Dilema da Grécia atual

Por Lúcio Packter* | Foto: 123REF | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

 

 

Os gregos, em grande parte, possuem memória. Conhecem o passado e o respeitam. Sabem de suas raízes, o que houve, esqueceram algumas tragédias para poder lembrar de outras, selecionaram os segmentos de história que podem conferir a eles uma identidade. A tarefa pode parecer simples, mas acarreta uma série de complexidades que se iniciam por dubiedades que não se resolverão cedo. Um dos dilemas gregos diz respeito a como prosseguir inovando, crescendo, aprofundando a existência, o que significa a busca pelo inédito, enquanto é o zelador cuidadoso de um acervo que traduz nossas heranças ocidentais. Em uma tradução livre: Serão sempre perguntados em meio a qualquer assunto sobre Sócrates, Platão, Aristóteles, democracia, Parthenon, mitologia, direito, filosofia? Se for assim, quais espaços terão para os novos horizontes? Seria possível erguer novamente voos com tamanho documento impresso na alma? Pois estaria o homem grego preso a tradições de tal modo que o desenvolvimento para o novo estivesse impedido diante de suas magnificas memórias? Ou, colocando de outro modo, estaria o homem grego, preso a tradições, apto a se desenvolver hoje graças às dádivas de suas magnificas memórias que lhe pedem por liberdade? O que prende e preserva pode servir para libertar, às vezes.

 

O que parece ser o dilema é parte do horizonte que se abre sobre a bela Grécia. Não seria a primeira vez que os gregos tornariam o dilema a solução. Mostraram que sabem os caminhos, por mar, por terra, por alma. Platão nos contou parte disso no diálogo entre Sócrates e Glauco. Na alegoria, Sócrates diz: “Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo o caso eis o que me aparece tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a ideia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que dispensa a verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública”.

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e sistematizador da Filosofia Clínica no Brasil. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br

Para ler o texto na íntegra compre a revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 123

Adaptado do texto “Reflexões em Atenas”