Eu, o outro e todas as pessoas

dos casos reto e oblíquo

Por Vânia Azeredo* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Sempre soubera que as Humanidades estariam entre minhas escolhas de estudo, como uma necessidade latente de respostas acerca de questões peculiares da condição humana, demasiado humana, passando por perguntas sobre o tempo, o espaço, o outro, o eu e as vicissitudes do percurso da existência, que nos toca e nos define. Uma inclinação para a Arqueologia indicava a precisão da proveniência do todo e de cada parte dele inscritos nos objetos do passado, enterrados em momentos perdidos das horas que eu poderia entender, conjugar e situar no presente em que vivia. O interesse pela História revelava o impulso de compreensão do percurso da humanidade nos registros temporais, fossem eles sucessivos ou não. O que foi escrito e tudo aquilo que subjazia a cada inscrição registrada na pedra, nos monumentos, no papel inocente que eu almejava me apropriar, conferindo sentidos para todos os tempos. O encontro da Filosofia selava o início de meu próprio fim. Era esse fazer, ainda sem saber fazer, que percorria minhas entranhas e nutria minhas veias e veios pulsantes no entendimento do mundo, do outro, do tempo, do espaço e das vicissitudes da existência humana, demasiado humana que adornava em limite meu ser. Entendi o sentido do fim nesse encontro, quando percebi que encontrara a chave das perguntas na elaboração discursiva de respostas, que atravessaram e atravessam as Humanidades pelo registro histórico dos textos de peculiares pensadores pelos quais me apaixonei. Sempre os chamaram de filósofos. Quiçá um dia, me chamarão assim! Senão, terei vivido o encontro como sentido e fim do meu viver e fazer par além da precisão, no limite que me exigia a urgência de ser ao lado de todo meu não ser, clamante da pertença nos fragmentos do sentir falantes que me atravessavam e definiam desde o rubor da face até a ausência de respostas, chegando às letras dispostas e compreendedoras de meu dizer tateante à procura do eu e do outro no mundo. Entrementes, encontrei o outro como senhor da minha casa a esbarrar na razão guiadora do ex- presso em nome do latente, atravessando as veias dormentes de meus sentidos mais caros, com galopes ritmados e contínuos a exigir uma postura do eu e do dizer que envolvesse o sentido nas malhas de minha alma, qual fonte perspectiva de tudo que havia dito e do que ainda havia por dizer, como uma sinfonia calada e calcada nesse escrever sinfônico que diz bem mais do que eu. Revelador do passado, sem ser no presente, em um tempo fora das minhas horas senhorias e dos temas acordados. Dormindo entre o eu e o outro de mim revela os dramas de minha carne, padecente das escolhas do eu em busca do outro que não ele. Lágrimas torrenciais, quais chuvas de invernos pingantes e revoltados com o entorno tombaram anunciando mudanças na visada de meus olhos fitados na gramática. Nela adormecera o outro do meu eu a exigir o comando de minha veste em farrapos. Despida em frenesi tremulante, copulei com as normas da língua e do dicionário inertes à minha frente. Despertei plena do outro mais que do eu, o outro que adormecera por mim na neutralidade de meu discurso, defensor do sentido que não era sentido, despertou e me vestiu da dispensa sentida  reclamou por palavras policromáticas e músicas dissonantes que brotassem do silêncio de minhas letras compostas e dispostas na unidade que só eu sabia e ocultara de todos pelo medo pânico de ser. Entendi finalmente por que sofrera de sanidade desperta por toda vida sem o menor sentido. Sentia agora um clamor e um desejo de ser outra via inventora do tempo e do espaço ritmado das letras pulsantes que gerava em solidão completa como uma seta e uma sina ligadora do cordão rompido de meu umbigo ao nascer. Encontrei minha ama e amante maior na composição do verso encarnado em mim, como o azul do céu que revela o sol e a lua em diferença brilhante e iluminadora do mundo, nascendo e morrendo de ser a cada dia em hora dependente de estação. Assim eu era antes de ser e de saber. Hoje sei e alimento minhas veias querentes de letras com a batuta do outro sem sentido e sem razão, que vaza de meu corpo pelos poros abertos e anunciadores do nada que me habita e clama por ser. Em meio à espessa fumaça que inalo e regurgito para me disfarçar no espelho que me fita incólume dos devaneios reveladores dos sentidos, sentidos demais, digo para todos que a literatura é meu sentido e minha paz, atravessada pelos nomes da história passada que me tocaram, bateram, nutriram e revelaram em cada feito e em cada por fazer que beijo todos os dias quando durmo, repetindo o mesmo gesto, movimento e apreço ao amanhecer. Em alegrias retardadas pelas ondas de um mar infinito, deito com as estrelas e acordo com os raios de sol, que batendo nos meus sentidos plenos e compostos despertam meus múltiplos modos de ser, de calar e de dizer. Que assim sejam doravante, uma abertura completa aos portais. Escrevo sobre aqui- lo que vem e vai. Motivo inesperado e emotivo. Intermitente cai insistente sobre a inocência do papel. Fruto inesperado do momento invade pensamentos num repente. Vem como o sopro do vento, caindo sobre a língua viva. Vai abrindo portas. Vem trazendo portais. Palavras são portos e portas. Quanto aos motivos, banais, por tais… por tais…

*Vânia Dutra de Azeredo é professora substituta do curso de Filosofia da UNIOESTE e pós-doutoranda do curso de pós-graduação em Ética da Universiade de Caxias Do Sul. Eescreveu Nietzsche e a Dissolução da moral. (Discurso, 2000, 2003), Nietzsche e a aurora de uma nova ética (Humanitas; UNIJUI, FAPESP, 2008), Nietzsche e a condição pós-moderna (Humanitas; FAPESP; CNPQ, 2013).

 

Fotos: Revista Filosofia Ciência e Vida Ed. 111