Conheça a mesologia

Por Rodrigo Petronio

Karl Jaspers cunhou a brilhante expressão “Era Axial” para definir a revolução empreendida pelo advento das doutrinas de salvação que emergiram, de Oriente a Ocidente, dos séculos VII ao nascimento de Jesus. Os  avatares dessa revolução seriam Buda, Confúcio, Lao-Tsé, Zoroastro, Sócrates, Moisés, ou seja, os fundadores dos sistemas de sentido que orientam quase toda a humanidade nos últimos 2 mil anos, incluindo a Filosofia.

 

A intuição de Jaspers foi tão poderosa que o conceito de axialidade passou a ser desenvolvido por pensadores como Eliade, Armstrong, Toynbee, Voegelin, Spengler, Sloterdijk, Lambert e continua dando ensejo a novas especulações. Por mais distintas que sejam entre si, todas essas doutrinas que compõem a Era Axial se baseiam em três princípios que as unificam: salvação, transcendência e revelação.

 

A salvação é o princípio moral que passa a nortear a vida a partir da distinção, agora possível, entre bem e mal. A transcendência é a crença de que esses princípios são metafísicos e não intramundanos. Emanam de uma região para além da physis. A revelação consiste em crer que o acesso a esses princípios transcendentes ocorre mediante uma suspensão da casualidade natural, seja por meio de Deus, de deuses, de uma profecia ou de um nível distinto de consciência.

 

Em todos esses casos, a totalidade da natureza é superada por meio da adoção de uma verdade  revelada. Essa verdade institui uma transcendência em relação ao mundo e, ao mesmo tempo,  promove a condição de possibilidade de salvação individual e coletiva dos seres.

 

As doutrinas reveladas propõem uma diferença ontológica entre physis e ser, o que instaura uma dimensão transfísica ou metafísica no plano de atuação global da vida e do universo. Entretanto, essa diferença ontológica, ao contrário do que pretende Heidegger, não é exclusiva de seu desvelamento da distinção radical entre ente e ser. Encontra-se delineada no conceito de hiperousía [suprasser] desenvolvido por Platão no Parmênides e atravessa toda a Filosofia.

 

Pois bem: tanto os sistemas axiais fundados sobre a diferença ontológica quanto os sistemas naturalistas, ambos norteadores de grande parte da humanidade durante milhares de anos, encontram-se no limiar de sua extinção por meio das imagens do mundo criadas pela Ciência.

 

À medida que as religiões reveladas instituíram um ser supremo como unidade transcendente, instituíram simultaneamente um princípio de racionalidade e de unidade para o universo. Ao identificar a unidade da natureza com a imagem de uma transcendência em relação à natureza, em certo sentido os sistemas axiais revelaram o mundo como abertura na cadeia dos seres, mas o reduziram à condição de imagem finita da relacionalidade infinita que é o universo.

 

A imagem do universo, da divindade e da vida modelada pela mesologia, em consonância com cosmologias contemporâneas, refuta e refunda esses sistemas axiais e naturalistas. Não há nada transcendente ao cosmos. O cosmos é tudo o que existe, é eterno e infinito, e, portanto, não admite uma instância externa reguladora ou criadora,um começo e um fim. Mas o cosmos tampouco é imanente a si mesmo. Ele é o conjunto infinito de compossibilidades que, ao se atualizarem, realizam-no como cosmos.

 

Essas infinitas possibilidades não são totalmente imanentes porque não podem ser total e simultaneamente atuais, umas em relação às outras. Nesse caso, o universo seria finito e, como finito, incapaz de ser eterno por meio da reinvenção de suas formas e de suas substâncias. Deus ou qualquer ser transcendente não são condições sine qua non do universo infinito, pois mesmo Deus, à medida que se converte em imagem, transforma-se em um meio [meson] de realização da cadeia infinita dos seres.

 

O universo e as fascinações das divindades tampouco são totalmente imanentes, pois ao contrário da tese de Espinosa, divindade e natureza não podem ser totalmente comensuráveis entre si sem se destruírem mutuamente. Caso assim fosse, o universo não seria infinito e eterno, mas finito e perpétuo, ou seja, viveria se repetindo, sem conseguir gerar novas formas.

 

Do ponto de vista da mesologia, a Ciência não apenas tem convertido o mundo em imagem do mundo. A Ciência tem desvelado duas grandes verdades por meio dessas novas imagens do mundo: o universo não é regido por um princípio transcendente, porque não é uma totalidade, e nem é pura imanência e continuidade, porque é relacional.

 

O universo é a atualidade real da virtualidade infinita de mesons e relações. Se o universo é infinito, não pode ter unidade e, portanto, não possui unidade racional, seja ela o sujeito transcendental ou Deus. Se o universo não pode ser manente a si mesmo, consiste em uma infinita e inacabada passagem da virtualidade à atualidade. Não pode, nesse sentido,  admitir nem a  identidade de substância entre deuses e a natureza nem a transcendência de Deus em relação a essa mesma natureza, como propõe a axialidade.

 

Os sistemas axiais descritos por Jaspers e os sistemas arcaicos naturalistas fundados sobre a imanência encontram-se ambos em seu eclipse. Novas fascinações e novas divindades aguardam para  surgir no horizonte de um universo feito de compostos e composições, isento de simplicidade substancial primeira ou final, seja divina ou natural. Deus e deuses, transcendentes ou imanentes, não são começos e fins, pois não há e nunca houve começos e fins. Há apenas mesons, ponto infinito do tecido infinito e sem sentido do universo.

 

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*Rodrigo Petronio é professor da pós-graduação da FAAP. Organizador dos três volumes das Obras completas do filósofo Vicente Ferreira da Silva (Editora É). Coorganizador do livro Crença e evidência: aproximações e controvérsias entre Religião e teoria da evolução no pensamento contemporâneo (Unisinos ).

Adaptado do texto “Deus e os mesons”