Contra a terceirização da ética

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Faz tempo, li uma carta de leitor a um jornal, em que ele dizia algo assim: a classe média terceirizou a ética. Desistiu de ensinar princípios aos filhos. Delegou a tarefa à escola. E eu acrescento: ainda por cima, sabota o sistema escolar. Não valoriza o professor, o aprendizado, o livro. Então, o que fica?

 

Quando eu era ministro, fui falar no encontro nacional da Undime, a associação dos secretários municipais de Educação. A certa altura, afirmei: “Não se terceiriza a educação!”. Vi a alegria estampada no rosto de um personagem da política, que é contra o ensino privado. E logo depois o pesar na sua face, quando entendeu que eu dizia algo de sentido mais moral do que econômico: que ninguém, muito menos os pais, pode abrir mão da responsabilidade educativa.

 

Obviamente, eles não têm condições de ensinar o que a escola ensina. Mas não podem delegar o papel de educar, no sentido exato do termo. Quando falamos em “boa educação”, não pensamos em alguém que esteve nas melhores escolas ou teve as maiores notas. Pensamos em quem tem bons modos e trata os outros com respeito. Ora, os pais estão empenhados nisso? Ou é mais fácil olhar para o lado, não pôr limites, já que filho dá trabalho?

 

Um dia me perguntaram o que pensava das ofensas dirigidas a ministros e ex-ministros do governo petista em público. Esperavam que eu fizesse uma análise política da impopularidade do governo. Respondi em termos éticos: quem faz isso é gente mal-educada. Quando uma pessoa joga lixo pela janela do carro ou insulta uma pessoa na rua, está transformando o espaço público em privada. Note, eu não disse que está transformando o lugar público em lugar privado. Ela o está transformando em privada mesmo. Em vez de falar, defeca. No lugar da linguagem, que distingue o ser humano dos animais, entra uma mera função natural, necessária, mas que geralmente se exerce às escondidas porque está associada à sujeira.

Sistema apostilado: antieducação e totalitarismo?

 

Estarei sendo radical? Sim, se radical significar ir à raiz da questão. O Brasil vive hoje um momento difícil, mas também promissor. Praticamente tudo o que podia dar errado deu. Até a natureza cedeu à lama, à destruição, com o rompimento da barragem em Minas Gerais, matando o rio que tem o doce nome de Doce. Mas isso significa que precisamos rever tudo desde o começo.

 

Precisamos de um poder executivo eficiente. Precisamos de um legislativo sem excesso de funcionários. Precisamos de um judiciário sem mordomias ou demoras. Precisamos de empresas privadas honestas. Precisamos de um capitalismo que abandone a corrupção, respeite os direitos trabalhistas e os ambientais. Precisamos acabar com a ideia de que se pode explorar o ser humano ou a natureza até a exaustão – porque não há volta. Até pode ser que dê para substituir um trabalhador liquidado pelas más condições de trabalho. Mas o exemplo dos combustíveis fósseis e dos minérios, que demoram milhões ou bilhões de anos para se formar, demonstra que a substituição não é simples assim. O ser humano é insubstituível em sua singularidade. O mineral é insubstituível no tempo longuíssimo de sua formação.

 

Mas nada disso se conseguirá se não formos éticos nós mesmos. Já presenciei pessoas que atacavam o governo ou uma empresa, acusando-os de antiéticos, e que elas próprias eram mais sórdidas que eles. O caso mais recente foi o do elemento que, em Belo Horizonte, ofendeu um ministro – e, logo a seguir, se confessou sonegador.

 

Se não começarmos em casa este trabalho de desterceirização da ética, de responsabilização de cada um pela vida sua e dos outros, vamos piorar. Mas a esperança é que o País mude. Para mudar, cada um precisa sair de sua zona de conforto e parar de perguntar o que os outros vão fazer por ele. Perguntar o que você fará pelo mundo, e fazê-lo, é um bom começo.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 114

Adaptado do texto “Contra a terceirização da ética”

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP). www.renatojanine.pro.br