Como votam os professores do estado?

Por Arthur Meucci* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Enquanto me preparava para a qualificação da minha tese, procurei um notório doutor em Pedagogia que admiro para compor a banca. Ele me recebeu em sua sala animado, se disse interessado em minha tese, mas no meio da conversa ele me colocou uma questão. Disse: “Seu trabalho me parece muito interessante e ousado. Mas eu só vou me convencer da qualidade [da tese] se você me explicar por que muitos professores da educação básica votam na direita. Por que eles apoiam governos que os prejudicam? Como podem ser tão ignorantes?”.

 

Apesar de respeitar sua posição política, a forma pejorativa e preconceituosa com que colocou a questão dos professores me irritou. Respondi curto e grosso: “Sua pergunta revela o fracasso da maioria da esquerda em entender os problemas sociais e a incapacidade acadêmica em resolver os problemas da Educação”.

 

A educação pública marginalizada

 

A pergunta em si não me surpreendeu, pois já a escutei de outros professores universitários e sindicalistas. Eles têm fundamentos para questionar a orientação política dos professores baseados nos estudos sociológicos e econômicos de Pierre Bourdieu (1979) e Erik Wright (1997), em que os autores mostram que os detentores de capital cultural tendem seu voto à esquerda e os detentores de capital econômico tendem o seu voto à direita. Quando ocorre uma disparidade entre esses dois capitais, um alto capital cultural e um baixo capital econômico, como é o caso dos professores, o voto se inclina totalmente para a esquerda. Já no caso inverso, em que o capital cultural é inferior ao capital econômico, os votos se inclinam totalmente para a direita, a exemplo dos taxistas e militares. Esse fenômeno ocorre em todas as sociedades ocidentais, inclusive no Brasil. Porém, o que explica muitos professores da educação básica estarem na contramão das tendências sociológicas?

 

Nestes 15 anos de governo petista não houve melhoras significativas no ensino básico, muito menos nas condições de trabalho dos professores. As escolas continuam ruins, sem infraestrutura e internet. Os alunos continuam passando de série com problemas de alfabetização, pois o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa se mostrou tão ruim quanto a Progressão Continuada promovida pelo Governo de São Paulo. A violência contra os professores tem aumentado e o poder aquisitivo continua sendo corroído pela inflação, sem reajustes, como nos governos anteriores. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, os professores da educação básica não conseguem pagar aluguel ou comprar a casa própria com o salário integral de 40 horas. Ninguém aprova um piso nacional decente ou propõe um plano de carreira. Historicamente, os professores foram importantes militantes do Partido dos Trabalhadores, mas atualmente eles se consideram traídos por seus representantes.

 

O Governo Federal se defende dizendo que revolucionou o ensino criando 18 universidades federais, o ProUni, ampliando o Fies, estabelecendo cotas sociais e raciais para o ingresso nas universidades, as mudanças no Enem, o Ciência sem Fronteiras e inúmeros outros projetos importantes. Foi um dos melhores ministérios da Educação da História, se igualando ao período comandado por Gustavo Capanema (entre 1934 e 1945).

 

Valores éticos em crise

 

Concordo que houve uma excelente gestão do MEC, mas a pergunta a se fazer é: o Brasil precisava de uma revolução no ensino superior? Quando o Indicador de Alfabetismo Funcional mostra que 38% dos alunos que ingressam na faculdade não sabem ler e escrever plenamente, fica evidente a falha deste projeto governamental. Do que adianta oferecer universidades para analfabetos funcionais? O problema da Educação brasileira está na base.

 

Atualmente, esses professores encontram no discurso da direita uma perspectiva de melhora nas condições de trabalho. Há muitos menores violentos que são obrigados a ir para a escola e ter um bom desempenho para os seus pais poderem solicitar o Bolsa Família. Essa situação gera conflitos com os professores e invariavelmente acaba em violência. Nem o governo nem a justiça resolvem o problema dos menores infratores ou da integridade dos educadores. A proposta de redução da maioridade penal, defendida pela direita, se tornou um discurso “messiânico” de paz nas escolas.

 

A educação como objeto da Filosofia

 

Os professores sabem que uma política econômica austera contra a inflação, defendida pela oposição ao governo, acarretará em desemprego e crise. Porém, o controle da inflação ou até mesmo a deflação pode minimizar sua perda do poder aquisitivo. E os sindicatos? Estes só aparecem para mobilizar greves que não dão resultados e para pedir voto para políticos que defendem seus interesses (os dos sindicatos, é claro).

 

Acredito ter listado razões suficientes para explicar a mudança política de muitos professores da educação básica. Os professores do ensino superior têm dificuldades em entender esse fenômeno porque gozam de melhorias no rendimento e nas condições de trabalho, mas de uma perspectiva macrossocial da Educação, seus ganhos são irrelevantes. A esquerda perdeu a confiança de uma de suas bases mais importantes.

 

 

*Arthur Meucci é mestre em Filosofia pela USP, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pelo Mackenzie. Membro da Associação Filosófica Scientiae Studia. Professor, psicanalista e editor da revista Espaço Ética: Educação, gestão e consumo. www.meucci.com.br

Adaptado do texto “Como votam os professores da educação básica?”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 106