A comunicação e o inapreensível

Nem sempre a comunicação por palavras é suficiente. Entenda a reflexão com base nos pensamentos de Nietzsche

Comunicação

E se amanhã o medo, do autor angolano Ondjaki, é uma obra de contos, há um conto desta obra chamado “Coração de Porco”.

O enredo deste conto se inicia com a entrada de uma moça em uma loja na qual é atendida por um vendedor idoso que, sem a conhecer e saber qual idioma ela fala, a recepciona em algumas línguas para iniciar seu atendimento e verificar qual é o motivo de sua vinda até à loja.

Esse atendimento passa por algumas línguas como russo, castelhano, suaíli e inglês, quando por fim, ele opta por dialogar em latim com a moça e finalmente passa a ser compreendido.

Após o início do diálogo no qual, meio da língua latina, conversou com a cliente sobre obras do autor grego Nikos Kazantzakis, o idoso vendedor perguntou à moça o que ela desejava adquirir em sua loja e obteve por resposta que precisava de um novo coração.

Questionada sobre o motivo da troca, verificamos que este é o momento do conto no qual a língua não se basta, conforme podemos perceber pelo trecho:

– Para dizer a verdade… – tocou-lhe no ombro – para lhe explicar isso, teríamos que divagar por conceitos filosóficos inacessíveis ao latim de ambos. Digamos que a solidão mudou-me a cor do coração. (ONDJAKI, 2010, p.35)

Como pudemos verificar no trecho acima, a comunicação por meio das palavras acontece de maneira nem sempre óbvia e objetiva, pois há momentos nos quais as palavras não conseguem apreender o real conforme podemos verificar na situação acima descrita: há assuntos e sensações que, embora sejam reais porque são sentidas, são inapreensíveis por meio da língua.

Ao encontro do que se passa no trecho acima, o filósofo Friedrich Nietzsche afirma que “(…) Dispostas lado a lado, as diferentes línguas mostram que, nas palavras, o que conta nunca é a verdade, jamais uma expressão adequada: pois, do contrário, não haveria tantas línguas. (…)” (NIETZSCHE, 2007, p.30).

Pudemos perceber, conforme exemplificado no conto “Coração de Porco” e na citação do filósofo alemão, que as línguas existem em grande número e variedade, mas quando seu interlocutor não consegue compreender o que é dito de nada adianta a comunicação, mas é interessante notar que mesmo quando a comunicação ocorre, no caso do conto, é por meio da língua latina, uma língua considerada morta, que os personagens se compreendem.

Em contraponto, apesar de ambos os personagens dialogarem na mesma língua, mesmo quando os indivíduos estão em uma situação de comunicação favorável ao entendimento, há momentos nos quais o que precisa ser dito extrapola o limite que a palavra possui e a transmissão da mensagem se torna inapreensível por meio da linguagem. De acordo com Nietzsche:

(…) Seccionamos as coisas de acordo com gêneros, designamos a árvore como feminina e o vegetal como masculino: mas que transposições arbitrárias! Quão longe voamos para além do cânone da certeza! (…) (NIETZSCHE, 2007, p.30)

Assim sendo, as palavras são arbitrárias e, de acordo com o trecho acima, são consideradas verdade absoluta pelas pessoas que as utilizam, mas não passam de meras metáforas consideradas por Nietzsche como um “estímulo subjetivo” (NIETZSCHE, 2007, p.30). Veja:

(…) Acreditamos saber algo acerca das próprias coisas, quando falamos de árvores, cores, neve e flores, mas, com isso, nada possuímos senão metáforas das coisas, que não correspondem, em absoluto, às essencialidades originais. (…) (NIETZSCHE, 2007, p.33-4)

Podemos dizer que a língua possui um aspecto que pode ser chamado de inapreensível porque as palavras apreendem uma ideia que se tem o real, mas isso não ocorre com as “essencialidades originais” (p.33-4).

É possível verificarmos este fato quando nos atentamos para as nomenclaturas e alusões ao vocábulo coração no excerto abaixo:

Quando retornou das abstinências do hipnotismo encontrava-se já à mesa, tonta mas com uma sensação de aconchego no peito. Era, no fundo, o que trazia todas as pessoas àquele local: a magia de renovar o órgão primeiro, o bombeador de sensações, a casa mais íntima de um ser humano. (ONDJAKI, 2010, p.36)

Este trecho contém muitas palavras que o tornam uma poética e cativante ideia de como foi o momento descrito no conto, pois essa sensação de aconchego no peito fica difícil de ser explicada tanto quanto os motivos pelos quais a moça quis trocar seu coração.

Adaptado de Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 131

Por Gabriela Raizaro Tosi | Foto Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca