Émile Durkheim: religião e socialismo

Desde há muito tempo, os assuntos religião e socialismo têm sido motivos para debates filosóficos acalorados em uma série de círculos de convivência

Por Ricardo Cortez Lopes* | Fotos: Wikimedia/Christian Baudelot  | Adaptação web Caroline Svitras

Se o socialismo é um assunto obscuro, pouco conhecido para os não-leitores de Durkheim, o mesmo não sucede com o conceito de religião. Talvez porque o autor desenvolveu um estudo empírico mais famoso, chamado explicitamente As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália – no qual tenta entender as religiões institucionalizadas olhando para suas formas menos complexas e mais primitivas – ou porque o autor já é utilizado tradicionalmente, ao lado de Max Weber, para estudar sociologia da religião (conf. PIERUCCI, 2006).

 

A dualidade – que conduz ao binarismo sociedade-indivíduo – serve como molde para se pensar a religião. Essa passa a ser composta de sagrado-profano, crenças-ação. E é nestas dualidades que devemos nos focar.

 

Ciência e religião devem se misturar? Entenda.

 

Seria inútil definir novamente ao sagrado e ao profano. Apenas podemos ressaltar que o pensamento religioso considera-se a si mesmo como composto de ideais sagrados (DURKHEIM, 1996: p. 68). É interessante que não é papel do sociólogo afirmar que essa sacralidade não existe: nesse sentido, as religiões são todas verdadeiras, pois remetem aos homens por trás delas (DURKHEIM, 1996: p. 24). E é na construção coletiva do sagrado que está a necessidade de não buscar defender ou atacar religiões.

 

E quanto à religião?
Émile Durkheim

Chegamos, pois à seguinte definição: uma religião é um sistema solidário de crenças seguintes e de práticas relativas a coisas sagradas, ou seja, separadas, proibidas; crenças e práticas que unem na mesma comunidade moral, chamada igreja, todos os que a ela aderem (DURKHEIM, 1996: p. 79)

 

Ou seja, todas as religiões são compostas por um conjunto de crenças – representações e estados de opinião – e de ritos – modos de ação determinados que correspondem a essas crenças (DURKHEIM, 1996: p. 67). Mas não podemos achar que os seguidores de Durkheim aceitaram essa definição sem refletir sobre ela. É importante ressaltar duas inovações teóricas às essas ideias. A primeira é que as ideias de Durkheim vinculavam muito fortemente uma sociedade com uma determinada religião – não se pode negar o desvio, é claro, mas o desvio é o desvio – o que não faz sentido no multiculturalismo. A outra inovação é mais empírica: alguns autores afirmam que o cenário religioso atual é pós-durkheimiano, pois, muitas vezes, uma prática de um indivíduo não corresponde às suas crenças (conf. ROSATI, 2012, ROSATI, WEISS, 2010).

 

Socialismo

 

Foto: Shutterstock

Uma primeira característica que todas as variantes do Socialismo sem excepção apresentam é que protestam contra o atual estado econômico, cuja transformação reclamam, quer ela seja brusca ou progressiva. Embora, em rigor e por generalização, a palavra socialismo possa ser entendida num sentido mais lato, as chamadas teorias socialistas são de facto essencialmente relativas a esta esfera especial da vida colectiva a que se chama vida econômica. Isto não é dizer que a questão social seja uma questão de salários; somos, pelo contrário, daqueles que pensam que ela é, antes de mais, moral. Só que as transformações morais a que o socialismo aspira dependem de transformações na organização econômica; adiante indicaremos como é que as primeiras ligam as segundas […] Todas exigem que as funções econômica sejam organizadas. […] podemos concluir assim: o socialismo é uma tendência para fazer passar, brusca ou progressivamente, as funções econômica do estado difuso em que se encontram para o estado organizado (DURKHEIM, 1975a: 204, 206).

 

Além dessa definição, gostaríamos de acrescentar outros elementos, colhidos em textos sobre o socialismo para Durkheim e escritos dele próprio. Para um aprofundamento no tema, recomendamos o livro O socialismo (DURHEIM, 2016), traduzido pela respeitada filósofa Sandra Guimarães.

 

O profano no campo do sagrado

 

É importante ressaltar que, biograficamente, Durkheim conviveu com socialistas de seu tempo. Assim como alunos tornaram-se socialistas (DE SOUZA, 2010: 69). Respeitosamente, divergia nos pontos expostos. A título de curiosidade, seria o socialismo seu assunto original de tese, antes de ele a mudar para a Divisão Social do Trabalho (DE OLIVEIRA, 2010: 127). O que o não impediu de a ele voltar posteriormente, quando pretendeu escrever a história do socialismo (DE SOUZA, 2010: 128).

 

“O Socialismo”, por Émile Durkheim

Existe uma representação – simplificada – bastante compartilhada nos meios acadêmicos de que Durkheim não seria um teórico da sociologia política, e sim um irrefletido conservador (DE SOUZA: 66, DE OLIVEIRA, 2010). De fato, Durkheim, assim divide a sociologia: “geral, religiosa, moral e jurídica, econômica, lingüística e estética”. Não existe divisão ou subcampo “Sociologia Política” (DE OLIVEIRA, 2010). Não se pode encontrar escritos direcionados diretamente para a temática, mas podemos encontrar ideias. E nelas está o socialismo (DE OLIVEIRA, 2010: 128).

 

 

Outro ponto é o socialismo como fato social: “O socialismo é antes de mais um modo de conceber e de explicar os fatos sociais, e sua evolução no passado e o seu desenvolvimento no futuro” (DURKHEIM, 1975a: 209). Por isso, é objeto passível de estudo.

 

 

Como se trata de um um objeto sociológico, a consequência é que é preciso se engendrar uma postura: para conseguir saber o que é o socialismo, o que o constitui e de que é que depende, não basta interrogar os socialistas ou os seus adversários, são necessárias investigações, informações, comparações metódicas que as instituições confusas e apaixonadas da consciência comum não poderiam substituir (DURKHEIM, 1975b: 216)

 

As consequências dessa adoção são (a) por um lado discriminar os diferentes gêneros – “O que há de igual em todas as doutrinas, não dá pra dizer que é errado” (DURKHEIM, 1975a: 202) – e, (b) é preciso que o sociólogo abstraia sua paixão – “Ora, o socialismo particular a tal ou tal sociólogo nunca passa de uma das inúmeras variedades do gênero; não é o próprio gênero “ (DURKHEIM, 1975a: 202).

 

Outra importante discordância é a de que o socialismo não se trataria de um conhecimento científico, mesmo que objetivo (DE SOUZA, 2010: 70). A definição não é a de ciência e: o socialismo é um grito de dor e de cólera pelo mal-estar da contemporaneidade (DE SOUZA, 2010: 70). Mas, mesmo que o socialismo fosse ciência, por estar localizado temporalmente naquela época, ele seria ainda bastante primitivo para permitir pensar-se o passado, presente e futuro (DE SOUZA, 2010: 70). O que só uma ciência mais desenvolvida conseguiria de fato.

 

 

 

Mas Durkheim também era contrário ao liberalismo – que queria retirar a força do estado (conf. FRIDMAN, 1993). Porque o estado é a cabeça que une os diferentes grupos sociais:

[…]os socialistas não pretendem mais do que o cérebro da nação, ou seja, o Estado, o governo propriamente dito, a dirigir a produção ou a distribuição dos valores: eles apenas pretendem que as grandes funções sociais sejam unificadas e centralizadas, tal como as funções animais correspondentes (DURKHEIM, 1975: 161).

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 126

*Ricardo Cortez Lopes é licenciado em Ciências Sociais, Mestre em Sociologia e Doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Estuda sociologia da moral e da religião, sendo seus objetos mais frequentes o ambiente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como professor voluntário na Organização Não Governamental por uma Educação Popular (ONGEP) e é membro associado do Núcleo de Estudos da Religião, da UFRGS.