Entenda a estética da solidão

A solitude, um difícil exercício experimentado pela humanidade, é audaciosa e invade as mais agudas fissuras das insuficiências do existencial

Poe Ana Maria Haddad Baptista* | Foto:123RF | Adaptação web Caroline Svitras

 

Solidão é vertigem-abismo. Sentir-se “…habitado por uma paisagem de pedra e areia”. Sentir “…arder a força de mil vórtices, o ímpeto de mil naufrágios”. Solidão… uma travessia que equivaleria ao infinito, afirma Guimarães Rosa. Solidão são como portas que se “…abrirão e fecharão, continuarão abrindo e fechando, e através delas tenho visões que me fazem chorar. Pois não podem ser comunicadas. Daí nossa solidão; nossa desolação. Volto àquele ponto em minha mente, e o encontro vazio. Minhas próprias fraquezas me oprimem. Ele já não existe, para contrastar com elas”.

 

Quando crianças, a nossa consciência vive, praticamente, de um “aqui-agora”. Presentidade. O inanalisável. O que mais interessa é o momento. Quase como os animais que vivem mergulhados num tempo sem tempo. Destempo? Reinam em nós um ontem muito próximo, a ação no presente e a projeção de um amanhã que deverá satisfazer algumas necessidades mais imediatas de ganhar um brinquedo, um bolo de aniversário ou uma quinquilharia qualquer. “A conduta dos adultos só me parecia suspeita à medida que refletia o equívoco de minha condição de criança; contra esta é que me insurgia, mas aceitava, sem a menor hesitação, os dogmas e o valores que me eram propostos”.

 

Enquanto crianças, as pequenas alegrias se prolongam em meio a nossas expectativas, dificilmente, malogradas. As tristezas são breves porque esquecidas após um carinho, uma brincadeira, um  doce, o afago de um cachorro, o roçar de um gato solitário. A aceitação do mundo imposto pelos adultos soa como um imperativo do qual sabemos, intuitivamente, de que não teremos como escapar. Quando crianças, muitas vezes, sob ilusões de uma sonhada liberdade em diversos âmbitos, nos persegue a vontade de nos tornarmos adultos. Buscamos nos livrar das ordens superiores. Na verdade imaginamos um universo sem os grilhões impostos pelos adultos. Lou Andreas-Salomé (1861-1937) afirmou que a primeira infância “é também o de toda a primitiva humanidade, pois nela continua a manifestar-se um sentimento de dependência do universo, ao lado das experiências da crescente conscientização: como uma poderosa lenda de participação inalienável à onipotência”.

 

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Certo dia, no entanto, acordamos e percebemos algumas insatisfações que antes não teríamos sentido. Parece-nos que o mundo torna-se gradativamente diferente. Sentimos uma espécie de descontinuidade temporal. Hiatos de tempo. Olhamos para tudo como se um mundo novo estivesse nascendo. Há o nascimento de alguma coisa desconcertante. E a adolescência chega. Com ela, de fato, a consciência. Na verdade, uma nova consciência de nós. Do mundo. E, desta forma, tudo gira, gira, gira. E muda. Perdemos a âncora, aparentemente, tão segura do que éramos. Aquela que nos indicava os aromas, brincadeiras, sabores, corridas ao vento e com o vento. “– Agora, relva e árvores, o ar que passa soprando espaços vazios no céu azul que depois se recobrem, sacudindo folhas que depois retornaram a seus lugares, e nosso círculo aqui, sentados, braços segurando nossos joelhos, tudo isso sugere uma outra ordem de coisas,  superior, cuja razão de ser é eterna. Percebo isso por um segundo”. Um descontentamento meio que sem explicações começa a nos dominar.

 

E o sol! Ora se torna mais brilhante, ora ofuscante. Achamos que as estrelas são mais estrelas. Nuas. E até conseguem desmaiar. “Não percebia nenhum vestígio de minha subjetividade. Eu me quisera sem limites: era informe como o infinito. O paradoxo está em que só percebi essa deficiência no momento exato em que descobri minha individualidade; minha pretensão ao universal parecera-me até então natural e eis que tornara um traço de meu caráter”. Mais: “Com uma pequena luneta e um atlas celeste eu tentava, aos treze anos, decifrar, desengonçado e boquiaberto, os complicados arabescos com que os homens mapearam os céu. Dezembro terminava, e a história de minha solidão adquiria um estranho componente noturno. (…) E tremia com Pascal diante do Silêncio. E mergulhava com Leopardi no Infinito. De um lado, o firmamento pontilhado de estrelas. De outro, minhas divagações trespassadas de incerteza. Que mais poderia esperar ver senão o zodíaco da vida? Espelhos que me refletissem e demarcassem o rosto de minha transitoriedade. O resto de uma estrela contemplando a própria origem. Sonhando o retorno”. E também… “Tinha quinze anos. E uma vontade de viver e uma paixão arraigada de perscrutar o mundo e as coisas”.

 

A solidão é condição humana. Existencial. Pode ser “… espessa cobertura de cascas de cipreste (…) como uma sombra pesada, escura e volumosa”. A incompletude jamais preenchida. Vácuo. O vazio cheio de  assombros que não param de acenar e se debater na interioridade de uma existência. Sentir-se como exilados de nós mesmos. Apartados de um tempo em si, como diria Immanuel Kant (1724-1804).  Condenados, de forma implacável, pelo instante e intervalo que jamais se fixam. Afinal, não custa  lembrar com Gilles Deleuze (1925-1995): nada é mais misterioso do que a incomunicabilidade do presente. E esta incomunicabilidade atravessa as almas. “Nascer e morrer são experiências de solidão. Nós nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Nada é tão grave quanto esse primeiro mergulho na solidão que é nascer, com exceção dessa outra queda no desconhecido que é morrer”. A solidão é subterrânea. Pode aflorar a qualquer momento. Instantes de solidão. Intervalos em forma de casulos inexplicáveis. “Ainda não desapareci totalmente de mim. Persisto. Perlustro. Persigo minha solidão e suporto minha escassa permanência”. A solidão pode ser “…uma flor noturna iluminada pelos raios negros de um astro”. Novamente: nascemos sozinhos. Morremos sozinhos. Assim a solidão se revela, sempre, como condição existencial humana inescapável.

 

Eu, o outro e todas as pessoas

 

Mas o que é a solidão? Poetizada, romanceada, pensada… A solidão é o estado do ser em que ele se encontra frente a frente com sua mais absoluta incompletude. Nessa medida, ficam mais nítidas as dimensões da própria solidão, ou seja, um esvaziamento interior que não para de escavar a subjetividade. Corroê-la asperamente. Solidão é um estado de enfrentamento com os limites de nossa liberdade. Uma espécie, talvez, de Prova de Homem:

 

Na densa e silenciosa escuridão como a noite/de um amor desperdiçado/sequer uma palavra/só o nariz erguido na direção de um céu invisível/zigoma apertado nesta imagem/ que cai no teu ventre como um cão/ magoado na soleira de sua última vontade/de tornar-se homem. 

 

Apesar de estarmos condenados a viver sozinhos, também estamos condenados a atravessar nossa solidão. Ou seja, refazer as tramas que em nosso passado nos uniam à vida, afirma Octavio Paz (1914- 1998), e: “Assim, sentir-nos sós tem um duplo significado: consiste por um lado, em ter consciência de si mesmo; por um outro, em desejo de sair de si”.

 

 

Tentáculos da solidão

Em princípio, a solidão é uma condição humana que não distingue gêneros. Talvez uma pergunta poderia ser formulada da seguinte maneira: a solidão feminina é mais aguda? Mais profunda? Mais cruel? Sutil? Ao mesmo tempo que a solidão integra a condição humana, há aqui uma dialética, como afirma Paz, que consiste na busca. A busca de algo. E nessa busca, a mais essencial: a busca do outro. A busca do amor. Mas os poderes (visíveis e invisíveis) “… revogam a solidão por decreto. E com ela o amor, forma clandestina e heroica de comunhão (…) A situação do amor no nosso tempo revela a dialética da solidão, em sua manifestação mais profunda, tende a frustrar por obra da própria sociedade”. E nessa medida, tanto o homem como a mulher são prejudicados. Por um lado, afirma Paz, porque a mulher seria uma presa por meio da perspectiva masculina que lhe impõe um comportamento, um padrão. E ela, fatalmente, quase nunca consegue ser ela mesma.

 

 

Na verdade, a autenticidade feminina é negada porque refém de modelos e convenções impostas. Uma mulher para ser ela mesma tem que transgredir, se atrever a fazer uso de sua liberdade, como tão bem fizeram, Safo de Lesbos (620 a.C. – 570 a.C, aprox.), Zenóbia (240-274), Marie Curi (1867-1934), Lou Andreas-Salomé (1861-1937), Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Anna Akhmátova (1889-1966), Simone de Beauvoir (1908-1986), somente para ficarmos com alguns exemplos femininos. E a transgressão supõe riscos imprevisíveis. Mas, o homem também é vítima do que a sociedade espera dele. O homem ainda é visto como o provedor. As mensagens populares, fortes imagens, expressam… “homem que é homem não chora”; “homem tem que ser cabra macho” e outras dezenas de expressões alimentam, infelizmente, o que se espera de “um homem que é homem”. Esquece-se, (como tantos lúcidos já colocaram), que gênero é uma construção cultural, ideológica, intencional, histórica. Sobretudo, perversa. Imposta. Reiteramos: “O amor é um dos exemplos mais claros desse duplo instinto que nos leva a escavar e aprofundar-nos em nós mesmos e, simultaneamente, sair de nós e realizar-nos em outro: morte e recriação, solidão e comunhão. Mas não é só. Na vida de todo homem há uma série de momentos que também são rupturas e reuniões, separações e reconciliações. Cada uma dessas etapas é uma tentativa de transcender a nossa solidão, seguida de imersões em ambientes alheios”.

 

Entretanto, existe mais uma dificuldade para aplacarmos a nossa solidão quando na busca do outro. Lawrence indaga: em que medida o amor poderia ultrapassar um eu impessoal e qualquer dimensão de ordem emotiva? “Mas desejamos sempre ter a ilusão de que o amor está na raiz. Puro engano! O amor reside apenas nos ramos. A raiz está além, no perfeito isolamento, um eu isolado, que não encontra ninguém com quem se misture e que seria mesmo incapaz de o fazer”. E a pergunta poderia ser: em que medida conseguimos atingir o outro? A comunhão com o outro é possível? Estamos permanentemente encapsulados em nós mesmos. Sufocados. Afogados. Os encontros são constantemente grifados pela incomunicabilidade. Estamos condenados aos desvios. Os outros fora de nós são sempre inalcançáveis. Inatingíveis.

 

 

A travessia

Se caminharmos, uma vez mais pela Literatura, podemos inferir que existem travessias plurais rumo ao enfretamento da solidão. “Fui então para o tanque de banho, lavei a boca, as mãos, meti os  pés na água morna, limpinha, um fundo de areia se via em dourados de sol, caminhei pelo regato,  turvando a água, pisei em pedras frias, pedras quentes, a vida dava tantas novidades, de qualquer miudeza se podia tirar notícia, ouvi risadas, avistei as pessoas de longe, todas entre si, a rir, falar, fazer gestos, e eu me metia a ficar só”. Ainda: “A hora em que mais eu percebia o tempo era quando fazia labirintos, o tempo ia se desenrolando nas linhas, nos bailados uniformes das mãos, repetidos, fixados como se os fios fossem as próprias mãos pensando, os fios iam prendendo os momentos, recontando os instantes, amarrando a juventude e tudo ficava perdido ali, enterrado no algodão, naquela vigília em que eu ia dando nós no pensamento e nos sonhos e nas lembranças, nos pontos”. Uma das estratégias femininas, para atravessar a solidão, é voltar-se para os tecidos. Costurar, remendar, tecer com os fios. E, nessa medida, como afirma Ana Miranda, sentir o tempo escoando e, simultaneamente, as mulheres enterram-se em suas lembranças. Recontar instantes é recontar pontos que tecem. Entrelaçam-se. Como uma espécie de caligrafia silenciosa. O crochê, por exemplo, possui determinadas particularidades que são atraentes, entre elas, a liberdade. Com qualquer fio, não importa a composição ou a espessura, e apenas uma agulha trama-se o que a imaginação, o pensamento e a sensibilidade cintilarem! E ao mesmo tempo, enquanto se tece, os instantes desfilam-se ante aos nossos olhos em quase total sintonia com os pensamentos. O crochê pode ser um adoçante da travessia (profundamente feminina) para a solidão.

De que somos feitos?

 

Há uma solidão, por ela mesma, …espacial… “Toda a estrutura parecia ocupar um âmbito próprio, um espaço de solidão e de esquecimento, vedado aos vícios do tempo e aos costumes dos pássaros”. Há lugares e paisagens que estimulam e espreitam a solidão. Lugares em que o silêncio se prolonga. Perdura sem apontar para uma finalidade. E, visto por tal ângulo, uma outra dimensão do sentimento de solidão se traduz, também, pela nostalgia do espaço. “Não fomos somente expulsos do centro do mundo e condenados a procurá-lo entre relvas e desertos ou pelos meandros e subterrâneos do Labirinto”. E assim: “Estou só. Completamente só. Esperei tanto, mas tenho medo. Como se minha vida fosse uma longa sucessão de erros. Como se todas as decisões não passassem de um cálculo impreciso, de um entusiasmo exacerbado, em que guardo apenas a certeza de estar na iminência de outro erro. Temo que algo de mau sobrepaire. E me desespero. Planejo desertos para me perder nas lonjuras de mim. Jamais evitei os labirintos, porque talvez, ao percorrê-los, compreenda minha desordem, e deles espero uma força de vida, que não me falta, mas que,às vezes, parece abandonar-me, frente ao desconhecido”.

 

Exercitar a solidão é exercitar um silêncio que se prolonga e rege, impiedosamente, os nossos limites de confronto com a liberdade. Exercício pesado. Tumultuado? Se utilizarmos os postulados de Henri Bergson (1859-1941), seria como fazer prospecções nos diversos estratos-níveis de nossa subjetividade. O confronto com a solidão é conseguir existir por si e com si. Por isso, Sartre, em diversos momentos de suas obras, adverte, ironicamente, que existem pessoas, que para existirem, precisam estar reunidas com outras. Jamais se bastam. Mas somente com outras. Jamais conseguem ser elas mesmas na busca de uma unidade.

 

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O exercício da solidão (a traves- sia) leva à angústia no sentido mais agudo: “a angústia é angústia diante de mim mesmo. A verti- gem é angústia na medida em que tenho medo, não de cair no precipício, mas de me jogar nele”. Precipício. Sedução.

 

Quando Paz declara que não fomos expulsos somente do centro do mundo, lembra que, também, fomos banidos do tempo. Outrora, sabemos, o tempo não tinha horas. Não havia um passado, presente e futuro. Havia um tempo único. As dimensões do tempo estavam contidas no fluir que fixava o presente. A eternidade. Mas fomos separados da eternidade. Separados da comunhão absoluta de um tempo único. A humanidade adentra para a sucessão dos instantes. E como tal, o instante jamais se fixa. Sempre igual, uniforme e ignorante das dores e angústias humanas. Ignorante da solidão em todas as suas dimensões e manifestações. Na China, (notícia de jornal), há alguns anos, uma mulher entrou em coma por doze anos. Doze anos de exílio de si mesma. Ela já estava com seu marido há quarenta. O marido, por meio de uma flautinha, soprava musicalidade para ela. Incansavelmente. E de repente, sem aviso, a chinesa acordou e pronunciou melodicamente o nome do marido. Eis a poesia do instante! O retorno! A eternidade! Lembremos da advertência de Paz: a palavra poética, a poesia, coloca o homem, acima de tudo, fora de si. Ao mesmo tempo que o faz retornar a si mesmo. Um perpétuo exercício de ser o que realmente é. Poesia, acima de tudo, é entrar no ser. A “consagração do instante”. A estética da solidão se  traduz, singularmente, nas possibilidades da poesia, do poético, (labiríntico, silencioso), nas mais diversas linguagens, expressar os olhos do deserto que espreitam a famosa dialética do esvair de si e a busca, eterna, enraizada, profunda- mente humana, de atenuar nossas ancestrais saudades do paraíso.

 

 

O que é a intimidade?

 

Amor e solidão

A náusea, de Jean-Paul Sartre (1905-1980), conta, em forma de diário a vida do protagonista Antoine Roquentin, um historiador que após viajar por diversos países se instala em Bouville, para escrever a biografia do marquês de Rollebon. O ápice da obra é o instante em que Roquentin reconhece sua própria existência e não pode mais negá-la. É o momento da “epifania”. Perdido e sem razão para continuar a viver, o personagem busca uma forma para se libertar de sua vida sem sentido.

 

No que tange o tema da solidão, há um momento da narrativa em que o protagonista lembra de um grande amor do passado que se chamava Anny. Durante o relacionamento houve um tempo em que eles moraram em cidades diferentes e distantes. E havia os encontros esporádicos. Anny, durante as únicas 24 horas em que eles passavam juntos, fazia de tudo para multiplicar os mal-entendidos. Somente quando faltavam sessenta minutos para se separarem é que Anny, realmente, se aproximava, (demonstrando amor), de Roquentin e os dois sentiam os segundos escoando. Por quê? Anny entendia que os possíveis momentos de sintonia profunda entre os dois deveriam ser transitórios. Breves. No entanto, os reais instantes que aplacariam a solidão. De perfeita comunhão. Anny sabia que seriam instantes que não se fixariam, mas que se eternizariam na memória de ambos.

 

 

*Ana Maria Haddad Baptista (A.M.D.B) é mestra e doutora em Comunicação e Semiótica. Pós-doutora em História da Ciência. Pesquisadora e professora da Universidade Nove de Julho.

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 121