Compreensão

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Alceu Amoroso Lima e Carlos Drummond de Andrade foram amigos uma vida inteira. Escreviam cartas desde muito cedo. Alceu era católico, profundo e em dia com a fé; Carlos era ateu, profundo e em dia com a fé no ateísmo. No início dos anos 1930, as cartas alcançam um dos ápices de intensidade e ideias. Depois de uma vida na qual ambos passaram por muitas questões difíceis, as cartas tomam um tom afetuoso de amigos que reconhecem a dureza da jornada em um país que sentiu as agruras das décadas do século passado. Uma longa conversação entre amigos que discordavam de temas essenciais. Tudo contado na obra Drummond & Alceu, de Leandro Garcia Rodrigues, lançamento da UFMG.

 

A compreensão pode requerer elementos como afetividade, alteridade, conhecimento, conforme o ambiente, os eventos em andamento, outros aspectos. A diferença entre saber quando usar de compreensão e quando utilizar outros caminhos pode ser significativa.

 

Orar para que a avozinha de 96 anos, seriamente enferma e ao final de suas forças, viva mais muitos anos, enquanto os caminhos, a pontuação da jornada, o que vai na alma dela é uma súplica pelo descanso, pelo partir. Aprisionar por meio de sedução, chantagens afetivas, ressalvas uma filha na empresa familiar, enquanto tudo na moça assinala um caminho distante, uma jornada existencial distinta. Retornando a Drummond, é provável que entendesse, em algumas ocasiões de sua vida, como isso transcorria:

“Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.”

“Com qual óptica enxergamos as coisas? As portas de nossa percepção não se abrem o tempo todo. Noto que alguns elementos, mesmo que estrondosos, passam despercebidos por nossos olhos-de-correria-do-dia-a-dia”. Recentemente descobri, em frente ao meu condomínio, uma imponente bromélia de cerca de 1,5 m de largura.

 

Dá para acreditar que em dois anos eu nunca soube da existência dela?” – escreveu Daniela Espinelli, editora-chefe da revista Jardins, Editora Escala, no editorial da edição número 100.

 

“Os jardins são assim. Em um relance, vemos um grande maciço em dégradé verde, por vezes pontuado de cores. Já na apreciação mais cuidadosa, conseguimos definir bem os detalhes, compartimentar as espécies e entender os diferentes níveis de vegetação criados pelos profissionais. Os protagonistas ficam evidentes, assim como os coadjuvantes e até os figurantes – e todos compõem um fabuloso conjunto” – acrescentou Daniela. Eis uma das explicações para o fenômeno da compreensão: indexação, objeto, referência, interseção. Quem compreende o que e de onde, o modo. Os vetores em andamento.

 

Certa ocasião, um militar me disse no consultório que em sua residência ninguém o respeitava como faziam no quartel. Ele trazia diversas queixas sobre o assunto e não compreendia como conseguia dar ordens a dezenas de homens e não “era obedecido” por sua esposa, pelos filhos. Imagina você que o modo como compreende a família, o trabalho, a vida sirva também para todas as outras coisas?

 

Philip Roth costuma radiografar sua época, sua sociedade, em seus livros. Tratando do assunto, escreveu: “estaremos todos tão malpreparados para conseguirmos ver as ações íntimas e os objetivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o fato de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos”.

 

Nossos protocolos educacionais, nossas convenções de linguagem, nossa organização social seriam modos de interseção, aproximação, que nos mostrariam uma compreensão parcial das coisas em alguns segmentos? Talvez, sim. Mas, sendo assim, e se for assim, podemos chamar a compreensão de compreensão?!

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 109

Adaptado do texto “Compreensão”

*Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC, de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br