Deus, lei e desejo

Por Rodrigo Petronio* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O fuzilamento do brasileiro Marco Archer, no dia 17 de janeiro, em Jacarta, condenado por tráfico de drogas, ocorreu apenas alguns dias depois do atentado ao jornal humorístico Charlie Hebdo. O primeiro produziu uma crise diplomática Brasil-Indonésia. O segundo gerou uma marcha de milhares pelas ruas de Paris, encabeçada por autoridades europeias, em nome da liberdade de expressão e contra o terrorismo. São casos bastante distintos, que precisam ser analisados isoladamente.

 

Mas uma coisa chama a atenção. Em ambas as situações estamos diante de um mesmo problema: como o Ocidente se relaciona com seu Outro, seja ele qual for. Nestes dois casos, o Outro em questão tem o mesmo nome: Islã. Em ambos os casos, os assassinatos e a pena de morte são absolutamente execráveis. Mas o papel da Filosofia não é fazer julgamentos morais nem defender ou condenar indivíduos, grupos, crenças, valores ou posturas, mas, sim, emitir enunciados universalmente válidos a partir da análise de eventos reais.

 

Desde o século XVIII, a modernidade tem se desenvolvido como um projeto fruto do Esclarecimento. Passou-se a acreditar que a emancipação humana pela razão fatalmente superaria as antinomias internas às alternativas das explicações do mundo naturais ou sobrenaturais, chegando-se a uma compreensão da vida dentro dos limites de um horizonte demonstrável. Kant foi um dos mais brilhantes arquitetos desse projeto.

 

A reintrodução de Deus na filosofia de Kant

 

Assim também todo o Iluminismo francês e, em seguida, todo o Idealismo alemão, especialmente Hegel, com sua concepção da unidade entre realidade e racionalidade e a dialética do Estado como autorrealização do Espírito no tempo. Na perspectiva crítica, Marx altera algumas peças fundamentais desse xadrez, mas continua sendo um dos arautos da utopia da emancipação coletiva e da superação das superestruturas produtoras de alienação.

 

O elo entre ciência, democracia e secularização; o crescimento do ateísmo e de espiritualidades desvinculadas de instituições; o liberalismo econômico aliado a diversos modos de exercer liberdades sexual, de costume, de crença, de expressão; a separação das esferas religiosa e política; o espaço público como promotor de inclusão social; a minimização de crenças consideradas mais arcaicas sob o impacto das evidências empíricas. Todas essas divisas estão na agenda moderna e continuam sendo valores a serem defendidos.

 

Mas o que aconteceu nesses últimos três séculos? Ocorreu um único fenômeno que, sozinho, tornou-se capaz de colocar todos esses valores em xeque: o fenômeno da tecnologia. O que é a tecnologia? É um meio [meson] capaz de minimizar a distância entre o objeto e o desejo até o ponto de fundir desejo e objeto.

 

A sociedade dos zumbis

 

A conectividade técnica global gera uma possibilidade real e virtual cada vez mais vasta de realização do desejo, seja sob a forma de sexo, pornografia, prostituição, drogas, experiências-limite, psicoses, anonimato, simulações de realidade, espetáculos de massa ou simplesmente pela deriva sem fim do consumo. Em um rápido olhar sobre a vida cinematográfica de Marco Archer encontramos todos esses ingredientes: muitas mulheres, carros, mansões, mais de mil “aviões” ao redor do mundo, esportes radicais, consumo de todas as drogas existentes e, por fim, uma condenação à morte no exercício de sua profissão de traficante. Em resumo: uma vida feliz. Uma vida em nome do gozo.

 

Ao longo de 2 mil anos de domínio das teologias imperiais monoteístas, Deus não foi apenas o maior de todos os objetos de desejo. Ele foi também o maior sujeito de realização performativa do desejo. Isso se tornou possível porque Deus, sendo absolutamente transcendente, é, ao mesmo tempo, o grande meson mediador entre lei e transgressão.

 

A correspondência entre Deus e desejo e, mais que isso, entre Deus e gozo foi a maneira perfeita pela qual inibição e desinibição, retenção e descarga libidinais conseguissem estabelecer uma perfeita homeostase entre si. Porque se eu mato em nome de Deus, violo uma lei humana em nome de uma lei divina, e assim purifico minha violência e a legitimo. Todas as populações humanas exterminadas em nome de Deus foram exterminadas graças à ambivalência moral contida na identidade entre Deus e gozo e entre gozo e redenção.

 

A redenção é o nome teológico do gozo, pois é a maneira pela qual o sujeito de uma ação passa a ser um meson, ou seja, constitui-se como sujeito transumano de uma ação realizada por Deus e em Deus. Essa neutralização do sujeito humano das ações apenas encontra validade quando o sujeito humano e o divino se fundem na esfera do gozo. Nesse momento, a violência deixa de ser um tabu e, por meio da intervenção divino-humana do gozo, transforma-se em lei.

 

Tecnologia e exclusão social

 

Por isso as políticas imperiais de todos os tempos sempre tiveram em Deus um grande aliado e na teologia, o seu grande arsenal de conceitos. Se Deus não existe tudo é permitido? Hoje em dia nem mesmo jovenzinhos celibatários de aldeias russas acreditam nessa anedota. Como diria Deleuze, é justamente por Deus existir que tudo é permitido. Porque Deus é o meson que me permite transformar a violência em gozo e, desse modo, a transgressão em lei.

 

*Rodrigo Petronio é professor da pós-graduação da FAAP. Organizador dos três volumes das Obras completas do filósofo Vicente Ferreira  da Silva (Editora É). Coorganizador do livro Crença e evidência: aproximações e controvérsias entre Religião e teoria da evolução no pensamento contemporâneo (Unisinos ).

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 106