Deleuze a Guattari mexem com a imaginação visual

Por Lucas Vasques
Entrevista com Ivan Hegenberg

 

 

 

A busca pela retomada do diálogo entre Artes Plásticas, Literatura e Filosofia é um dos estímulos principais que movem o paulistano Ivan Hegenberg, de 36 anos. Formado em Artes Plásticas, com mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada, ele sempre transitou entre esses elementos com grande facilidade. Costuma dizer que não sabe o que veio primeiro, pois antes de começar sua formação em Artes Plásticas já se dedicava à literatura de ficção.

Com o objetivo de propagar suas ideias, ministra palestras. Entre elas, uma cujo título define seu pensamento: Arte e Literatura modernas: Influências recíprocas, evento realizado no Atelier Paulista, em São Paulo. Para ele, exceto por algumas raras exceções, não se vê no ambiente cultural contemporâneo um diálogo intenso entre Artes Plásticas e Literatura.

Segundo Hegenberg, o auge da interação entre artistas plásticos e escritores ocorreu no Modernismo, desde Baudelaire até meados da década de 1950. O Simbolismo, o Dadaísmo, a Semana de Arte Moderna de 22, o Surrealismo e a Arte Concreta também mostraram que Artes Visuais e Literatura são indissociáveis.

  • Filosofia: Você é um artista plástico que enveredou pelo caminho da Literatura. O que o levou a trilhar essa rota?

Hegenberg: Não sei dizer o que veio primeiro, pois antes de iniciar a formação em Artes Plásticas eu já vinha escrevendo meu livro de estreia, A grande incógnita. Nos últimos dez anos, dei prioridade à escrita, mas não abandonei a expressão plástica. Em 2009, lancei Puro enquanto, que intercala prosa poética com pinturas que fui criando ao longo dos anos. Agora, estou terminando um livro de poesia, Trêmulo mantra, que conta com alguns desenhos meus. Tento fazer com que essas imagens não funcionem como meras ilustrações, mas como elementos que compõem a estrutura e dão ritmo ao texto.

  • Filosofia: Por que você acredita que existem reais condições de um diálogo intenso entre Artes Plásticas e Literatura?

Hegenberg: Cada expressão artística tem suas peculiaridades, mas as vejo como complementares. Baudelaire tinha mais pontos em comum com Constantin Guys ou Manet do que com a maior parte dos poetas de seu tempo. Seu ensaio sobre a modernidade mostra uma grande afinidade com Guys, não apenas nos temas como na maneira de se perceber a realidade. Ambos foram flâneurs que aprendem a “fruir” a multidão anonimamente. Se um transmitia sua visão de mundo pelas palavras e outro com tintas, a diferença está apenas na especificidade dos meios, mas as experiências são parecidas.

  • Filosofia: Você já disse que esse diálogo existiu em outros momentos históricos. Quais foram esses momentos, por qual motivo ocorreu esse distanciamento e como retornar a esse diálogo?

Hegenberg: Nós podemos encontrar essas trocas em praticamente qualquer momento da História. Michelangelo, por exemplo, escrevia poemas. Eu creio, no entanto, que não houve um período de maior intercâmbio entre Literatura e Artes Visuais que o Modernismo. Baudelaire tem sua “culpa” nisso, mas o ponto culminante foi o das vanguardas históricas, com os manifestos e a formação de grupos mistos. Nos últimos tempos, a meu ver, artistas e escritores estiveram menos atentos ao que andaram criando no campo vizinho. Mas eu vejo boas exceções entre os contemporâneos. Um Nuno Ramos atacando nas duas frentes e um Sebald incorporando fotografias ao seu texto são exemplos que podem estimular outros artistas e escritores a darem mais atenção ao que se pensa e se faz do outro lado.

  • Filosofia: Em sua opinião, a Filosofia tem espaço nesse diálogo entre Artes Plásticas e Literatura?

Hegenberg: Sem dúvida. Tomemos Adorno, um interlocutor do mais alto nível, que assimila as contribuições de Hegel, Marx, Nietzsche e Freud para a Estética e cria uma sintaxe própria. Os principais problemas que Adorno coloca são valiosos tanto para se pensar Arte Visual quanto Literatura: a indústria cultural, o conceito de mimese, o simulacro, a dialética entre arte e antiarte. Ou, quem preferir outra abordagem, verá que aquilo que Deleuze e Guattari denominam afectos e perceptos são uma maneira de saudar tanto as Artes Visuais quanto a Literatura. Para mim, Adorno tem sido mais presente, um Adorno que talvez eu puxe para o lado nietzscheano, mas antes disso passei alguns anos estudando Deleuze e Guattari. Deve ter sido porque eles empregam alguns conceitos que mexem com a minha imaginação visual, como desterritorialização e o emprego que fazem dos devires.

  • Filosofia: Vivemos em um momento caracterizado pela fluidez e superação de fronteiras. Não lhe parece um paradoxo que não exista essa interação entre as letras e as linguagens visuais?

Hegenberg: A meu ver esse discurso da fluidez e da quebra de barreiras, que deveria ser o aspecto positivo da globalização, é um tanto falacioso. A circulação de ideias infelizmente não tem a mesma amplitude que a circulação de mercadorias, e o que vemos, na prática, é uma era da especialização, uma consequência da alta concorrência. Em nosso caso, a passagem do moderno para o pós-moderno se deu de maneira muito diferente na Literatura e nas Artes Visuais, por diversos motivos que não seriam fáceis de resumir: as relações de mercado, as referências teóricas… As principais causas escolhidas acabaram distanciando as duas áreas. No entanto, acho que cedo ou tarde vai haver uma maior aproximação entre escritores e artistas visuais, justamente porque essa especialização que se deu tende ao esgotamento, tende a se tornar repetitiva, fazendo com que a busca por outras pontes aconteça com mais naturalidade.

  • Filosofia: Sua Literatura é essencialmente de ficção. Quais as relações que existem entre ela e as Artes Plásticas?

Hegenberg: Além da incorporação de imagens que eu já mencionei, alguns leitores me disseram que há uma plasticidade nas imagens que descrevo. Esse é o aspecto mais voltado para o legado moderno, que não rejeito. O outro aspecto me leva a uma das diferenças que constato entre a situação atual da Arte Visual e a da Literatura. As Artes Visuais passaram por um “antimodernismo”
mais drástico que a Literatura, militaram mais na antiarte, foram mais incisivos na recusa ao estético em nome de alguns preceitos éticos. Pode soar confuso, mas foi comparando Arte Visual e Literatura contemporâneas que estabeleci uma espécie de vaivém entre arte e antiarte. Em meu mestrado, vi como Clarice Lispector manteve essa tensão com maestria em Água viva, um de seus romances mais experimentais, que não por acaso fala muito de pintura e de crise da representação. Agora, ao escrever ficção, venho tentando lidar com essa bagagem com o auxílio do humor,que me ajuda a não sucumbir.

  • Filosofia: Em seus livros, você aborda questões como religião, marxismo e capitalismo. Seriam influências da Filosofia?

Hegenberg: A ficção que eu escrevo não deixa de ser, ao menos para mim, um exercício filosófico. A diferença é que pelo viés da arte posso discorrer sobre Religião, Metafísica, Política, Psicanálise ou o que for, de maneira a explorar assumidamente
o espaço da incerteza. Posso tirar proveito do campo artístico da especulação, e assim me esquivar do discurso da Verdade, que Foucault e Lacan demonstram ser algo perigoso. É claro que se pode driblar a noção de Verdade na própria Filosofia – Nietzsche evidenciou essa possibilidade, que se constata também em Adorno, em Blanchot, em Barthes, em Deleuze, entre outros. No entanto, há algumas investigações mentais e sensoriais que só a ficção poderia realizar. Sartre não escrevia romances apenas para descansar ou entreter, continuava filosofando por meio de outro expediente.

  • Filosofia: Por que você já foi chamado de “filho espiritual” de Nietzsche e de Clarice Lispector?

Hegenberg: Não se deve levar muito a sério essas árvores genealógicas, mas são dois autores que li muitoe me influenciaram. Nietzsche, hoje um pouco menos que no início da minha carreira, mais ainda me toca. Clarice continua bem presente para mim, principalmente por causa de minha dissertação. São dois autores que nos instigam a pensar sem autocomplacência, revelando a crise da civilização em seu viés mais dilacerante, questionando inclusive o que temos de mais humano. E, no entanto, creio que nos dois casos, tanto do filósofo quanto da ficcionista, há uma afirmação da vida, por mais que se trate de uma concepção trágica. Leio Nietzsche como poeta e Clarice como filósofa, pois aprendemos muito com eles tanto no plano do conteúdo quanto no da forma.

 

*Crédito Victor Henrique Cardinali

 

Revista Filosofia, Ciência & Vida Ed. 119

 

 

 

 

 

 

 

Deleuze-a-Guattari-mexem-com-a-imaginacao-visual