Crianças em busca de si mesmas

Por Lucas Vasques
Entrevista: Arnaldo Vicente


O ser humano é atingido, em determinados momentos, por sentimentos de tristeza e medo. E, frequentemente, se torna incapaz de decodificar a origem dessas sensações. O que acontece, na maioria dos casos, é a pessoa procurar respostas para suas angústias de fora para dentro, como se o mundo ao redor fosse capaz de apontar soluções. Para desmistificar essa prática e mostrar as dificuldades de lidar com as questões filosóficas da vida, Arnaldo Vicente, psicólogo especializado em Terapia Cognitiva Comportamental, escreveu seu primeiro livro, O menino que entrou dentro de si (editora Caminho Suave, do grupo Edipro).

Com ilustrações de Kelly Adão, a obra busca mostrar a importância de ensinar às crianças a serem conhecedoras de si mesmas. O leitor descobre que mesmo com todos os pesadelos, pensamentos negativos e medos é possível percebê-los, mas nem sempre segui los. O autor oferece a todos, sejam adultos ou crianças, uma reflexão de como estão processando
os problemas e como é possível mudá-los por meio das emoções.

A História traz o conceito-chave da terapia cognitiva, que tem o objetivo de ensinar que a criança evolui na medida em que descobre que conversar consigo é essencial para a felicidade. Trata-se de uma semente para que as crianças se desenvolvam emocionalmente saudáveis e capazes de lidar com os desafios impostos pela vida.

  • Filosofia: Quais as motivações que o levaram a escrever O menino que entrou dentro de si mesmo e como foi essa transformação
    da sua busca pelo autoconhecimento até ser impulsionado a produzir essa obra infantil?

Vicente: Embora eu tenha tido uma infância alegre na maior parte do tempo, também tive os meus momentos de tristeza e, quando triste, eu procurava me recolher, buscando uma resposta que justificasse o que eu estava sentindo e qual seria a solução para voltar a sorrir; não tive essas respostas e hoje sei que estava procurando do lado de fora de mim. Acabava sendo chamado por alguém para alguma atividade e logo estava sorrindo de novo: estudando, jogando bola, lendo livros de mitologia ou prestando atenção nas conversas familiares. Assim foi até me interessar por teatro no colégio e passar a escrever textos e dirigir os colegas para apresentações ligadas as disciplinas escolares e, depois, como voluntário, que também escrevia e dirigia meninas pré-adolescentes numa instituição de promoção social. Adiante passei a escrever e dirigir no teatro amador e como funcionário público da área de recreação e educação de uma unidade da USP-Bauru, onde trabalhava a reabilitação dos pacientes por meio de dramatizações e videoterapia, com peças escritas ou adaptadas por mim. Foi nesse período que iniciei a faculdade de Psicologia e passei a compreender o universo interno dos pacientes, me interessando cada vez mais em ajudá-los a desenvolver sua comunicação e autoestima, enfatizando que o sucesso do tratamento só existiria se eles tivessem atitudes no mundo que estivessem alinhadas com suas ideias. Tendo como estilo sempre buscar formas simples e objetivas que ajudassem o mais breve possível a evolução dos meus pacientes, na unidade da USP e de meu consultório particular, passei a escrever sobre os assuntos que mais me desafiavam e, assim, iniciei os primeiros esboços do meu livro O menino que entrou dentro de si mesmo. Inicialmente, numa linguagem geral, e depois, numa linguagem terapêutica.

  • Filosofia: Como transportar essa forma de autoconhecimento para o universo infantil e como essa prática pode alcançar as crianças?

Vicente: As crianças estão se comunicando o tempo todo, utilizando as mais diversas formas de expressão, sozinhas ou diante de outra pessoa, por exemplo, com, balbucios, choro, sorrisos, gestos; depois palavras e mais palavras. Ao verem outras crianças, reagem espontaneamente com aproximação ou distanciamento, dificilmente são neutras. Ao verem imagens na TV, no tablet, em livros, riem, ficam sérias, incrédulas, estranham, dançam, gritam ou choram. Percebemos apenas os comportamentos físicos de uma criança, principalmente os faciais e gestuais, mas nunca ninguém viu uma emoção ou um pensamento andando por aí. Mesmo assim, estamos sempre tentando, automaticamente, explicar o que estão sentindo ou pensando. Ou seja, funcionamos assim e elas também. Crianças sentem e se comportam de acordo com o que pensam, mas não têm consciência desse processo. Isso não significa que não expressam suas ideias e cabe ao adulto desenvolver essa consciência e estratégias para cuidar e oferecer uma dinâmica diária, que aumente a possibilidade das crianças desenvolverem pensamentos que beneficiem o seu desenvolvimento cognitivo comportamental. Martin Seligman, em seu livro Aprenda a ser otimista, deixa claro como as formas de feedback dos adultos influenciam para a formação de uma criança pessimista, realista ou otimista, quando comentam seus sucessos e ou fracassos; independentemente de sua idade. Ou seja, a primeira forma de inserir a criança nesse novo mundo de autoconhecimento são as avaliações que recebem sobre suas ações no dia a dia. Formando um modo de pensar ou matrizes de pensamentos que serão utilizadas gradualmente para suas autoexplicações. Isso significa que a mente explica de modo pré-consciente, automático e involuntário todas as informações captadas pelos órgãos sensoriais, ou seja, gerando significados sobre os eventos internos e externos que vão influenciar na formação de suas crenças sobre si mesmo, o mundo e o futuro. Crianças, às vezes, são informadas que o bicho papão está no cômodo onde os adultos não querem que elas entrem, ou que o homem do saco está sempre de plantão no seu portão e que não devem sair sozinhas, ou mesmo que só devem atravessar a rua de mãos dadas com o adulto, entre outras observações. Polêmicas à parte, elas também devem ser informadas que o bicho papão e o homem do saco já se aposentaram e que agora já podem atravessar a rua ao lado dos adultos sem precisar dar as mãos.

  • Filosofia: A obra ensina a olhar para os pensamentos e desenvolver uma nova atitude diante deles. Como a criança consegue olhar para os próprios pensamentos e criar uma nova dinâmica em relação a eles? Isso não requer certa maturidade que a criança só vai adquiri ao longo dos anos?

Vicente: A maturidade virá como consequência da experiência proporcionada pelos adultos no dia a dia. A criança, mais que os adultos, está aberta para acreditar naqueles em quem confia. Ao escutar que faz tudo errado, acredita e reage com tristeza, mas pode desenvolver a ideia de especificidade e dizer que errou nesta situação, sem desconsiderar que já fez certo em outras situações. A criança que aprende que o fracasso é específico vai percebê-lo também como passageiro, aumentando sua autoconfiança,
já que tem a capacidade de acertar e não errar apenas. Chamamos a isso de formação da resiliência ou capacidade flexível de dobrar sem quebrar; de falhar e não voltar a zero; de não perder tempo, mas sacudir a poeira e recomeçar, aprendendo com os próprios erros. Crianças têm uma tendência a acreditar que tudo muda por causa delas e isso explica por que são tão esperançosas e sonhadoras. Mas, infelizmente, desenvolvem desesperança quando os fatos desfavoráveis são contínuos e frequentes. Só assim ficam deprimidas e sentem vontade de morrer. Crianças podem rotular pessoas e objetos, mas são capazes de aprender que os mesmos têm outras características diferentes. Também podem dizer que não conseguirão fazer algumas coisas e mudarem de ideia sobre si mesmas quando incentivadas. Podem explicar que estão tristes ou com raiva porque a mamãe saiu e não a levou, demonstrando ideias distorcidas de abandono permanente. Crianças são fontes inesgotáveis de oportunidades para a educação cognitiva comportamental; aprendendo a pensar de modo funcional, alcançando seus objetivos conscientes ou não.

  • Filosofia: Crescer emocionalmente saudável, tendo condições de conhecer a si mesmo e ser capaz de lidar com os desafios e adversidades da vida, só é possível entrando no próprio coração, ou seja, fazendo uma espécie de viagem introspectiva? Em resumo, é verdadeiro afirmar que as respostas para os grandes problemas filosóficos da vida não devem ser procuradas de fora para dentro, pois o mundo não é capaz de apontar soluções?

Vicente: Entrar no próprio coração significa se interessar pelos pensamentos que têm uma valência emocional, aqueles que fazem parte de nossas estruturas mais profundas, pelos quais somos capazes de nos entregar e nos superarmos, pois nos conduzem as nossas realizações e plenitude. O mundo está sempre nos oferecendo soluções, mas o que vale é a ideia que formamos sobre elas, acreditando que nos será benéficas ou prejudiciais.

 

*Crédito: Divulgação

 

Revista Filosofia, Ciência & Vida Ed. 121