O eu-profundo-vácuo

Nosso eu-profundo é escravo da matéria que nos ilude na emanação do vácuo

Por Amadeu Roberto Garrido de Paula | Foto Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

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Muito longe, talvez pouco, não o sabemos. Alguns defendem que não é a matéria. Não são nossos corpos. Nossas camas. Nossas mesas. Nosso salário ou lucro e o trabalho. Não há como identificá-lo pela linguagem, a não ser se dermos de barato e chamarmos o numinoso de vácuo. O vácuo não é mundo, é o nada (lá vai o concreto, o nada). Somos escravos da matéria que nos ilude na emanação do vácuo.

Não temos personalidades presas à matéria, não gostamos ou gostamos de doces ou salgados, não somos, “motu próprio”, o que imaginamos ser, somos apenas emanações do vácuo. Claro, vem a lembrança de Platão e de Ficthe. O vácuo está muito além das apreensões transcendentais de Kant, é projeto tão complexo que todos os seus efeitos são díspares.

É no vácuo que se formam nosso eu ou nossos eus, já que não há identidade entre eles. Nosso eu não é o material, provindo de interesses, ataques, defesas, lutas, vida e morte. É produzido, ou não, simplesmente caracterizado, lá ou aqui pertinho, no vácuo.

Nosso eu-profundo é o grande mistério envolvido pelas coisas materiais. Até Karl Marx o reverenciou, em sua filosofia idealista, muito embora, com sua incomum capacidade literária, tenha mencionado “idealismo às avessas”, para falar de Hegel, ou o “homem novo”, nada de admirável, que a revolução da igualdade construiria, depois de escapar do capitalismo.

Nunca compreendia muito bem Leibniz e suas mônadas indivisíveis, autônomas e incomunicáveis. Não estariam, porém, elas materializadas no mundo contemporâneo? Há incomunicação mais gritante do que os votos dados ao demônio americano, em número inferior ao da vontade popular, mas que uma velha ficção o conduziu ao poder destruidor?

Nada precário ou passageiro pode ter existência. É uma simples e constante perspectiva do fim. Por que esse eu-fundamental-vácuo não é o mesmo para todos aqueles que chamamos de pessoas? Mais exatamente, de indivíduos, porque todos são distintos em suas individualidades. Não há sequer uma igualdade, nesse imenso espaço modelado pelo tempo, até mesmo entre frutos do mesmo esperma e do mesmo útero. Só semelhanças.

Nosso eu fundamental do vácuo está diante do que neste mundo denominamos de maniqueísmo, teoria formulada por simplificadores do complexo e da dualidade anteposta sem nuances, para comodidade de seus cérebros. Ao contrário, homens, mulheres, árvores, porcos, maçãs, galinhas, flores, são esse formoso caleidoscópio universal que somente produz o engodo da verdade, vinda lá do vácuo, quântico ou não.

Não há nenhuma possibilidade de um mundo comum, mas apenas de metas e fins aproximados, determinados, que o antecessor do vácuo de Ficthe, Emmanuel Kant, considerava “categorias” e às quais preferiu nominar de “razão”. As razões são sempre diferentes, embora não raro se aproximem, para que as categorias materiais provenientes do vácuo possam garantir a sobrevivência do ser e o nada.

Saiba mais sobre essa reflexão em Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 131!

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