Ensinamentos sobre ouvir os outros

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A pessoa que mais ouviu João foi Maria, surda desde os 3 anos de idade. João era dúbio, inventava coisas para não lidar com seus problemas, tornou-se muito bom nisso; confundia as pessoas com seus argumentos. Às vezes se confundia também, mas o resultado final era alcançado e ele evitava ter de lidar com seus problemas. Sentia mal-estar, vazio, desespero, e não sabia a que atribuir tais coisas que resultavam lá das primeiras.

 

João fazia estranhos jogos de humilhação, morde e assopra, mágoas e aproximações. Achava que tais exercícios lhe propiciavam a comida existencial para viver. Intuitivamente sabia muito bem com quem e quando poderia fazer isso. Não agia assim de propósito, apenas acontecia, algo que vinha de dentro parecendo mais forte do que ele. Maria, que se aproximara de João por ouvir outras coisas da alma dele, agora se tornava cada vez mais triste; estava morrendo porque o aceno inicial de João, o aceno que a trouxe para perto dele, foi apenas para que ela se aproximasse; o que ele realmente tinha a oferecer era o que lhe dava agora.

 

João se mostrava cada vez mais transparente para Maria, mas ele não tinha a menor ideia disso. João não via as coisas, pois João era surdo. Sua retórica convencia, rica em simulacros. Sua poesia era mais treinamento do que poesia, mas quem interagisse com ele somente teria convicção disso sendo muito próximo e ao longo do tempo, com o cotidiano da convivência.

A arte de ouvir

 

Um dia João chamou Maria e disse a ela que não a amava mais (e quando foi mesmo que a amara?) Maria chorou. João achou que mais uma vez as coisas seriam como sempre foram. Mas Maria chorou por outro motivo: ela tinha ouvido a vida, sabia o que, quem, de que forma desejava ser e estar. Maria chorou porque estava agradecida, realmente de partida. Pessoas lindas no horizonte esperavam Maria, nenhuma delas era João.

 

João então retornou para seu ostracismo, suas coisas pequenas, sua retórica e suas justificativas. Sentiu um alívio no início. Pensou que existem muitas Marias no mundo. Mas antes de procurar por elas, precisava marcar hora no oftalmologista, porque sua visão piorara muito; além de surdo, João agora começava a ficar cego. Em breve, dependendo de para onde caminhasse, isso não faria a menor diferença. Em uma parede, em uma rua próxima, escrito estava um trecho, uma frase de um conto que afirma que no purgatório todas as almas se parecem.

 

Ouvir adequadamente não significa concordar, aceitar. A responsabilidade da audição, em muitos casos, está restrita ao fator participativo? Se aceito ouvir uma confissão, o que da confissão que aceitei ouvir agora me diz respeito?

 

Uma resposta possível, em Filosofia Clínica, aponta para os fatores com os quais a audição se liga na Estrutura do Pensamento da pessoa. Acolhimento, reflexão, silêncio, etc.

 

Saber ouvir também pode ser conhecer que determinados caminhos existenciais não estarão em nós, mas poderão se dar a cumprir; é aprender que muito do que algumas pessoas falam a outras teria melhor endereçado a elas mesmas; é conversar ou silenciar quando o vento soprar suave; é atender, recuar, falar e calar; é ter em mente que tudo isso pode ser apenas um poema sem sentido, caso se tire do contexto as coordenadas que apontam o caminho a ser seguido.

 

Será que o seu pensamento é a parte de você responsável por desatinos e barulhos? Algo como o encabulamento de uma bateria em meio a um delicado quarteto de cordas. E se você não sabe que isso ocorre e concede ao pensamento seu voto de verdade, de veracidade?

 

Você consultaria uma criança de 4 anos sobre qual deve ser a política hospitalar do país? Pois um dado grotesco semelhante pode ocorrer a alguém que consulte o coração em um momento no qual a razão é chamada a se pronunciar, por estar mais preparada para o tema em pauta. Por que isso não é visível? Na verdade, é visível, mas é perceptível, às vezes, pelos sintomas e pelas consequências muito mais do que pelas discrepâncias de quando ocorre.

 

Compreensão

 

A moça caminha de um lado a outro, aos berros manda o rapaz sair do ambiente, afirma que o relacionamento acabou, definitivamente! Ele então caminha até a sala, fecha o janelão, senta-se à poltrona, puxa um jornal e lê, aparentando uma calma que com muito custo consegue manter.

 

Alguns segundos depois, a moça aparece junto à cristaleira, desolada. Ela chora muito. Pergunta a ele se não a ouviu. Indaga se não prestou atenção ao fato de estar sendo mandado embora. Alterando levemente o tom de voz, pois a cena toda é tristemente dramática, ele diz que somente ainda está ali, sentado e tentando ler o jornal, apesar dos gritos, porque a ouve!

 

Ele sabe que os lábios da moça apenas proferem a irritação e a frustração por ela ter sido preterida em um trabalho pelo qual muito havia lutado para conseguir. Os lábios dela expressam apenas algo menor para ela, algo que uma vez incendiado em forma de impropérios extingue-se e deixa, na sequência, remorsos, dores na consciência. Desatinos assim ela geralmente faz com quem é próximo a ela, quase nunca com desconhecidos.

 

O que fala de fato, o que possui lastro e consistência na moça, é o coração, o amor que ela nutre pelo rapaz. E o coração dela pede a ele o obséquio, a urgência da compreensão disso. Tivesse o rapaz ido embora diante do achaque que agora já esmorece e rapidamente míngua, a moça morreria de dor moral – muito provavelmente.

 

O rapaz soube distinguir o que de fato fala com propriedade e o que apenas faz um triste e irritante alarido na alma da garota que ele ama, mesmo padecendo desses faniquitos. Dificilmente um relacionamento assim segue adiante.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 101

Adaptado do texto “Ensinamentos sobre ouvir os outros”

*Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC, de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br