De que somos feitos?

Por Lúcio Packter* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

F.  16 anos, diz que aprendeu que deve se abrir com as pessoas, que ficar fechada em seu mundo não é o mais adequado. R., 23  anos, descobriu que confiar nos outros é a base para amar o mundo e poder construir. S., 29 anos, acredita que deve se conhecer bem primeiro para poder, então, conhecer os outros. Para todos eles, a seletividade pode orientar para um provável engano que constroem em nossa época. E qual é esse engano? Este poema de Federico García Lorca, traduzido por Oscar Mendes, aponta os descaminhos para os quais o entendimento desses jovens os pode levar:

 

“Meu coração/é teu coração?/ Quem me reflexa pensamentos?/ Quem me presta/ esta paixão/ sem raízes?/ Por que muda meu traje/ de cores?/ Tudo é encruzilhada!/ Por que vês no céu/ tanta estrela? /Irmão, és tu/ ou sou eu?/ E estas mãos tão frias/ são daquele?/ Vejo-me pelos ocasos,/ e um formigueiro de gente/ anda por meu coração.”/ “Nossa filha teve todo o amor e se tornou uma criatura manipuladora…”

 

Pergunto se era amor a orientação existencial adequada a ela e pergunto se o fato de ter se tornado manipuladora tem a ver com o amor que recebeu. Tem?

“O modelo familiar que pregamos é de paz e de justiça. Como pode nosso filho ter se tornado um bandido, um ladrão?”

 

Pergunto se o homem segue necessariamente um modelo que lhe é oferecido. Alguns, por exemplo, nem mesmo seguem um modelo; constroem coisas aleatórias.

 

Seletividade é uma das respostas apropriadas para a nossa época, provavelmente. Outras épocas e contextos pedirão outras coisas.

 

“As pessoas são mesquinhas, mentem, só pensam nelas mesmas. Eu auxilio os outros e apenas sou passado para trás” –por seletividade, quem assim afirma provavelmente está submerso na mesquinhez, mentiras e egoísmos que afirma ser dos outros. Ou seja, no grande painel existencial que é cada pessoa, é isso o que tal criatura consegue ver. Onde estão as dez milhões de outras coisas que também estão lá?

 

Você compreende isso? Sabe explicar?

 

Quando você usa de seletividade e escolhe o que não quer para você, mas se ocupa todo o tempo com isso, você, na verdade, escolheu isso para você. Exemplo: não gosta de lixo, mas pensa, reflete, imagina, explica e fala todo o tempo de lixo. O lixo passa a ser parte da vida de tal pessoa porque ela o alimenta existencialmente mais do que alimenta as coisas que, de fato, lhe dizem respeito, como amor, carinho, lealdade etc. Resultado…

 

 

Em geral, sem ser regra, a energia similar que se usa para construir pode ser a mesma necessária para se amargurar e destruir. Muitas vezes, ao usar para um lado pode faltar para o outro. Mas há exceções importantes.

 

Em Lisboa, quando recentemente estive na Universidade Católica Portuguesa, tive a oportunidade de conhecer uns versos do poeta Nuno Judice que ilustram o ensinamento:

De um e outro lado do que  ou,/ da luz e da obscuridade,/ do ouro e do pó,/ ouço pedirem-me que escolha;/ e deixe para trás a  inquietação,/ a dor,/ um peso de não sei que ansiedade./ Mas levo comigo tudo/ o que recuso.  Sinto/ colar-se-me às costas/ um resto de noite;/ e não sei voltar-me/ para a frente, onde/ amanhece.”

 

E as pessoas que, por seletividade, alimentam suas vidas com sonhos belos, poesia, amor, crescimento existencial, solidariedade? Como entender que muitas elas padecem em coisas ruins, desagradáveis, continuadamente? Que seletividade é essa que, ao escolher o que há de aprazível e acolhedor para a alma, a pessoa colhe dor e perdas? Uma resposta corriqueira, muito encontrada em elementos de seletividade, diz respeito a uma vivência panorâmica, superficial, de aspectos que pedem consistência, frequência, profundidade. Exemplo: muitos dos que oram, rezam, cumprem um ritual sem lastro, sem vida, mera formalidade protocolar. Algo como ter decorado as Escrituras, saber citar capítulos e versículos, mas não acreditar, não viver de fato o conteúdo dos verbos. Assim, oque se fortalece é o medo, a dor, aquilo no qual de fato a pessoa coloca sua vivência, reforçada a cada dia. Para muitos é assim.

 

 

De outra forma: a pessoa fala em poesia, em sonho, mas tem fortes experiências subjetivas de dor e misérias. O quadro clínico pode piorar muito se a pessoa ainda esconder de si mesma esse fenômeno, pois poderá chegar ao consultório perguntando coisas como: Por que uma pessoa, feito ela, que tanto se inspira e busca a poesia da vida tem vivido as desgraças e ruínas existenciais – uma vez que se alienou de si mesma e não compreende o que se passa?

 

Albert Einstein ilustrou esse conteúdo em 1939: “Podemos ter o mais claro e mais completo conhecimento do que é e, contudo, não sermos capazes de deduzir daí qual deveria ser o objetivo das nossas aspirações humanas. O conhecimento objetivo nos fornece instrumentos poderosos para a realização de determinados fins, mas o objetivo último propriamente e o desejo de o alcançar têm de provir de outra fonte. Aqui enfrentamos, portanto, os limites de uma concepção puramente racional da nossa existência”.

 

 

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e sistematizador da Filosofia clínica no Brasol. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel.

luciopackter@uol.com.br

Adaptado do texto “Seletividade: uma das respostas para a nossa época”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 89