Contradição e decadência

A democracia encontra-se ameaçada, comprometida e corrompida pelos interesses e contingências impositivas da hegemonia capitalista reinante

Por Alexandre Quaresma* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O modelo educacional contemporâneo se vê intimamente submetido aos restritos ditames do modelo capitalista, já que o principal objetivo das instituições de ensino é capacitar os alunos a estarem aptos a se inserirem nas cadeias produtivas capitalistas. Não objetiva ensinar as pessoas a raciocinar por si, serem criativas, capazes de contribuir para a construção de novos conhecimentos, de um mundo mais digno. Todavia, a hegemonia capitalista, seja enquanto modelo, seja enquanto regime, já começa a dar sinais de contradição e decadência. Quem irá esclarecer esses assuntos é Victor Figueroa Sepúlveda, professor investigador da Universidad Autónoma de Zacatecas, México, e autor de sete livros, organizador de outros três. Publicou 34 artigos e 18 capítulos de livros, dos quais destacamos Colonialismo industrial en América Latina – La tercera etapa. Ítaca: 2014, México.

 

FILOSOFIA • Como e porque o capitalismo e o mercado se tornaram o centro gravitacional da humanidade?

Sepúlveda • O livre comércio se introduziu como resposta à grande crise que se iniciou no final dos anos 1960. Assim como o keynesianismo, com sua ênfase no consumo, representou para o capitalismo uma tábua de salvação frente ao fracasso do liberalismo mais tradicional, agora esse, na forma de neoliberalismo, deslocado daquele. O capital privado praticamente desmantelou o Estado de Bem-estar e recuperou para si a hegemonia econômica, política e ideológica sobre a sociedade. Desde uma perspectiva histórica de longo prazo, o keynesianismo constituiu uma anomalia no desenvolvimento do capital, um período breve – mas criou a ilusão de que uma certa inclusão social, marcada por um crescimento econômico elevado e estável, era possível como projeto estratégico do capitalismo. Agora já recupera a sua forma natural: a exclusão. O atual liberalismo certamente difere de sua versão tradicional porque é abertamente reacionário; opera como uma contra-ofensiva do capital financeiro, que descansa na contra-reforma orientada ao desmantelamento das concessões que fundaram o pacto social que prevaleceu desde o final dos anos 1940 até meados dos 1970. A apologia do mercado permitiu abrir caminho para um ambiente mais propício para a expansão da grande empresa, ao liberá-la de amarras e condicionamentos, ao mesmo tempo que colocava o Estado eternamente a seu serviço. O trabalho da intelectualidade vinculada aos grandes poderes econômicos e políticos favoreceu o surgimento de um “pensamento único”, que, desde a perspectiva do capitalismo, recebe esse nome com toda justiça, porque em benefício da grande empresa era necessário desmantelar o poder de uma sociedade organizada e todo aquele que desde a institucionalidade estatal apoiava à força política da população.

 

As revoluções do capitalismo

 

FILOSOFIA • O capitalismo tem mostrado sinais claros de fadiga, decadência e contradição?

Foto: Arquivo Pessoal

Sepúlveda • Sim, existem claros sinais de esgotamento do capitalismo assim como o conhecemos. Entre os sinais mais visíveis deste processo, destacam-se: 1. O ritmo de crescimento econômico inicia uma prolongada tendência à baixa, só contida com recuperações leves e breves. Nos Estados Unidos, a taxa média de crescimento entre 1963 e 1972 foi de 4,6% ao ano; entre 2003 e 2012, foi de 2%. Na Alemanha, Espanha, França, Itália, Reino Unido e Japão a queda foi ainda mais pronunciada durante o mesmo período. A dinâmica econômica é cada vez mais débil e exposta a fortes convulsões. 2. O desemprego se expande de modo incontrolável, gerando excedentes absolutos de população, junto com o incremento da pobreza e a busca de formas alternativas de subsistência. A sociedade já não é capaz de oferecer pleno emprego de forma duradoura. Em duas ocasiões, durante as últimas décadas, em que houve avanço aproximando-se do pleno emprego nos Estados Unidos, isto é, desde 1995 até 2000 e de 2004 até 2007, essa evolução se revelou em cada caso com uma profunda paralisação econômica. 3. A desigualdade social alcançou níveis impressionantes, como pode ser visto na vasta literatura dos últimos anos sobre o tema. A concentração da riqueza, junto com o crescimento da miséria, estão prejudicando gravemente a legitimidade do sistema. 4. No país mais desenvolvido do mundo, as liberdades e direitos civis estão sendo sistematicamente enterrados. As prisões arbitrárias, a tortura, os assassinatos, a impunidade, a degradação dos órgãos civis de justiça, o controle sobre milhões de pessoas com métodos eletrônicos, o racismo, a repressão contra a imigração laboral. 5. “A criminalidade e o terrorismo se estendem em todo o mundo” e já são parte da vida cotidiana nos Estados Unidos. Devido a estes desenvolvimentos estarem profundamente enraizados na estrutura sócio-econômica da sociedade, é difícil pensar que o capitalismo, com sua fachada liberal, possa revertê-los.

 

 

FILOSOFIA • Poderia nos falar sobre o seu trabalho do conceito interessantíssimo de “desemprego tecnológico”?

Sepúlveda • O desemprego tecnológico como fenômeno do capitalismo tem sido reconhecido pela teoria econômica há muito tempo. A versão mais integral e brilhante do mesmo foi elaborada por Karl Marx. Em 1930, John Keynes introduziu a noção de desemprego tecnológico como uma noção em torno da qual se vem produzindo uma grande massa de literatura. Com razão, as perspectivas de Marx e Keynes são muito diferentes; o primeiro dá ênfase aos efeitos de longo prazo para a sociedade, destacando o desemprego com tudo o que ele implica, enquanto Keynes, e ainda menos seus seguidores, não percebem os eventos realmente problemáticos dele (desemprego). Alguns deles enxergam o desenvolvimento tecnológico como parte da construção de um futuro deslumbrante. No que me diz respeito, o tema tem atualidade pelas características que vem assumindo o deslocamento do trabalho humano pela máquina. A primeira revolução industrial começou substituindo principalmente os artesãos, isto é, produtores que concentravam ao mesmo tempo as tarefas mentais e manuais da produção. O avanço da industrialização reclamou a organização da ciência e deu lugar ao trabalho científico em uma categoria particular, e o separou do trabalho imediato. O trabalho científico, assim organizado, deu lugar à segunda revolução industrial, baseada na eletricidade e na expansão das ciências. Objetivamente, tampouco ele (avanço da industrialização) se traduziu em desemprego ascendente, porque o crescimento da produtividade permitiu abrir novas e mais extensas áreas de exploração, o que pode ser constatado durante a maior parte do século XX. Hoje em dia, a situação é diferente, e ele (avanço da industrialização) define o conteúdo da terceira revolução industrial: expande-se a inteligência da máquina, que não só substitui o trabalho rotineiro, senão também o trabalho cognitivo, o trabalho da mente. A ciência humana não só está depositando na máquina habilidades que antes lhe eram próprias; além disso está dotando a máquina com capacidades que o ser humano não pode realizar por si mesmo. Como resultado, muito da qualificação científica das pessoas está sendo inutilizada na produção, ao mesmo tempo em que torna obsoleta uma boa parte da educação superior. Creio que aqui reside a causa da brecha que se abre no seio das classes médias. Muito da qualificação laboral tende a ser empurrada para baixo, o que gera novas pressões para estenderem o desemprego e a pobreza.

 

 

 

FILOSOFIA • Caso o capitalismo se esgote e até mesmo finde, o que viria a seguir?

Sepúlveda • Gostaria de esclarecer que o que visualizamos em estado de esgotamento é o capitalismo em sua forma liberal, com suas liberdades e concessões ao trabalho. Em consequência disso, compartilhamos a ideia de que um retorno a políticas do tipo keynesiano está fora do horizonte social. Porém, essa sociedade pode sobreviver – todavia – por um período relativamente longo sobre a base da repressão e da semiescravidão do trabalho. Quer dizer, a atual situação nos está colocando ante um dilema já há muito tempo levantado: socialismo ou barbárie? Não queremos barbárie, porém o que temos de entender por socialismo? Não se pode construir a nova sociedade da noite para o dia, mas é importante contar com uma visão da mesma, afim de fixar os recursos necessários para alcançá-la. Significa que é necessário definir os recursos da utopia antes de nos aproximarmos dela. O que entendemos por socialismo, à maneira de Karl Marx, é a transição até a nova sociedade, o que vale dizer, a mobilização da vontade humana em perseguição de um mundo para si. Como seria esse novo mundo? Os seguintes recursos, já definidos por Marx, são cruciais: 1. O objetivo da produção é o desenvolvimento pessoal dos indivíduos. A ciência com seus maravilhosos êxitos já não busca satisfazer apetites privados de ganâncias, senão que é posta a serviço da população e da natureza. 2. A produção é a obra coletiva de produtores associados livres que controlam os meios de produção. 3. A produção garante a satisfação das necessidades coletivas (saúde, educação, moradia) e as daquelas pessoas que já não possam trabalhar. 4. Todos gozam de tempo livre para relaxamento e desenvolvimento pessoal, e de condições para a criação artística e científica cada vez que desejem envolver-se nessas atividades. 5. O trabalho cooperativo cria e reproduz relações de dependência e de igualdade entre os membros da sociedade. O que a comunidade faz é para o meu bem-estar; o que eu faço é para o bem-estar da comunidade. 6. A sexualidade é livre; os filhos e as relações sexuais são produtos do amor. 7. Já não existe o Estado como poder político; somente existe uma organização para a administração das coisas e para garantir o bom desenvolvimento das relações entre as pessoas. Em resumo, também com Marx, agregaria que a sociedade do futuro deve recuperar a essência humana das relações entre as pessoas, e das relações do ser humano com a natureza, despojando-se dos grilhões criados pela exploração do trabalho e pela propriedade privada sobre a natureza.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 106

Adaptado do texto “Contradição e decadência”

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia, pesquisador membro da RENANOSOMA (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente) vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). É o autor dos livros Humano-Pós-Humano – Bioética, conflitos e dilemas da Pós-modernidade; Engenharia genética e suas implicações (org.); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir? E-mail: a-quaresma@hotmail.com