Corpo, folia e Filosofia

É na vivência radical do corpo, dos instintos, no transe que altera a consciência e suspende a racionalidade, que é possível experimentar, ainda que de forma fugaz, um saber trágico que afirma a existência e que não pode ser compreendido, explicado ou transmitido racionalmente

Por Joana Tolentino* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

É reconhecida a importância nas culturas agrárias, das quais somos tributários, dos rituais de celebração da fetilidade da terra, da fartura de alimentos, da manutenção da vida. Em tais ritos, muitos deles festivos, as forças da natureza e os deuses a elas associados são invocados tanto para potencializar a produção agrícola vindoura, quanto, ao final, para agradecer as fartas colheitas obtidas. Festas que ocorriam em diferentes momentos do ano, tanto no período que precedia o início do ciclo de produção de alimentos – de acasalamento com a terra, fertilização e germinação das sementes; quanto no período que antecedia a colheita, a fim de garantir a maturação dos alimentos; bem como no período imediatamente posterior a ela, para brindar seu sucesso. A vida humana e sua manutenção deveria ser fortalecida pela proteção dos deuses, garantindo a dura sobrevivência no inverno que se aproximava.

 

Destas festas, as mais fartas são aquelas ligadas ao simbólico da fertilidade, não só pela imagem de abundância com a qual se identificam, como também por necessidades mais pragmáticas. Nos extertores do inverno, ao aproximar-se a chegada da primavera, com a elevação da temperatura, o calor dificultava o armazenamento de alguns alimentos, em especial de origem animal, já há muito estocados. Os mais perecíveis certamente não suportariam o clima e, caso apodrecessem, poderiam colocar em risco todas as provisões até a colheita dos primeiros frutos na primavera, que ainda tardariam. Em nome da fartura no novo ciclo agrícola que se aproximava, realizavam-se festas e celebrações aos deuses. Nestas festas, fartavam-se consumindo todo estoque de alimento de procedência animal, principalmente carnes, evitando seu apodrecimento. Acreditavam também que, dessa maneira, através da vivência festiva da experiência do excesso os indivíduos estariam melhor preparados para suportar a escassez dos últimos dias de inverno, os mais difíceis, de racionamento e privação, até que aparecessem os frutos primaveris.

 

Essa é, possivelmente, a origem do jejum e da abstinência de carne no período denominado pelo cristianismo como quaresma, que antecede os rituais da páscoa e cujo hábito remeteria à própria etimologia da ­palavra ­carnaval. O calendário cristão incorporou muitas festividades pagãs de culturas que lhe antecederam, favorecendo desse modo a inclusão de adeptos oriundos de distintas tradições culturais. A tradição cristã atribuiu conotação religiosa a algumas destas festas – como é o caso do natal, mas também manteve o caráter pagão de outras. Com a festividade do carnaval isso possivelmente teria ocorrido, pois muitas são as vertentes que vêem na prática religiosa do jejuar na quaresma, neste “abandono da carne”, a origem etimológica desta palavra latina. Carnevale, no italiano, é a contração dos temos latinos “carne” e “levare”, cujo significado remeteria ao instante último que precede o afastamento, a privação da carne por um longo período. Em outra bibliografia carnaval seria oriundo da expressão latina “carne vale”, que seria uma ode, uma saudação, no sentido de um adeus à carne. Ambos os casos dizem respeito à uma celebração da carne, da fartura, dos prazeres sensíveis associados ao último momento de abundância que precede a contrição. Uma analogia pode ser feita à nossa vivência do carnaval hoje em dia. Nesse período festivo, vivemos intensamente o lado lúdico da vida, que parece nos encher de alegria e regozijo a fim de nos fazer suportar melhor um intenso período de trabalho que segue árduo ao longo de todo um novo ano.

 

Numa outra vertente a expressão do latim carrus navalis aparece como origem etimológica da palavra carnaval, remetendo às festas orgiásticas dionisíacas, versão defendida pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955): “Segundo o mito helênico, Dioniso chega recém-nascido do oriente em um navio sem tripulação, nem piloto. Na festa, este navio, com a figura do deus, era transportado por ruas e campos em um carro, no meio da multidão embriagada e delirante. Este carrus navalis é a origem do nosso vocábulo car-naval, festa em que nos colocamos máscaras para que nossa pessoa, nosso eu, desapareça”. É pelo êxtase dionisíaco – alcançado em especial nas festas orgiásticas com música, dança, vinho – que o indivíduo é liberto das amarras morais que aprisionam o eu e lançado na vivência coletiva unívoca dos prazeres do corpo, em práticas que estimulam um jogo corporal alegre, livre, sexual, lúdico. Tais práticas incluem festejos e cortejos imbuídos de símbolos profanos, sensuais, eróticos, fálicos, sendo fundadas na dissolução do princípio de individuação em busca de uma integração com o uno primordial, no seio da natureza. “O carnaval, hoje já moribundo, tem sido a perpetuação nas sociedades cristãs ocidentais da grande festa pagã dedicada a Dioniso, o deus orgiástico que nos convida a despersonalizar-nos e borrar nosso eu diferencial e sumir na grande unidade anônima da Natureza”.

 

Entenda a cultura do corpo

 

O corpo é vivenciado e divinizado em sua própria mundanidade radical, sua potência sexual, sem a qual não haveria a vida. O corpo feminino, aquele que engravida experienciando em si a potência germinadora da natureza, ganha a cena. O falo ereto é alçado à alegoria principal, estimulando o contato corporal erótico. O sexo, devido à fusão dos corpos (ainda que momentânea), é elevado à condição de harmonização entre indivíduo e totalidade. O prazer sexual, identificado com a própria energia vital, “‘efetua’ um transporte, um deslocamento. Ao gozo esperado se substitui um gozo não somente mais intenso, mas também e sobretudo, de outra ordem; pois não é mais um certo corpo que aparece então como fonte de gozo, e sim, indistintamente, todos os corpos, e mesmo o fato da existência em geral, subitamente sentida como universalmente desejável. O que se realiza no momento do orgasmo pode ser descrito como uma passagem do singular ao geral, passagem da busca de um prazer particular para a obtenção de um gozo, se não universal, pelo menos sentido como tal”.

 

Dessa forma lúdica, gregos e romanos, importantes matrizes da cultura ocidental, vivenciavam as festas orgiásticas que podem ser identificadas hoje com a nossa tradição do carnaval. Tal como nos documentou Eurípides na sua peça teatral As bacantes, os gregos, nos cortejos dionisíacos, vivenciavam o mais puro prazer orgiástico, de fusão com a natureza. Pessoas ­desnudavam seus corpos e corriam pelos campos emitindo sons guturais, mulheres amamentavam filhotes de animais – em puro transe, todos cantavam e dançavam. Uma das principais festas orgiásticas dos romanos eram as saturnais que podiam durar até sete dias!

 

É plausível pensar que estas festas profanas são meios através dos quais vivenciamos de outro modo a vida política, enquanto vida na polis, isto é, vida vivenciada coletivamente na cidade. É por trás de máscaras e fantasias que ao povo é permitido aparecer de outra forma. Na tradição romana, nesta época, todas as atividades eram suspensas, as restrições morais eram relaxadas e os escravos obtinham o direito a uma liberdade temporária. As pessoas se enfeitavam, trocavam presentes e alguém do povo era eleito rei para comandar a folia e guiar o cortejo pelas ruas (tal como o nosso rei momo e as rainhas do carnaval). Ah, a inversão dos valores: os escravos viravam homens livres, o pobre adquiria status de nobreza… Na ludicidade do carnaval cada indivíduo tem a oportunidade de ser outro. “É a grande festa religiosa jogando os homens a desconhecerem-se entre si, um pouco fartos de se conhecerem demasiado. A fantasia e o falsete da voz permitem, nesta magnífica festividade, que o homem descanse um momento de si mesmo, do eu que é, e venha a ser outro e, em pé de igualdade, se livre por umas horas dos tus cotidianos ao seu redor”. São muitos os signos envolvidos nesse jogo sagrado e profano e os personagens que perduram em nosso imaginário trazem um pouco dos arquétipos que povoam a nossa cultura: pirata, bailarina, índio, super-herói, cigana.

 

Fantasiados e alegres, nos cortejos báquicos mulheres e homens comiam, bebiam, cantavam, dançavam, representando ludicamente a abundância, mostrando ao deus Dioniso a imagem daquilo que almejavam, num jogo espelhado em que a arte imita a vida e a vida responderia, imitando a arte. Para o filósofo Friedrich Niezsche (1844-1900), estaria aí a origem da tragédia grega, se estendendo à origem do próprio teatro grego (um dos pilares do teatro ocidental), formado a partir da atuação nesses cortejos de personagens coletivos, arquetípicos, que constituiriam mais tarde o coro trágico, traço essencial desse teatro. Consolidado na forma do coro que, em sua performance musical e poética, narrava todo o enredo trágico, só posteriormente dele foram extraídos os personagens individuais tal como os conhecemos na atualidade: Antígona, Édipo, Orestes, Medeia.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 103

Trecho adaptado do texto “Corpo, folia e Filosofia”

*Joana Tolentino é bacharel, licenciada e mestre em Filosofia pela UFRJ. É professora do departamento de Filosofia do Colégio Pedro II e membro do corpo docente da Pós-Graduação latu senso em Ensino de Filosofia do CEFET-
-RJ. É doutoranda em Filosofia na UFRJ e mãe de dois filhos.