Conheça a filosofia que aparece nos filmes de Hitchcock

Por Flávio Paranhos* | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Faz tempo que vi A tortura do silêncio (I confess, Alfred Hitchcock, 1953, com roteiro de George Tabori e William Archibald, a partir de uma peça de Paul Anthelme), de forma que dessa vez o leitor pode ficar tranquilo, pois não revelarei  nenhum spoiler. Não me lembro de como acaba (embora imagine que tudo acaba bem, já que se trata de filme comercial), não me lembro de detalhes, enfim. Mas me lembrei desse filme por duas vezes na mesma semana, por motivos e fontes diferentes, portanto deve ser um sinal dos deuses do cinema de que tenho de falar sobre ele.

 

A primeira fonte foi outro filme – As doze cadeiras, de Mel Brooks, um de meus diretores de comédia favoritos. Uma cena desse filme, que também tinha visto por último há mil anos, me marcou bastante, a cena em que um dos protagonistas imita (de forma bastante esculhambada) um “ataque epiléptico”, ao pé de um busto de Dostoiévski, enquanto seu parceiro chama os transeuntes: “Epilepsia, meus amigos! A doença que atacou nosso ilustre escritor Dostoiévski!”. O quarteto formado por Frank Langella (tão jovem, quase irreconhecível), Ron Moody e Dom De Luise (magrinho!), completado pela  participação do próprio Mel Brooks, está impagável.

 

De Luise, por sinal, é figurinha quase tão fácil nos filmes de Mel Brooks quanto Gene Wilder. E é o papel dele que me fez lembrar de I confess. Um padre que, logo no início do filme, ouve a confissão de uma senhora moribunda – a mulher escondera suas joias valiosas em uma das doze cadeiras de sua antiga mansão, da qual tivera de sair correndo durante a Revolução Russa. Padre Fiódor não espera nem que a moribunda parta de vez. Sai correndo da casa em busca das tais cadeiras.

 

 

Silent Movie, dirigido por Mel Brooks

 

A segunda fonte foi a leitura de um caso citado logo no primeiro capítulo do Principles of Biomedical Ethics. Um homem matou uma mulher depois deter confiado a seu terapeuta que faria isso. O terapeuta até chegou a tentar dissuadi-lo, mas não teve sucesso. E, por conta de do sigilo profissional, não comunicou a ninguém a ameaça à mulher, mesmo depois de não ter conseguido demover o paciente de seu intento. O caso foi parar na Corte Suprema da Califórnia. A maioria dos juízes condenou o terapeuta, com base no fato de que, de forma geral, o sigilo  profissional deve prevalecer, mas há exceções, e essa era claramente uma delas. Apenas um juiz discordou, argumentando que quebras de sigilo corroeriam a confiança paciente-terapeuta.

 

Vamos guardar esses dois exemplos para uso logo mais adiante e passemos ao nosso filme. Um padre (Montgomery Clift) ouve a confissão, tarde da noite, de um funcionário de sua igreja, que havia  acabado de matar um advogado para roubar-lhe o dinheiro. Para complicar, ao longo da história  todas as evidências vão apontando para ele, o padre. O advogado morto vinha chantageando a mulher de um político, que tinha sido namorada do padre antes de ele virar um, e os dois são vistos conversando de forma suspeita na porta da casa do advogado no dia em que o crime foi descoberto.

 

Como eu disse, não me lembro dos detalhes nem de como acaba (se bem ou mal para o padre). Mas de uma coisa me lembro bem – ele não conta de jeito nenhum. Veja que situação complicada. Você exerce uma profissão em que uma das tarefas é ouvir confissões. Um assassino se confessa com você, e você não pode revelar. É claro que estamos admitindo aqui um padre kantiano, não um  mel-brooksiano. Entretanto, há complicadores sempre há!

 

Cena de “I Confess!”

 

O que é kantiano, afinal? Legitimamente kantiano? Vamos submeter à formulaziha? “Age de tal maneira que a vontade pela sua máxima se possa considerar a si mesma ao mesmo  tempo como legisladora universal.” Então tá. O que pode ser considerado lei universal? Nunca revele algo que lhe é confiado em segredo? Ou nunca deixe a mentira prevalecer? Ou, ainda, se estiver em seu poder evitar, nunca deixe um inocente pagar o pato. Ou, ainda mais, no caso do terapeuta, se estiver em seu poder, sempre  evite que um assassinato ocorra, ainda que seja preciso ferir o sigilo profissional.

 

No caso do padre de I confess!, o inocente que estava pagando o pato era ele mesmo. É o caso extremo, que testa os limites de um kantiano. Se obedeço o imperativo “não revelar um segredo  nunca”, prejudico a mim mesmo. Na vida real, todos sabemos, ninguém faria isso. E seria moralmente condenável? Vimos que não, mesmo pelo prisma absoluto kantiano, pois sempre se pode montar a formulazinha de mais de uma maneira. Afinal, punir inocentes não pode se transformar em lei universal tanto quanto não revelar segredo.

 

Esse é o grande defeito da moral kantiana. Note que não há como fugir das palavras “nunca” ou  “sempre”, se o ponto de partida é um imperativo categórico de pretensão universal. E é o mesmo problema enfrentado pela teoria bioética chamada principialista, de Beauchamp & Childress, de onde tirei o caso do terapeuta. Embora os quatro princípios (respeito pela autonomia, não maleficência, beneficência e justiça) sejam intuitivos e fáceis de aplicar em argumentações bioéticas, sua fundamentação é desnecessariamente exigente. O ponto de partida dos autores é uma suposta “moral comum”, uma espécie de matéria-prima ética compartilhada por todos os povos de todos os tempos, imune à ação das  circunstâncias.

 

 

Logo se nota a enorme semelhança entre tal proposta e a Ética kantiana. Inclusive, qual é um  dos exemplos de moral universalmente compartilhada pelos autores? Dizer a verdade. Já citamos aqui a disputa entre Benjamin Constant e Kant justamente sobre esse item bastante problemático. E Beauchamp & Childress incorrem no mesmo erro. Não há nada mais fácil de destruir do que a pretensa virtuosidade de “dizer a verdade”. Há um  zilhão de exemplos em que fazer o oposto é moralmente muito mais correto. Mesmo na Bioética. Os  próprios Beauchamp & Childress fornecem uma boa ilustração, no capítulo que trata do princípio  de respeito à autonomia. Uma das práticas que tornam esse princípio pleno é justamente dizer a  verdade, ou seja, informar ao paciente (ou sujeito de pesquisa), em linguagem que ele entenda, tudo, absolutamente tudo o que está por vir, para que ele possa tomar uma decisão consciente.  Ora, pois há alguns índios norte-americanos para quem a palavra tem um efeito tão forte que pode, ela própria, ser causadora de mal. Ou seja, informar demais causa- rá mais mal do que bem.

 

O problema aqui não é tanto que os princípios se choquem (autonomia versus não maleficência), até porque isso vive acontecendo,  mesmo em situações banais do dia a dia de profissionais da saúde. E os próprios autores reconhecem que seus princípios têm natureza prima facie (um princípio prevalece até que um outro o  sobrepuje, algo, diga- -se, nem sempre fácil de determinar). O problema é que, para chegar nos princípios, os autores sentiram necessidade de elaborar uma intrincada teoria de moralidade comum, que bebe em fontes muito bonitinhas, mas ordinárias – a Ética kantiana e, pior ainda, a Ética das virtudes (a mais equivocada de todas as teorias éticas). Com isso abriram um flanco para críticas contundentes à sua abordagem, sem necessidade. Poderiam ter construído sua Ética principialista sem recorrer ao artifício da moralidade comum.

 

 

*Flavio Paranhos é médico (UFGO), doutor (UFMG) e research fellow (HARVARD) em oftalmologia. Mestre (UFGO) e visiting fellow (TUFTS) em Filosofia. Professor da PUC-GOIÁS. coordenador da coleção de Filosofia & Cinema da Nankin Editorial.

Adaptado do texto “Sigilo Relativo” | Fotos: Revista Filosofia Ciência & Vida Ed.84