Danos do colonialismo

Por Alexandre Quaresma* e J. Bamberg** | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O planeta Terra está sendo sumariamente destruído, as pessoas mais frágeis das sociedades sendo mortas indiscriminadamente, a intolerância e a violência ideologizadas se agigantando em guerras e combates cada vez mais cruéis e frequentes, e é “assim – frise-se – que caminha a humanidade”. Há quem diga que nem Deus nem o diabo querem se intrometer nessa zorra toda. Ora um aterroriza, ora o outro responde na mesma moeda, em escala e proporções maiores, e isso é quase uma paracoreografia, um “efeito espelho mágico”, jamais discutido, pois que, assim, alimente o mercado de possibilidades as mais inquestionáveis. Petróleo por alguns milhares de mortos?!… Qual o problema?!… Gás para o longo inverno e outros milhares sob fogo destampado e ao desabrigo, seguindo rotas de fuga para lugar nenhum?! É parte do processo, infelizmente… O que dizer quando o mundo é exposto à venda nessa enorme prateleira de mercado em todas as suas perspectivas referenciais, éticas e morais, e passa a ter “um peso midiático” ao avaliarmos situações como, por mero exemplo, o desastre de Minas Gerais e o último atentado de Paris?

 

Deus, lei e desejo

 

Como ficarão as respostas que não aconteceram em referência ao envolvimento milenar com a dominação e ocupação de terras e culturas de outros povos que resulte num ódio que dê “justificações” a qualquer um que se carregue de explosivos e cause um dano simbológico tão absurdo que nem haja mais que providenciar em contrário se, não, a contradita também armada e difusa que possa, em propósito perspectivo bem urdido e sustentado pela mercancia armamentista, responder com tanto peso de fogo que crie outra cultura da violência-em-direito-de-resposta, que já se tenha a plena garantia da aceitação mais efetiva e sem maiores discussões a respeito, a questionar tais absurdos de parte a parte, como se isso fosse apenas a parte-pior do negócio, e que esse tenha muitos outros itens positivos que “justifiquem” as atitudes de ambos os opostos? O que dizer dos que tornaram o mundo uma prateleira de mercado e, assim, passaram a tratar das mais diversas questões de modo tabular, raso, nos mostrando suas expectativas, tracejos estatísticos, que recortam irrequietos o que ainda entendemos como realidade em seus planos, níveis, quedas, depressões, lucros, despesas, custos, lucros outra vez mais, prospecções de ganhos, instalações outras essas que definam a Vida, vidas, realidades massivas e particulares, também o que definimos como cultura, sociedade e tudo o mais quê?

 

Nós brasileiros, que assistimos aos atentados recentes em Paris e em Mali – e tantos outros mais que têm vindo à tona – a uma distância relativamente segura e confortável, por meio geralmente do que nos oferece a mídia extremamente suscetível ao vil metal, em sua superficialidade tendenciosa habitual, corremos o sério risco de nos equivocarmos acerca das causas e motivações desses bárbaros acontecimentos, e sermos ludibriados acerca dos interesses que subjazem aí. É preciso enxergar além da confusão.

 

 

As degolas de jornalistas, inocentes e civis, os drones teleguiados eliminando degoladores e pretensos inimigos, os bombardeios russos, franceses e estadunidenses, o estado de caos e pânico que se instaura na socioambiência, as forças especiais e o exército nas ruas, as pessoas amedrontadas trancadas em casa, reféns do próprio medo instaurado, enfim, tudo isso são apenas os sintomas dessa grande oportunidade negocial que as guerras e conflitos proporcionam. Todavia – indagamos –, o que de fato é novidade? Alguém, por acaso, se dispôs a questionar como estejam as realidades de cada território pelo Colonialismo parasitário, pelo menos na sua presença mais recente, porque, não esqueçamos, a Europa e suas terras pobres motivaram invasões às terras alheias há pelo menos 2 mil anos… Como estarão hoje tais feridas? Cicatrizadas e devidamente estabilizadas, escaras sem sequelas maiores que possam manter os circuitos e relações comerciais com tranquilidade? Ou, haveria sim, verdadeiros queloides, frutos de velhas feridas abertas a chicote, a escravização, dominação secular e dilaceradora do tecido interétnico e de equilíbrios que jamais se recuperarão, dadas as dissensões provocadas e ainda prevalentes?

 

É preciso compreender também que esse momento histórico delicado que vivemos é o reflexo, um exsudato de um processo de colonização brutal, que remonta, em primeiro momento a diversas culturas, e, em dimensão maior, ao Império Romano e ao colonialismo recente, que põe seus pés e suas garras na África e Oriente Médio, com a Guerra Santa e, a posteriori, com as demais conquistas de terras e povos, que vão alimentar a futura Renascença, bem como as ocupações que têm seu ápice em todo o século XIX, num contexto renominado como Mercado Capitalista. E se o Velho Mundo está preocupado e barbarizado – como pretenderiam alguns –, pode-se dizer que está justamente pelos retornados desse mesmo processo de ocupação colonial que ele mesmo (Velho Mundo), outrora, iniciou. Ou seja, ao que tudo indica, a “conta” finalmente chegou. E do futuro e seus futuros idealizados, quem sabe até possíveis, nada que esteja fora da organizada prateleira do mercadão crudelento da guerra será sequer considerado. Quais serão os próximos alvos? Desde que não prejudiquem o mercadão das armas, qualquer ponto do “mundo conhecido”.

 

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*Alexandre Quaresma é escritor, ensaísta e pesquisador, com especial interesse na crítica da tecnologia. Autor dos livros Humano-Pós-Humano – Bioética, conflitos e dilemas da Pós-modernidade; Engenharia genética e suas implicações (org.); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir?

** J. Bamberg é sertanejo, professor, pesquisador, artista e humanista, pesquisador Associado do Programa Avançado de Cultura Contemporânea-PACC/UFRJ. Conselheiro do Inst. de Cultura Cidadania e Desenvolvimento (ICCD). Conselheiro–presidente do Inst. KAAPIKONGO – do Brasil de Dentro.

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 114

Adaptado do texto “O mercado da guerra”