Contribuição das cotas raciais

Por Carolina Desoti Fernandes* e Tiago Brentam Perencini** | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Conhecer a trajetória familiar dos nossos mais eméritos intelectuais brasileiros não significa desmerecer ou duvidar da qualidade de sua produção acadêmica. Todavia, torna-se esclarecedor para entendermos o que chamamos de meritocracia. A biografia da primeira e segunda geração de professores universitários de Filosofia e Ciências Humanas, que se misturavam com os franceses que vieram para a missão francesa uspiana compor a formação da intelligentsia brasileira, por exemplo, pode nos indicar algumas condições para a construção da intelectualidade brasileira.

 

A maioria é oriunda de famílias tradicionais e abastadas e teve aula de latim e francês nos melhores colégios. Uma grande crise comumente enfrentada por aqueles jovens intelectuais brasileiros era recusar cursar o que as famílias da elite impunham, o curso de Direito.

 

A intelligentsia brasileira, reproduzindo a seleção europeia das camadas pensantes, e seguindo o fluxo das condições econômicas impostas, não se diferiu do que explica Jean-Paul Sartre (1905-1980) em Em defesa dos intelectuais, pois “em particular, as classes desfavorecidas, enquanto tais, não produzem intelectuais, pois é justamente a acumulação do capital que permite às classes dominantes criar e fazer crescer um capital técnico”.

 

Jean-Paul Sartre

 

Para Sartre, na sociedade burguesa havia dois tipos de pensadores: o técnico do saber prático, que pesquisa em nome do universal e transforma os resultados em “utilidade para a minoria à custa da maioria” e o intelectual que coloca em questão a ideologia que o formou “se mete no que não é de sua conta”.

 

Não cabe, como antes dito, colocar em questão a produção científica e intelectual brasileira, assim como não nos cabe estender a discussão proposta por Sartre, mas utilizar a distinção para refletirmos qual é o tipo, de acordo com a definição de Sartre, de pensadores que as universidades brasileiras engendraram e engendram. Todavia, esse perfil está mudando.

 

Ações afirmativas são medidas temporárias que tentam amenizar as desigualdades educacionais que alguns grupos historicamente ­sofreram e sofrem, outros que estão em situação econômica desfavorável e que, privados de educação considerada de qualidade, não conseguem acessar cursos superiores.

 

As desigualdades educacionais são, para muitos pesquisadores, uma importante chave para entender a reprodução de classes e a impossibilidade que alguns grupos enfrentam para a mobilidade social, como explica Feres & Zoninsein: “Se levado em consideração o fato de que a educação formal é um instrumento chave para a mobilidade social, nota-se que o atual modelo liberal puro de universidade contribui para reproduzir, senão produzir, as desigualdades brutais que caracterizam nossa sociedade”.

 

Todavia, as ações afirmativas confrontam o conceito atual de meritocracia que justifica os méritos, de conseguir uma vaga em uma universidade de prestígio, por exemplo, como “um produto do esforço, habilidades e talentos de cada um”, sem considerar as desvantagens sofridas desde muito cedo por parte considerável da sociedade brasileira. Como afirmam os autores “vantagens desproporcionais e desigualdade agudas cancelam o mérito de qualquer vitória”.

 

 

Diante de diversas pesquisas sobre o acesso às universidades e dados estatísticos do perfil dos estudantes universitários, disponibilizados nos sites da Fuvest e Comvest, por exemplo, é inquestionável que as ações afirmativas juntamente com a expansão de cursinhos pré-vestibulares gratuitos têm sido de grande valia na democratização do acesso às universidades.

 

O ingresso de estudantes com perfil divergente daquela elite intelectual em universidades historicamente excludentes pode ser questionada devido à preocupação com o nível ou qualidade da formação e pesquisa. Todavia, estudos têm mostrado que os alunos de escolas públicas têm melhor desempenho nas universidades públicas, o que esgota o fundamento desta preocupação.

 

Há um aspecto geralmente negligenciado na discussão sobre ações afirmativas, e que se torna mais evidente à luz da discussão prévia sobre o papel do sujeito no processo de produção do conhecimento: a importância da diversidade de sujeitos para a própria diversidade do conteúdo filosófico. Este aspecto deve ser melhor explorado, pois seu impacto não é de menor relevância.

 

O ingresso de um público que se diferencie do perfil majoritário presente na academia brasileira tem a potencialidade de trazer para o meio acadêmico debates que talvez ficariam fora de tal esfera, dado o desinteresse ou desconhecimento dos mesmos por conta justamente da hegemonia de perfil que se reflete no campo da construção dos saberes.

 

Pensemos no caso da filósofa e ativista negra Angela Davis (1944), que dedica grande parte de seus escritos a pensar a questão do encarceramento. O interesse em tal tema já fazia parte da militância e produção acadêmica de Angela Davis quando de sua prisão, quando era professora de Filosofia na Universidade da Califórnia. Conforme declarado pela filósofa, sua experiência de encarceramento teve um grande impacto na sua produção intelectual. A influências das condições às quais o sujeito está submetido também se mostra em alguns debates entre filósofos africanos quanto à relevância da oralidade: dado que muitas culturas de alguns países africanos privilegiam o aspecto oral ao aspecto escrito, o questionamento da exigência de que a Filosofia seja necessariamente escrita se mostra muito razoável, dado o contexto em que a discussão se insere.

 

Angela Davis escreve sobre as nuances das diferentes formas de opressão e mostra como elas agem na sociedade

 

No Brasil, temos uma academia composta majoritariamente por pessoas brancas e pertencentes às classes abastadas. Há questões que são tratadas na filosofia brasileira quase que exclusivamente do ponto de vista relacionado às vivências ou interesses das pessoas que dominam o campo acadêmico. Vemos que a tematização do racismo, por exemplo, muitas vezes se ocupa de textos de autores europeus ou se preocupa prioritariamente com a questão judaica, quase não havendo discussão a respeito do racismo contra negros. Muitos debates acerca de democracia e direitos nas sociedades democráticas não conseguem contemplar a problemática realidade encarada pelas comunidades indígenas de nosso País. Estes são apenas dois exemplos de como a conformação excludente da academia brasileira gera efeitos nocivos para a construção do conhecimento, em especial para a Filosofia, dado que tolhe desta disciplina algo que lhe é tão caro: a capacidade de elaborar análises apuradas e cuidadosas dos temas abordados. A sociedade como um todo, e a Filosofia em especial, só tem a ganhar com a adoção das políticas de ações afirmativas.

 

 

*Carolina Desoti Fernandes é ​graduada em Filosofia pela PUC-Campinas. Pesquisa a influência africana na formação da identidade cultural brasileira. É editora, redatora e produtora cultural.​

*Tiago Brentam Perencini é licenciado e bacharel em Filosofia. Mestre em Ensino de Filosofia pela Unesp e professor de Filosofia Contemporânea na Faculdade João Paulo II de Marília.

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 122