Entenda a cultura do corpo

Em tempos de ditadura da beleza, como pensar sobre questões de autenticidade via palavra filosófica? Por onde anda o belo?

Por Mônica Cristina Combat Barbosa * | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Partindo-se das individualidades que são assombradas pelas ditaduras do mundo, corpo e corporeidade são aspectos-alvo dessas tentativas de delimitação das pessoas em tempos modernos. Para isso, é preciso compreender e tentar discorrer sobre os mesmos quanto aos possíveis fatores presentes e intervenientes dentro deste panorama.

 

A relação intrínseca e complementar entre corpo e corporeidade também se depara com a transgressão ao princípio cartesiano dicotômico. O ser que é belo e pode ser belo, dotado de um corpo, pelo contingente ontológico deste corpo, o remete-o a sua constatação de que o ‘ser’ é o seu corpo, e o corpo é o próprio ‘ser’. (POMPEIA, SAPIENZA; 2011)

 

Este corpo que contempla e tem como essência essa amplitude do ‘ser’ tem como extensão a corporeidade que é tonalizada por sua ‘presença’ idiossincrática articulada no ‘mundo’. Assim como homem e corpo existem num dado mundo, um corpo/corporeidade existe para o outro. Neste sentido, há este existir em contexto, contexto este permeado por ditaduras que invalidam formas de ser e de expressão dos corpos e da autenticidade dos mesmos, cujo padrão cerceia a liberdade em ‘ser si-mesmos’.

 

 

Neste pensar filosófico existencial, quando se pensa em termos de tempo como categoria de movimento e existencialidade factual, o belo talvez não acompanhe em tempo, sua permanência para o ser em questão. A finitude humana, a morte, o chamado ‘ser-para-a-morte’ discutido por Heidegger, pode identificar o quanto a beleza como algo imposto e adoecedor, pode dar um falso suporte à vida e a espera da morte (finitude e fim), e que por isso mesmo incide na vulnerável existência e na ávida angústia humana que subjaz sua existência e seu fim. (FEIJOO, 2000)

 

De fato, neste sentido, torna-se uma falácia humana ser e ter que ser mais belo aparentemente como forma alienante de uma ditadura aplacada sobre o homem, pois do ponto de vista psicológico, ser belo não garante não morrer e não ser infinita sua vida.

 

Na premissa básica do existir humano, como ser-no-mundo, podendo-ser, fazendo escolhas, sendo com-o-outro, corporalmente no mundo e com-o-outro, o homem e sua existência são compreendidos na vivência dialética entre indigência e potência do ‘ser’. (POMPEIA, SAPIENZA; 2011)

 

Corpo e corporeidade não são entidades que o homem possui, o homem é corpo num mundo, e como fruto desta díade, ele não atua num nexo causal de posse, e, sim, na constatação das perdas, carências e faltas. A ideia da indigência é justamente se pensar em tudo o que se identifica presente no ‘ser’ quanto as suas vivências de ‘ainda não posso’ como possibilidade que não se realizou por ora em um dado tempo; bem como os ‘já não posso mais’ como facticidade de uma irrealização, num dado tempo perdido, acabado.

 

Na outra ponta da dialógica existencial está à potência do ‘ser’, visualizada na premissa de tempo presente e potencialmente realizável dos ‘agora já posso’ e no instigante ‘posso cada vez mais’. Indigência e potência do ‘ser’ esbarram na perspectiva da liberdade contingencial do ser existente e do mundo a que está inserido, que outrora impõe ditaduras que repercutem direta e indiretamente sobre estes existenciais próprios do homem, cuja interferência irá contemplar este homem quanto a sua disposição afetiva diante de tais imposições do mundo e, sobremaneira nas interioridades em construção subjetiva. (MERLEAU-PONTY, 1999)

 

Como seres-no-mundo, este mundo é entrecortado por condicionantes políticos, econômicos, socioculturais, cuja noção de liberdade é perpassada pelos mesmos, o que implica nas possíveis ditaturas (enfaticamente apresentadas neste texto), que obviamente se contrapõem às liberdades, e que toca, mobiliza e afeta os sujeitos, seus corpos, emoções, pensamentos, ideologias. Dentro desta ótica, no que concerne à ditadura da beleza, pode-se inferir que o belo e o feio não se contrapõem a princípio, mas há um presságio de um duelo que abarcará os corpos circunstanciados por uma tangencial liberdade cerceada.

 

 

Nesta perspectiva, voltando-se à noção de indigência, a liberdade cerceada e circunscrita neste espaço restritivo de uma ditadura, tem como ancoradouro a sensação de uma pequenez e impotência do ‘ser’ em ser. Neste caso, nem belo, nem feio. (POMPEIA, SAPIENZA; 2011)

 

Em termos de necessidade, a liberdade e sensação de impotência do ‘ser’ associada às ditaduras, a da beleza em questão, não dá tempo ao tempo para a realização de nada ou quase nada por parte do sujeito, em função, inclusive, do caráter de urgência em ser belo.

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Tentar ser belo é esbarrar diretamente na impossibilidade de poder-ser ‘tudo’, ‘pleno’, e esta constatação enfaticamente não restringe a liberdade, mas apenas denota o “não-ser” no limite da existencialidade, ancorada em uma identidade assegurada, que, por vezes, não coincidirá com a identidade desta beleza mundana e única (paradoxalmente de todos e para todos – numa constante de massificação). (SCHNEIDER, 2011)

 

Esta identidade não coincidente com o estereótipo de beleza ditado e normatizado causa dor e tem seu peso sobre o ser existente. Há com isso o desvelamento de um vazio existencial num primeiro momento que não pode e nem está disponível para ser preenchido com algo que faça sentido.

 

Corpo e corporeidade existem, e como existência não é invisível ao outro e sua interpretação. A ditadura se estabelece não só pelo viés da palavra alienante, e sim pela presença do outro que postula ser àquela verdade um bem comum a todos.

 

Pela linguagem e seus recursos, a palavra se instaura, e, do verbo, as ações pontuais e reflexivas próprias da premissa filosófica se abre para dar um novo contorno ao que não foi dito, mas que agora pensado e inferido tenta articular sobre onde e por onde a beleza possa estar, como ela seria e quem a poderia ter, distante e à margem da ditadura. (POMPEIA, SAPIENZA; 2011)

 

 

Outro alcance disso é pensar no que de angústia e inautenticidade isso evoca para o ser humano. A angústia notadamente é uma condição fundamental para a abertura de uma autenticidade do homem. Ela é movimento e mobiliza para uma construção que identifica esta existência, no que de belo ela pode se compor.

 

Dentro desta ótica, abordar a questão da angústia existencial é abrir mão do ‘dado’ e ‘imposto’ para sair do imobilismo e de seguranças forjadas como necessárias e condicionantes de qualquer construção. A vertigem tomada a partir da angústia que causa insegurança leva o sujeito a ter que se haver e fazer esta movimentação levando-o a tomar posse daquilo que poderia ser belo sob o seu ponto de vista, e não o herdado configurado pela tônica da impessoalidade. O ‘possível’ pessoal entra em contato com a realidade própria daquele existir único e singular ávido de existencialidade.

 

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*Mônica Cristina Combat Barbosa é Psicóloga clínica e do Trabalho. Psicoterapeuta (Abordagem Fenomenológico-existencial). Professora universitária e supervisora de estágios. Supervisora de profissionais formados. Profissional de coaching. Licenciada em Psicologia. Pós-graduada em gestão estratégica de recursos humanos. Mestre em Educação Tecnológica.

Adaptado do texto “Espelho, espelho meu”