando topou com um real cadáver camaleonicamente acantoado no céu. […] O que tinha nas mãos, maravilha fatal, era o achado que traria a fratura à civilização e convulsionaria todos os saberes – Ontologia, Teoria do Conhecimento, Ciência, Teologia. […] Tinha ali, explícito na forma, com pormenores tais, tal nitidez que o fazia pasmar, o cadáver de Deus.

 

O autor, por meio de Efraïm, segue imaginando como seria o mundo sem Deus, na linha karamazoviana: se Ele não existe, tudo é permitido. Que é o mesmo que admitir que toda moral vem Dele, que não nos atracamos por causa Dele, não nos destruímos porque Ele não deixa… Peraí, mas nós nos atracamos, nos destruímos, destruímos Sua criação (nós e a natureza). Voltaremos a isso.

 

Um exemplo do segundo caso (obra de ficção ruim com Ele como personagem principal) é o recente Deus não está morto (2014), dirigido por Harold Cronk, com roteiro de Hunter Dennis, Chuck Konzelman e Cary Solomon. Não me lembro de ter visto algo tão ruim em toda a minha vida. É de uma pobreza de conteúdo que chega a ser constrangedora. Adivinha-se todo o resto pelos três primeiros minutos. E ainda assim fica-se surpreso com a puerilidade. Ainda que se dê desconto por se tratar de uma desavergonhada defesa de tese, e não de um filme, seria de bom tom não insultar a inteligência dos espectadores, crentes ou não. Ou será que os autores imaginam que para acreditar em Deus é preciso ser imbecil?

 

Um aluno cristão convicto entra numa universidade e se matricula no curso de um professor de Filosofia babaca, cuja diversão é maltratar seus alunos verbalmente e desafiar os que persistirem afirmando crer em Deus. O aluno é gente boa, resolvido, o protótipo do bom moço. O professor é antipático, agressivo, namora uma ex-aluna (oooohhh!), que tem sua religiosidade e personalidade suprimidas pelo egocentrismo, prepotência e megalomania do professor. O palco está montado, ou melhor, o ringue, e não há nem uma ínfima sombra de dúvida a respeito de quem representa o “bem” e quem, o “mal”.

 

 

O leitor me acusará de ranzinza e me lembrará de que esse tipo de artifício é exaustivamente usado em Hollywood, por exemplo, em filmes para “teens”. Tudo bem, mas tais filmes têm a única motivação de coletar dinheiro  de “teens” descerebrados (90% seria uma estimativa otimista?) Não me parece que seja (ou devesse ser) essa a intenção original de alguém que  tem a pachorra de fazer um filme para defender uma tese. Espera-se mais.

 

Continuando a estorinha. O professor desafia o aluno cristão teimoso para um embate filosófico, no meio do qual (surpresa!) o aluno perderá sua namorada sem coração e o professor terá revelada a “verdadeira razão” pela qual deixou de crer n’Ele: a morte prematura da mãe por câncer. Ergo, Deus era mau, digno da ira do filho, que passaria a negá-lo, mas, bem no fundo, ainda acreditava, deixando isso explícito num final catártico em que, nos últimos suspiros a caminho de uma acidental e estúpida morte, confessa que acreditava, sim, n’Ele. (Note bem, leitor, dessa vez eu não avisei que haveria um spoiler porque minha intenção é mesmo estragar a surpresa e deixá-lo sem a mínima vontade de ver essa bomba.)

 

O debate, claro, é vencido pelo cristão teimoso. Velhos e conhecidos argumentos de ambos os lados são apresentados da mesma forma que nossa professora do maternal nos mostrava que o cubo vermelho se encaixa no formato quadrado vermelho e a esfera verde, no círculo verde. O constrangimento de quem assiste (e é minimamente informado) é análogo a estar assistindo ao Papa e a Madre Teresa de Calcutá fazendo “pole dance” enquanto tiram a roupa. Indecente.

 

O profano no campo do sagrado

 

E, evidentemente, não se toca no ponto nevrálgico de toda a Teodiceia, a absoluta impossibilidade, nem com toda malandragem retórica do mundo, de conciliação entre o livre-arbítrio e a onisciência divina. Permitam-me agora a vaidade de citar a mim mesmo:

 

Há um problema. Grave. Insolúvel. Trata-se da liberdade do homem em face da Sua onisciência. Leibniz não conseguiu, ninguém conseguiu resolver a contento. Ninguém foi capaz de fazer o casamento entre o livre-arbítrio e a onisciência divina. Se Ele é infinitamente bom, apesar de permitir crueldades e tragédias porque é inalcançavelmente sábio, se Seus planos incluem nos testar, então Ele é um jogador sádico, pois conhece de antemão o resultado. Que diabo de teste é esse? Ou bem Ele já sabe o que vamos fazer e por isso não podemos ser julgados por nada ou bem Ele não sabe, mas aí não é onisciente, será um deus (com minúscula) “meia-boca”. Um deus aos moldes dos deuses pagãos, com características humanas.

 

Confira a análise de um filósofo sobre o premiado filme O Clube

 

O que me permite voltar à angústia karamazoviana de António Vieira. Estará seu astrônomo certo? Será mesmo que sem Ele tudo é permitido? Se somos realmente livres, a despeito da previsibilidade das leis da Física, à maneira dennettiana, ainda somos responsáveis pelas decisões que tomamos e elogiáveis ou puníveis a partir delas. O mundo está cheio de desgraça, há guerras (várias delas em nome d’Ele, diga-se), miséria, injustiças sociais, atrocidades individuais e coletivas a ponto de fazer algum sentido a tese da Ética negativa de Julio Cabrera (Por que é ético ter filhos? Por que é ético ser?)

 

Mas, então, nós somos. E o pior, somos com. Não há como ignorar a incômoda existência do… outro. Portanto volta a não fazer sentido a tese de Cabrera. A Ética não começa tarde demais, como ele diz, mas, sim, começa quando tem de começar. Se o xadrez existe, precisa de regras. Se nós existimos, também. Tais regras não estão “escritas na pedra”, concordando com a Tia May de Crimes e pecados, de Woody Allen. Em outras palavras, não vieram de cima, num raio celestial. Foram criadas por nós. E continuam sendo. Somos um bando de animais egocêntricos, nepotistas e alterfóbicos, como todo animal, mas com uma característica única, uma maldição, que é a consciência de si. Com ela, a culpa.

 

O cadáver de Deus flutuando no cosmos deve ser uma imagem fascinante. Será que foi suicídio?

 

 

*Flávio Paranhos é médico (UFGO), doutor (UFMG) e research fellow (HARVARD) em oftalmologia. Mestre (UFGO) e visiting fellow (TUFTS) em Filosofia. Professor da PUC-GOIÁS. coordenador da coleção de Filosofia & Cinema da Nankin Editorial.

Adaptado do texto “Deus está morto, acharam o cadáver”