Egito Antigo: berço da Filosofia

Por Renato Noguera* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras


Nos livros didáticos de Filosofia, o que existe de mais comum é dizer que o pensamento filosófico surgiu na Grécia por volta do séc. V antes da Era Comum. Danilo Marcondes, autor de um dos mais celebrados livros de introdução à Filosofia, diz que um “dos modos talvez mais simples e menos polêmicos de se caracterizar a Filosofia é através de sua História: forma de pensamento que nasce na Grécia antiga, por volta do séc. VI a.C.” Marilena Chauí recusa a tese do “milagre grego” e faz coro com a tradição: a Filosofia nasceu na Grécia. Um dos livros didáticos de Filosofia selecionados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) diz: “A Filosofia nasceu na Grécia há mais de 25 séculos e constitui o ponto de partida do que se chama pensamento ocidental”. Silvio Gallo, provavelmente o autor de um dos trabalhos, merecidamente, mais elogiados no campo didático, partilha da opinião de Marcondes e Chauí, dizendo que na “Grécia antiga, em meio à intensa vida cultural, política e comercial das polis, nasce a Filosofia, uma forma de pensar conceitualmente o mundo e responder a problemas”.

 

Para a maioria das filósofas e dos filósofos da atualidade, a Filosofia não é considerada uma milagrosa invenção grega; mas não deixa de ser o resultado de condições históricas, sociais e políticas exclusivas da Grécia antiga. A Filosofia teria berço e progenitor grego, fazendo de sua certidão um “documento” grego. Pois bem, é em relação a essas convergências entre as mais diversas formas de fazer e conceber Filosofia que consideramos pertinente trazer uma característica que não é rara da própria Filosofia. Ora, se para muita gente que se debruça sobre as pesquisas filosóficas não devemos deixar de reunir crítica, reflexão, argumentação, cuidado e rigor com conceitos e, sobretudo, problematizar, perguntar sem pudor algum pela consistência das ideias, por que não deveríamos indagar sobre a maternidade e paternidade gregas da Filosofia? Pois bem, defendemos a hipótese de que se trata de um tabu. Ou melhor, do maior tabu da Filosofia, isto é, uma proibição, uma interdição que não tem bases bem fundamentadas. Afinal, um elenco de autoras e autores da Filosofia, História e Egiptologia tem apresentado vigorosos trabalhos que atestam justamente que a defesa do berço grego da Filosofia só se justificaria pelo desconhecimento dos textos egípcios anteriores aos gregos.

 

 

Confronto de modelos

As narrativas do modelo ariano ensejaram distorções sobre o Egito, enaltecendo a Grécia num discurso dogmático, numa postura preconceituosa própria da helenofilia sistemática que tomou boa parte do mundo acadêmico europeu no século XIX. Ora, diversas vezes o Egito antigo aparece imerso em clichês: os filmes hollywoodianos trazem múmias fazendo o papel de “vilãs”, sendo combatidas por “heróis” europeus e estadunidenses “desvendando” os mistérios que devem ser legados para a “humanidade” e que, por razões desconhecidas, estão nas mãos dos malvados mortos-vivos egípcios. Nossa leitura só pode estar na contramão dessas imagens que em nada ajudam a elucidar ou ampliar nossa compreensão sobre o Egito, principalmente se quisermos sustentar nossa hipótese de que os textos egípcios anteriores aos gregos já eram filosóficos. Tal como nos dizem Cheikh Diop, ­George James, Molefi Asante, ­Maulana ­Karenga, Martin Bernal, Théophile Obenga, Marimba Ani, Nkolo Foé, Mogobe Ramose e José Nunes Carreira, o racismo antinegro que questionava os avanços técnicos, filosóficos, científicos e culturais do Egito faraônico deu origem a discursos que desacreditavam a capacidade dos egípcios de construir pirâmides e aquedutos, embalsamar corpos, represar rios, criar sistemas sofisticados de cultivo e agricultura. Ora, ao tratar de Filosofia, não poderíamos esperar algo diferente do que a recusa em validar os discursos que dissessem o contrário, de modo que parte da ­ficção literária ocidental dos séculos XIX e XX perguntava se os responsáveis pelo desenvolvimento intelectual, cultural e científico dos antigos egípcios não teria sido obra de extraterrestres. A pergunta é simples: a recusa do caráter filosófico ao pensamento africano, assim como a tantos outros, não faz parte de um projeto geopolítico de manutenção do status quo? Esse projeto é tão bem articulado que filósofos que discordam em quase tudo convergem quando se trata da primazia grega.

 

Cheikh Diop fez um belo e contundente trabalho contra essa perspectiva. E ele foi um intelectual africano, nascido no Senegal, que desenvolveu longamente a tese de que a África, especificamente o Egito, é o berço civilizatório da humanidade. Na esteira de Diop, o britânico Martin Bernal (1937-2013) observou que dois modelos explicativos distintos entraram em conflito, e, no século XIX, o modelo ariano se tornou mais influente do que o modelo antigo nos meios acadêmicos ocidentais, o que causou o silenciamento do Egito como civilização que influenciou profundamente o mundo helênico, celebrando a Grécia como “pura”, “original” e “inventora” da Filosofia. Mas o modelo antigo reconhece que os gregos não foram os primeiros. Na interpretação de James, Diop, Asante e Obenga, os primeiros textos de Filosofia eram egípcios.

Uma constatação importante é que existem pesquisas consistentes que lançam muita luz a respeito do assunto. Mas os cursos de Filosofia, a notar pelos artigos, livros, monografias, dissertações e teses, raramente citam ou se dedicam a comentar as teses que apontam os egípcios como autores de textos filosóficos de que temos registros. Em 1954, o caribenho George James publicou o livro Stolen Legacy: Greek Philosophy Is a Stolen Egyptian Philosophy [O legado roubado: a Filosofia grega é o roubo da Filosofia egípcia]. Mais do que uma provocação, o trabalho, ainda sem tradução para a língua portuguesa, empreende um estudo comparativo que identifica semelhanças entre textos egípcios e gregos. Um detalhe relevante que foi muito bem documentado por Théophile Obenga, um dos maiores expoentes contemporâneos da escola de Egiptologia contemporânea inaugurada por Cheik Anta Diop, na obra La philosophie africaine de la période pharaonique (2780-330 a.C.) [A Filosofia africana do período faraônico (2780-330 a.C.)] são as datas dos textos. Obenga nos brinda com material escrito em hieróglifos ou mdt nfr (medet nefer) – a língua do Egito antigo – bem anterior aos textos gregos. Ora, se alguns dos trabalhos gregos, tais como os de Platão e Aristóteles, datam do século V a.C., os materiais egípcios de Imhotep datam de por volta do XXVII a.C. e os de Ptah-Hotep, de XXV a.C. ­George James, por sua vez, traz elementos históricos como a viagem de Pitágoras (570 a.C.-495 a.C.) de Samos ao Egito para estudar na escola de formação de escribas. Ora, foi Pitágoras o primeiro grego a empregar o termo “Filosofia”. Obenga sustenta que no Egito já existia rekhet. “A palavra ‘rekh’ (escrita com um hieróglifo de um homem sentado) significa ‘homem sábio’, isto é, um homem que permanece aprendendo, um erudito, um filósofo. Com efeito, o conceito rekhet (escrito com hieróglifos de noções abstratas) significa ‘conhecimento’, ‘Ciência’ no sentido de ‘Filosofia’. Ou seja, perguntar pela natureza das coisas (khet) baseado no conhecimento acurado (rekhet) e bom (nefer), discernimento (upi). A palavra ‘upi’ significa ‘julgar’, ‘discernir’, ‘dissecar’. A palavra cognata ‘upet’ significa ‘especificação’, ‘julgamento’, e ‘upset’ quer dizer ‘específico’, isto é, dar os detalhes de algo.”

 

Pois bem, o modelo antigo de explicação da História reconhece esses elementos, mas o modelo ariano, que passou a ganhar mais força a partir do século XVIII, calou o debate em torno da produção filosófica egípcia. O britânico Martin Bernal escreveu Black Athenas: the Afroasiatic Roots of Classical Civilization [Atenas negra: as raízes afro-asiáticas da civilização clássica], confrontando o modelo ariano e revisitando o modelo antigo, sustentando que o intercâmbio entre os povos que viviam na região mediterrânea sempre foi muito intenso e que os continentes africano, asiático e europeu sempre trocaram informações; mas, para muitos, a anterioridade egípcia é inegável. A “origem e o berço da humanidade assim como a emergência da civilização do mundo devem ser procurados em África. O Egito é a mãe da civilização mundial. A civilização egípcia é especificamente negra. Ela evoluiu e floresceu de tal forma que se tornou reconhecível como a base do humanismo de toda África. Por conseguinte, a África não é só a origem da civilização como também o berço do desenvolvimento social, cultural, científico e político. Diop aponta como sendo características comuns de toda África o matriarcado, a espiritualidade, o humanismo e o pacifismo. Estas e outras ideias estão plasmadas no livro The African Origin of Civilization [A origem africana da civilização]”. De acordo com a tese de James, a Filosofia seria uma invenção egípcia, isto é, africana, contrariando a ideia do berço grego, isto é, ocidental.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 100

Adaptado do texto “O Tabu da Filosofia”

*Renato Noguera é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia e do Departamento de Educação e Sociedade da UFRRJ. Doutor em Filosofia pela UFRJ, responsável pelo Grupo de Pesquisa Afroperspectivas, Saberes e Interseções.