Entenda a ideologia por trás da moda

Por Lucas Vasques | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

A curiosa relação entre a Literatura e a Moda, a partir do ponto de vista da Filosofia, é o que move Brunno Almeida Maia a estudar e mergulhar nesse universo. Desde 2012, ele realiza pesquisas sobre o tema, com seus trabalhos se desdobrando em palestras, cursos, oficinas e workshops. Ao lado do chapeleiro Eduardo Laurino, realizou recentemente o curso chamado Caligrafia dos Gestos – A Literatura e a Moda, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc SP.

 

No começo de 2016, lançou seu segundo livro, pela Editora Estação Letras & Cores. Trata-se de uma participação, ao lado de vários pesquisadores, na obra que leva o título de Moda, Vestimenta e Corpo, uma coletânea sobre Moda Brasileira. Maia é responsável pelo capítulo que analisa a moda e a literatura, no contexto do Segundo Império no Brasil, a partir do romance Lucíola, de José de Alencar.

 

“Um guarda-roupa não é somente um móvel imaculado e consagrado em um quarto. É, também, um espaço de reminiscências, memória e temporalidades. Quantos segredos, histórias, personagens e cenas um vestido esquecido no fundo do armário é capaz de resguardar? Ao retornar para as mãos que o tocam, revela não somente o passado, mas o cheiro do silêncio – como em um porta-retratos indesejado – que é capaz de trazer para o presente uma emoção esquecida,  suscitar o suspiro desinteressado ao contemplar uma paisagem, como em Proust: a busca pelo tempo perdido”, reflete Maia.

 

Brunno Maia | Foto: Dellavestruz

 

Paulistano, como estudante de Filosofia na Universidade Federal de São Paulo, dedicou-se à pesquisa sobre o autor francês Georges Bataille, ao estudo de gênero, sexualidade e diferenças no grupo INANNA da PUC-SP, e, hoje, ministra aulas sobre a relação entre literatura e moda ao lado do estilista Walter Rodrigues e do chapeleiro Eduardo Laurino.

 
FILOSOFIA: Quais as relações entre Literatura e Moda, sob o ponto de vista da Filosofia, objeto de seus estudos?

Maia: A pergunta pode ser respondida de duas maneiras. A primeira é a compreensão da Filosofia como ciência da origem, portanto, a busca, neste caso, da relação etimológica existente entre as palavras texto e tecido no grego e no latim. Quem nos indica esta curiosa aproximação é o filósofo Roland Barthes, em O Prazer do Texto. Como alargamento da razão, as palavras texere (latim) e huphaín’ (grego arcaico) abrem múltiplos sentidos, significando tanto o costumeiro tecer no ofício das costureiras, o sentido narrativo de “tecer comentários sobre alguém”, ou, como aparecem na Ilíada e na Odisseia de Homero, ambas escritas por volta do século VIII a.C: “os deuses teceram algo…”. Ou seja, a palavra possuindo uma constelação de significados nos indica que no ato de tecer algo é narrado, e no ato de narrar, por seu turno, algo é tecido. A minha avó materna, que fora costureira em sua pequena cidade natal de São João do Oriente, em Minas Gerais, conta que durante as visitas de suas clientes ao seu ateliê, para as provas de roupas, histórias – nem sempre as mais felizes – eram contadas ao redor da velha máquina de costura. Temos aí, portanto, um indicativo de aproximação com a tradição oral, a tradição material e a tradição afetiva. Foi inevitável, ao longo destes anos de pesquisa, relacionar esta questão com o declínio da narração no Ocidente, especificamente com o texto O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, de Walter Benjamin, no qual, resumidamente, ele mostra que enquanto os antigos narradores contavam as histórias, que eram verdadeiros provérbios, parábolas e conselhos práticos para a vida, teciam, gravando nos corações e nos espíritos de quem as ouviam, toda uma tradição do saber-viver e saber-fazer. Portanto, estamos na nascença da Filosofia, como sabedoria prática, como modo de vida. Ora, isto era possível devido a uma percepção temporal, antes daquilo que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”, no qual a “distração atenta” e a contemplação eram possíveis. Era uma época contrária à do capitalismo moderno, na qual o Tempo não se “contava”, para usar uma bela expressão do poeta Paul Valèry. Na antiga tecnologia do tear, a trama representava a rememoração, ao passo que a urdidura era o esquecimento. Bela analogia, uma vez que a maior descoberta da Psicologia moderna foi a de entender que a consciência não suporta apenas o constante lembrar, ela deve se ocupar, também, da arte do esquecimento.

 

 

FILOSOFIA: Qual seria o segundo ponto de análise?

Maia: No que diz respeito ao segundo ponto, trata-se de compreender o “caráter epistemológico da Moda”, e para tal tarefa me apoio no método – de desvio! – benjaminiano, e no uso da alegoria. A Origem do Drama Barroco Alemão – sua tese de livre-docência – falou do século XIX desviando-se pelo século XVII, pois, por este anacronismo, Benjamin combatia o historicismo e o método positivista ou cientificista da inteligibilidade, das leis que regem as identidades, excluindo as diferenças, e das deduções onde nada escapa. Trata-se na alegoria, que significa, grosseiramente (allo, outro/ agorein, dizer), “dizer outro”, de buscar, na expressão da professora Olgária Matos, não um desejo de evidência – como no cartesianismo –, mas um desejo de vidência. O sujeito torna-se leitor e autor dos sinais históricos, pois a alegoria possui como sentido profundo a arbitrariedade. Pensar a roupa como alegoria significa extrair o que ela contém, no seu aspecto fenomênico e transitório, de filosófico e eterno. Trata- se de pensar a relação da consciência com as coisas materiais, da memória que uma peça de roupa é capaz de suscitar involuntariamente, da sua própria dimensão ontológica de finitude, ou seja, de Morte. No trabalho das Passagens, Walter Benjamin propõe a dialética da Moda, pensando-a como desejo (vida: a tendência ainda não consumada) e como cadáver (morte: a tendência consumada). Neste sentido, estamos no campo da Filosofia, da extração, a partir do mundo dos fenômenos, da Ideia. A Morte, a condição de finitude das coisas e da existência humana, a passagem e a percepção psíquica do Tempo e a consciência dizem respeito, como sabemos, à Filosofia.

 

FILOSOFIA: Você vai de Platão até Deleuze, passando por Clarice Lispector, entre outros. Como encontrou relações filosóficas entre esses nomes?

Maia: Busco nos textos de autores, escritores e filósofos, a questão da roupa como alegoria, no sentido benjaminiano já exposto. Isto significa dizer que ao ler estes textos, procuro questões que são próprias da Filosofia, como o Tempo, a Identidade, a relação da consciência com o objeto, e no sentido político, a questão de gêneros e as relações de poder. Ao utilizar autores tão díspares, é como se buscasse traçar uma história do pensamento por meio de como as roupas aparecem nestes textos. O que aquilo que está mais próximo do corpo – a roupa como uma segunda pele tem a dizer sobre a construção do pensamento no Ocidente e a busca por uma transcendência?

 

Clarice Lispector | Foto: Revista Literatura Ed. 54

 

FILOSOFIA: Como definir a moda, sob a perspectiva da Filosofia?

Maia: Vivemos numa época em que a Moda não diz mais respeito, apenas, às roupas, mas a todas as instâncias e espaços da vida humana em sociedade, desde a política, a economia, a privatividade e as relações sociais, incluindo aí, as amorosas. Mais ainda, com o fenômeno do fast fashion, uma mesma roupa que é vendida numa loja no Brasil, pode ser encontrada em quase todos os países de culturas diferentes, mas que possuem moda – no sentido ocidentalizado e moderno da palavra. Como avaliar as identidades e os processos de subjetivação, sendo que há uma mesma referência de imagem de moda (tendência) em todas as culturas? A questão torna-se mais complexa: como decifrar, então, algo que perdura, mas que morre e reaparece com força intensa desde o século XIV, ou seja, algo que atravessa “o tempo”, e se mantém intacta como produtora de desejo? Tanto no primeiro, quanto no segundo caso, temos algo em comum filosoficamente. O quê? O conceito de Tempo. Parece-me que as discussões mais interessantes e profícuas vão neste sentido, de tentar entender o tempo inapreensível da Moda, portanto, que não é possível de se medir pelo cronômetro tradicional, que está em “todos os lugares”, logo, não está em lugar nenhum. Como se estivéssemos num tempo em que é possível se medir a própria temporalidade histórica perguntando à Moda: “Que horas são?”. No entanto, há um impasse, ela nunca se fixa. Daí, que Walter Benjamin vai compará-la, nas Passagens, com a morte. Por quê? Justamente por ser, a Moda, o instante do indizível (ela é, já não sendo mais), como apreendê-la fenomenologicamente e, principalmente, teoricamente, sendo que ela é aquilo que nos “assalta de surpresa”, levando-nos a não reconhecer a sua face, a sua “essência”? Neste sentido, não de maneira que feche – mas que abra a questão – ousaria responder que a Moda, a partir do ponto de vista da Filosofia, é um fenômeno que possibilita a percepção e o incessante perguntar por um enigma: como entender o Tempo em nossa época?

 

Zygmunt Bauman | Foto: Kubic

 

FILOSOFIA: Zygmunt Bauman, um dos principais filósofos da atualidade, é um crítico feroz do consumismo, além de criador da expressão “modernidade líquida”. A moda pode ser compreendida, também, como uma manifestação do consumismo e, por isso, ela se relaciona com a superficialidade característica das reações líquidas?

Maia: A perspectiva de Zygmunt Bauman da modernidade líquida possui a sua validade na medida em que ele atualiza um comentário do jovem Marx e de Engels num trecho do Manifesto Comunista. Ao evocar o modo de produção capitalista, dizem que “Todas as relações fixas e congeladas, com seu cortejo de vetustas representações e concepções, são dissolvidas, todas as relações recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo que é sólido se desmancha no ar”. É próprio de um programa que se pretende revolucionário, propor uma visão apocalíptica do mundo. No entanto, temo um pouco essa visão de mundo que vai colocá-lo sempre no romper do pior. Sei que Bauman não se refere somente ao pessimismo de nossa época, mas às inconstâncias e aos fluxos geracionais de informações, à sociedade em redes, aos vínculos virtuais. É preciso pensar o avesso do bordado, para ficar numa linguagem apropriada à discussão, ou seja, como é possível buscar o “eterno, a beleza no transitório”, para usar uma expressão do poeta francês Charles Baudelaire? A Modernidade que traz essa ideia de “relações instáveis”, do qual Baudelaire é percursor, é esse duplo, não dualista, pois é o fim da fé religiosa, da queda de Deus e de um desencantamento do mundo pela racionalização da técnica e pelo triunfo de uma ciência totalitária, que não se pergunta mais pelo seu fim, ela ultrapassa o homem. Por isso, penso ser importante recuperar Benjamin e Baudelaire para as discussões de nosso tempo. Não só recuperá-los como promessa messiânica, longe disto, mas reler os dois autores sob a luz de nossas urgências. Devemos, além de fazer a crítica como Bauman, restituir a nossa capacidade imaginativa criando personagens que modificarão a nossa relação com o espaço do existente.

 

 

Adaptado do texto “Busco nos textos de filósofos a questão da roupa como alegoria”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 115