Duas grandes ideias de Marx

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Marx é um dos homens que mais estudaram a vida social. É difícil resumir uma obra densa em poucas páginas, mas – se nos concentrarmos em seus projetos para o futuro – eles se resumem em duas ideias-chave.

 

Primeira, a supressão da propriedade privada dos meios de produção. Todos sabem disso. Ela não significa o fim de toda propriedade, mas só a dos meios de produção. Casa, móveis, obras de arte, carro, tudo isso poderia continuar privado. Já o que serve de meio à produção – a fábrica, o arado, o próprio veículo de gerar riqueza – seria socializado.

 

A segunda, que poucos sabem ou lembram, é a abolição do Estado. Este concentra a repressão sobre a sociedade, em nome da classe dominante. Deve ser extinto.

 

Aqui começam os problemas. Na prática dos partidos comunistas que exerceram o poder, a propriedade privada foi substituída pela estatal, quando deveria ter sido pela social. Atenção: propriedade estatal é o contrário da propriedade social.

 

Ainda haverá revoluções?

 

Marx chamava de Estado o que existia no século XIX. Ele não planejava nem intervinha consciente e explicitamente na economia. O que mais fazia era reprimir consciências e condutas. Punia dissidentes políticos e religiosos, o amor livre, a prostituição. Ora, o que Marx queria era o fim dessa repressão. Não estaria longe dos anarquistas. Muitos países, hoje, reduziram ou até aboliram esse tipo de repressão religiosa e moralista – alcançando, talvez, o que queria nosso filósofo.

 

O planejamento da economia só é introduzido em escala pelo comunismo, uma vez no poder. Graças a ele, na década de 1930, a União Soviética não sofreu como o Ocidente o desastre da crise de 1929, fruto do liberalismo contrário ao planejamento.

 

Sustento que Marx queria o fim da repressão estatal da palavra e do costume, e a criação de um sistema de planejamento da economia – retomando o modo socialista utópico ou mesmo anarquista de “substituir o governo sobre os homens pela administração das coisas”.

 

 

 

 

O que há de melhor em nosso mundo – sociedades com um bom planejamento da vida econômica e social, e pleno respeito pela diversidade de costumes e crenças – é devedor do marxismo (não só dele). Marx ganhou aqui, só que se manteve o capitalismo.

 

Utopias buscam uma sociedade ideal, porem não perfeita

 

Já nos países que adotaram o comunismo, a propriedade se tornou estatal, nunca social; e o Estado se fortaleceu, sim, como planejador, mas, sobretudo, como repressor de ideias e modos de vida. Nada menos marxista!

 

O projeto da economia socialista, isto é, a adoção da propriedade social dos meios de produção, não deu certo. Na verdade, o problema é que “propriedade social” simplesmente ficou sem sentido.

 

Certa vez, perguntei a um deputado que mais tarde seria um dos grandes nomes do PSOL o que ele entendia por “propriedade social” dos meios de produção. Expus os problemas anteriormente. Não tive resposta. Pena. O primeiro esforço de quem almeja uma economia não capitalista deveria ser esse: entender como seria ou será uma propriedade social.

 

Por isso, no lugar do socialismo marxista, o “comunismo”, cresceu o socialismo democrático, a social-democracia, isto é, o capitalismo humanizado graças às lutas trabalhistas e inclusive comunistas. O capitalismo, caso se limite à busca do lucro, é altamente predatório. O que o domestica é a existência de oposições fortes à sua esquerda, contendo seu caráter agressivo.

 

Se posso recomendar algo a quem considera pouco a social-democracia, ou o capitalismo humanizado, é que procure definir o que seria “propriedade social”, levando em conta que ela só existirá se houver a abolição do Estado repressivo que, ironicamente, o marxismo no poder levou ao paroxismo.

 

 

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 118