Como se origina a inteligência e a vida

Por que aparelhos e programas informacionais iriam querer refletir sobre sua própria existência, seu próprio vir-a-ser-no-mundo, como diria Heidegger, sem uma mente humana para programá-los e oferecer-lhes um problema ou desafio?

Por Alexandre Quaresma* | Fotos: Shutetrstock | Adaptação web Caroline Svitras


As Inteligências Artificiais (IAs) são “entes maquínicos informático-computacionais (softwares), animados por algoritmos evolucionários e redes neurais complexas, que operam em ambientes digitais (hardwares) de extrema potência e que podem, dentre outras façanhas cibernéticas, emular situações bastante semelhantes às do próprio pensamento humano, instaurando um novo tipo de inteligência singular. Vale frisar que algumas destas criaturas algorítmicas e informacionais emergem do próprio sistema, devido – segundo o que consta da literatura – à complexidade deste, e atuam de maneira muito parecida conosco no que tange apreender os próprios erros e acertos e, admiravelmente, evoluir.

 

Trata-se de uma emergência neoparadigmática que pode modificar a face do mundo em que vivemos”. Michio Kaku escreve o seguinte sobre a natureza sistêmica das IAs que se encontram em constituição nestes experimentos da Tecnociência de fronteira: “A maioria das pessoas que trabalham com IA e com redes neurais acredita que a consciência é um fenômeno emergente. Isso quer dizer que pode ocorrer naturalmente quando um sistema se torna complexo o bastante. Em outras palavras, [quando] o todo já não é mais apenas a soma das partes”. Se isso for verdade, não há por que negarmos a possibilidade – mesmo que remota – do surgimento de uma espécie nova de consciência inteligente em meio maquínico hipercomplexo. Kaku é convergente conosco quando escreve que “esses níveis de consciência [artificiais] provavelmente se desenvolverão de maneira muito semelhante àquela como a evolução produziu seres conscientes na Terra ao longo de bilhões de anos.

 

Pensando o Existencialismo

 

Embora haja grandes lacunas no reino animal, talvez exista um contínuo grosseiro de consciência, começando com meros organismos unicelulares que mais tarde se transformaram em outros crescentemente mais complexos, inclusive seres humanos. Como os seres humanos evoluíram a partir de formas menos complexas, parece razoável concluir que há muitos níveis de consciência”. Notemos que hoje já é possível, para um programa de computador – e isso é importante frisar –, conduzir um procedimento continuamente repetitivo que comece com uma questão simples, por exemplo “quem sou eu?”, para em seguida efetuar experimentos lógicos que tentam responder à essa pergunta, avaliar os resultados e até formular novas questões. Isso não significa dizer que encontrarão as respostas certas, já que nem mesmo os filósofos mais brilhantes souberam responder a essa simples indagação.

 

Seus criadores e fomentadores, os engenheiros da IA, em determinados momentos de pura perplexidade, afirmam: “Estamos escrevendo coisas que não conseguimos mais ler!” Essa afirmação tem um impacto fulminante em termos de lógica e também de prática para um matemático ou designer de IA, pois a lógica clássica associada à tecnologia binária de processamento de dados – pelo menos em tese – deveria ser capaz de compreender sua própria dinâmica lógica de validação operacional, ou seja, ser capaz de identificar os detalhes mais ínfimos das operações algorítmicas realizadas por seus próprios algoritmos e sistemas, o que nem sempre acontece.

 

 

Com a atenção voltada à questão da produtividade de sistemas que aprendem com os erros e com a própria experiência pregressa, Marvin Minsky pondera que, operacionalmente, “se um sistema aprende novas regras de uma maneira demasiado imprudente [e o autor em momento nenhum explica o que seria ou não uma maneira demasiado imprudente], é provável que acumule demasiada informação irrelevante, e isso deteriorará o seu rendimento”. Lucien Sfez contribui significativamente com nossas reflexões acerca da lógica recursiva da emergência quando assinala que “a biologia começou por cima, vendo o organismo vivo como uma máquina bioquímica complexa e trabalhando de cima para baixo de forma analítica (órgãos, tecidos, células, membranas e, finalmente, moléculas). A vida artificial começa de baixo, vendo um organismo como uma vasta população de simples máquinas e trabalhando de baixo para cima de forma sintética, construindo pouco a pouco agregados de objetos governados por regras. A Biologia vai de cima para baixo. A vida artificial vai de baixo para cima, favorecendo o conceito de comportamento emergente. Este comportamento é bottom-up [fórmula intraduzível criada por Christopher Langton], sendo caracterizado por distribuições locais de comportamento”. Noutras palavras, os engenheiros que trabalham com esses sistemas técnicos complexos esperam que surja do sistema – e de fato tem surgido – uma série de emergências e singularidades interessantíssimas de se estudar, principalmente quando os sistemas alcançam – como já foi mencionado – graus elevados de complexidade. O que move esses cientistas e engenheiros de IA – certamente uma Ciência de fronteira –, como nos explica Sfez, é a crença de que “o artificial imita o real no seu comportamento, sem que exista identidade dos sistemas internos (o sistema imitado e o sistema imitador). ‘Essa semelhança é realizável se os aspectos que nos interessam vierem da organização das partes de forma quase independente das poucas propriedades dos componentes individuais’. Se o agregado das partes artificiais for organizado de modo correto, ele revelará o mesmo comportamento dinâmico que o sistema natural […] A emergência virá da interação do conjunto”.

Assim, tratar-se-ia apenas de criar protocolos, rotinas e procedimentos informacionais cada vez mais complexos e sofisticados, diluindo e distribuindo no próprio sistema as tarefas de comando e organização, criando as condições ideais para que a inteligência possa emergir por si: “Ele [Christopher Langton] diz-nos expressamente que se trata de gerar comportamentos. Ele quer seguir a diligência de [John von] Neumann e passar da análise dos mecanismos da vida aos da lógica da vida. Ele pretende servir-se de cálculos de feedback artificiais, operados por [Norbert] Wiener, para descobrir a natureza dos mecanismos similares que operam nos organismos vivos”. A auto-organização, autorreprodução e a autorregulação sistêmicas, conhecidas também como autopoiese, estão no topo da lista de prioridades evolutivas destas novas criaturas cibernéticas reunidas em grandes agregados informacionais complexos. Grosso modo, é como dizer que reunindo e agregando estes procedimentos em sistemas lógicos – de maneira que façam sentido algoritmicamente –, ou seja, em múltiplos procedimentos e comportamentos rudimentares de feedback, uns após os outros, representando as rotinas e os padrões, inumeráveis vezes, e interligando-os da maneira apropriada – seria possível emular a vida, ou, melhor dizendo, deixar que ela emerja – como os autores citados preconizam – naturalmente. Robert Pepperell nos informa que, num sistema massivamente paralelo de computação superdesenvolvida, “o funcionamento interno de milhões de processadores de cálculo com capacidade de se referenciarem uns aos outros em velocidades próximas da velocidade da luz vai criar um sistema de tal complexidade e rapidez que um comportamento interessante global pode emergir”. Mas, como seria de se esperar, tais questões controversas parecem ainda estar longe de encontrar repouso, como consta também em Sfez: “O próprio [Steen] Rasmussen, um dos mais empenhados nesta via [do desenvolvimento das IAs], conclui o […] artigo [Aspects of information Life, Reality and Physics] de forma assaz curiosa: ‘Não tenho a certeza de acreditar nisso; qualquer coisa me diz instintivamente que aquilo que emerge é de outra natureza e não pode estar realmente vivo”.

 

O futuro incerto

Diante deste panorama, seria impreciso, errôneo e até mesmo precário querer acreditar que nunca, em hipótese alguma, sob quaisquer condições, teremos máquinas e sistemas complexos inteligentes e vivos, pois, como aprendemos na teoria da complexidade, não há limites fixos para os graus que a complexidade pode alcançar. Talvez, progressivamente, como se nada ou quase nada de importante estivesse em jogo, sejamos capazes de reunir coerentemente um número significativo de qualidades complexas em meio informático-computacional, um sem-fim de comportamentos e protocolos intercomunicantes, de modo a replicarmos essa fascinante faculdade que é a consciência humana em estado experiencial de alerta.

 

 

Se e quando conseguirmos produzir vida e inteligência artificiais, de modo a satisfazer até mesmo os críticos mais severos, talvez estejamos dando um passo irreversível rumo a um futuro onde o velho e milenar humano tenha que conviver lado a lado com criaturas cibernético-informacionais de sua própria criação, que, de algum modo ainda difuso, poderiam representar o próximo capítulo da evolução da própria complexidade e inteligência vivas na Terra. Engendrar vida e inteligência, propiciar a emergência de seres e entidades maquínico-informacionais, criar o vivo a partir do não vivo podem ser os primeiros e inelutáveis passos rumo à origem dessas novas formas de inteligência e vida. Além disso, se a complexidade, como vimos no decorrer deste artigo, constitui-se estruturalmente através de outras complexidades menos complexas que ela mesma, e se não existem limites teóricos para os níveis que sistemas complexos podem alcançar, principalmente quando organizados de maneira lógica, em agregados hipercomplexos, não há motivos para crermos que sejamos nós, humanos, a joia máxima da complexificação biológica de inteligência e vida na Terra. Hans Moravec confirma tal ideia quando afirma que “nada indica que a equivalência humana representa uma espécie de limite máximo”. Ao contrário, ao criarmos hipoteticamente inteligências e seres mais complexos do que nós, sejam eles considerados artificiais ou não, talvez não estejamos fazendo nada mais do que dar continuidade a esta extraordinária aventura da vida e da inteligência no planeta Terra, com sua misteriosa organização holonômica e fractal, que se inicia com os primeiros e mais rudimentares seres e culmina, agora – por que não –, com a emergência das IAs. Nossos filhos e netos talvez se lembrem de nós como aqueles que sagazmente foram os primeiros capazes de criar vida a partir da não vida, o que seria até louvável, em termos de consumação de uma façanha tecnicista, mas, de igual forma, poderíamos estar inaugurando um novo tempo de declínio do âmbito biológico, onde o milenar e velho corpo humano – incompleto, cansado e obsoleto, como gostam de dizer os entusiastas da tecnicização – estaria com seus dias de organicidade biológica contados, restando-lhe, a longo prazo, um discreto lugar na história evolutiva das espécies como antepassado criador dessas novas formas de vida. Se assim for, estaremos virando uma página importante da história evolutiva e tomando nas mãos o rumo da própria evolução estrutural da inteligência e da vida. Se isso vai ser benéfico ou nefasto para a civilização humana e para o próprio planeta que nos abriga, só o tempo poderá nos dizer. Enquanto isso, estejamos vigilantes quanto aos sistemas (informacionais) complexos e também quanto ao intrigante fenômeno da emergência (de vida e inteligência), pois estas parecem trazer as insígnias de um novo tempo que se consolida neste mundo em grande medida inaugurador que se apresenta diante de nós. Se ele será admirável ou não, cabe a nós, que o criamos, por fim, responder.

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 101

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia. É membro da Renanosoma vinculado à FDB e faz parte do Conselho Editorial de Ciência e Sociedade da Revista internacional de Ciencia y sociedad, do Common Ground Publishing. a-quaresma@hotmail.com

Adaptado do texto “Como se origina a inteligência e a vida”