Democracia e liberdade

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Muitas vezes me vejo numa encruzilhada: a defesa do diálogo. Penso que sem ele não há democracia. Dialogar exige escutar o outro e respeitá-lo. Claro que há um limite para o respeito. Não respeito a “má política”, que é como chamo o preconceito – seja contra negros, mulheres, judeus, gays. Aí não vejo muito como dialogar. Mas, em suma, sou defensor e crente no diálogo. De algum modo, isso me aproxima de Habermas, o maior teórico contemporâneo do diálogo na democracia.

Mas creio no diálogo em termos. Ele não é fácil. Dificilmente entendemos o que o outro disse. Noto isso sempre que abro o Facebook. As pessoas leem uma coisa e atacam um fantasma de sua cabeça. Nem entendem o outro. A conversa é de surdos.

Isso pode decorrer da má educação. Primeiro, a má qualidade da educação ministrada aos jovens. Uma piada diz que não é preciso ensinar aos filhos amor, sexo, sei lá o quê mais, porque aprenderão na rua (discordo disso) – mas leitura de texto. Ora, muita gente simplesmente não entende. As coisas melhoram nos países desenvolvidos, graças à boa educação. Com um repertório cultural mais amplo, as pessoas têm – e é o segundo ponto – maior respeito à diferença.

Por que entendemos mal o outro? Porque cada um parte de sua formação. Uma das melhores coisas que já ouvi sobre a psicanálise é que, para ela, a compreensão é quase impossível. O dominante não seria nos entendermos: seria não nos entendermos.

Isso não nos impede, aqui digo eu e não Freud, de tentar entender melhor o outro. A mesma psicanálise que descrê do entendimento valoriza a escuta. Todo bom psi tem que saber escutar.

Por um acaso da vida, na véspera da eleição de Sarkozy como presidente da França, em 2007, conversei com um colaborador dele – que me disse qual era sua maior qualidade: “Ele percebe na hora o que os outros querem”. (Eu diria: “o que desejam”). Uma pessoa lhe pede sabe-se lá o quê, e ele descobre – melhor que a própria pessoa – o que ela deseja. Pessoalmente eu diria: em geral, as pessoas querem ser ouvidas. Querem que um poderoso lhes preste atenção. O principal não é que ele atenda a suas demandas, mas ser reconhecido como interlocutor, mais que isso, como pessoa.

Isso não tem a ver com esse diálogo que para Habermas é o ideal e para os freudianos é a impossibilidade. É outra ideia. Não é nem diálogo. Continuamos, dois séculos e tanto após a fundação das grandes democracias modernas, reverenciando o lugar do poder. Vou dar um exemplo.

É praxe, nas cerimônias oficiais, cada orador saudar as principais pessoas presentes. Isso toma um certo tempo. Quando fui ministro, ficava impaciente com isso. Se tivéssemos meia dúzia de oradores, cada um gastando dois a três minutos na chamada “nominata” de autoridades, ia-se nisso um tempo razoável. Mas percebi: muitos rostos, ao serem identificados, se iluminavam. Ser reconhecido alegrava. Isso é democracia? Não. É uma ideia antiga de poder. É a ideia de que o poder vivifica.

Deveríamos então acabar com isso? Bobagem. Falei de uma necessidade humana. Necessidades humanas não se suprimem com uma penada ou na marra. Elas precisam ser compreendidas. Para resumir: o diálogo habermassiano é falho, cheio de incompreensões e desentendimentos. Já o reconhecimento pela autoridade é autoritário. Como vamos construir um diálogo verdadeiro? Essa é a grande questão da democracia, mas não se responde a ela com a mera boa intenção. Precisamos, antes, conhecer melhor nossas necessidades. Aí talvez consigamos modificá-las.

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 127