Estudo sobre a Internet

Por João Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Antigamente, os criminosos se orgulhavam de façanhas como invadir cofres-fortes de bancos através de longos túneis subterrâneos. Mas os criminosos virtuais não ficam atrás. Em 2008, equipes da Universidade de Massachusetts Amherst e da Universidade de Washington anunciaram que conseguiram, pela primeira vez, desligar o marca-passo de uma pessoa usando apenas um smartphone. Uma proeza desse tipo só poderia gerar pânico entre pacientes cardíacos, mas havia uma intenção criminosa mais sutil: vender pacotes antivírus para essas pessoas, que, ameaçadas, pagariam qualquer preço por eles.

 

A internet modificou a guerra. A figura do soldado em uma trincheira atirando com um fuzil pesado se tornou obsoleta. É muito mais eficiente coordenar um ataque virtual às usinas de energia elétrica e de tratamento de água de um país do que bombardeá-lo.

 

As redes sociais criaram muitas distorções. No Facebook é possível ficar instantaneamente famoso comprando pacotes de “curtidas” vendidos on-line a preços módicos. Por sorte, essas celebridades virtuais desaparecem logo que surgem outras e, por isso, ninguém as leva a sério. O Twitter exige que qualquer pensamento seja expresso em 140 caracteres, o que, cada vez mais, confirma a teoria do pensador canadense ­Marshall McLuhan: o meio se tornou a mensagem. O vício na internet, que, quase sempre, está relacionado ao uso excessivo das redes sociais, exigiu a criação de clínicas de desintoxicação digital.

 

O fim da internet?

 

Não se sabe ainda, exatamente, que tipo de tecnologia é a internet, nem tampouco suas consequências nas próximas décadas. No entanto, seu impacto é tão grande que forçou as sociedades a, cada vez mais, se adaptarem a ela. Nos últimos anos, a internet passou a determinar o modo como são realizadas as operações financeiras, o ensino e as relações sociais.

 

Imersão em mundos virtuais

 

Os crimes virtuais que ocorrem na internet eram inimagináveis há 25 anos e, por isso, o criador da rede, o inglês Tim Berners-Lee, enfatizou recentemente a necessidade de escrever uma constituição internacional para o mundo virtual. Há propostas, também, para repensar o modo como os links são organizados e os critérios embutidos nos algoritmos de busca do Google.

 

Creio que, depois de um quarto de século, algumas reformas serão necessárias. Contudo, o grande desafio será conciliar a governança da internet com a preservação da anarquia que, até agora, tem sido seu princípio geral, o que a tornou um dos maiores experimentos políticos da história. O gênio escapou da garrafa e agora não há como voltar.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 94

Adaptado do texto “Paisagens da internet (parte I)”

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett  os Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos Carlos (Ufscar). www.filosofiadamente.org