Como funciona o ato da autodescoberta?

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Certa ocasião, Fernando Pessoa tomou a decisão de ser ele, apenas ele. Sua busca anunciava os caminhos: “Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser.

 

Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou. Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste. O último rasto de influência dos outros no meu caráter cessou com isto”. Mas Fernando Pessoa mudou de ideia muitas vezes, para lados que faziam que duvidasse e então questionasse escolhas como aquela.

 

Uma dificuldade para quem serena e empertiga a face sobre si mesmo em busca de se conhecer é a pluralidade dos “eus”, estes muitos que nos habitam e conflitam a arbitrariedade de um deles que se afirmou por todos. Virginia Woolf escreveu: “Esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa, têm outros vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios – chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer têm nome) – de modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados verdes, outro se Mrs. Jones não estiver presente… “.

 

Alguns pensadores buscaram pela alma, pela face, pela identidade, esbarraram em coisas que não reconheceram como parte deles, afirmaram outras faces improváveis de definição, muitos escreveram fenomenologias que no papel se mudaram em estruturalismo. Clarice Lispector indagava onde estaria ela? E quem respondia a quem perguntava: “… era uma estranha que me dizia fria e categoricamente: tu és tu mesma. Aos poucos, à medida que deixei de me procurar fiquei distraída e sem intenção alguma. Eu sou hábil em formar teoria. Eu, que empiricamente vivo. Eu dialogo comigo mesma: exponho e me pergunto sobre o que foi exposto, eu exponho e contesto, faço perguntas a uma audiência invisível e esta me anima com as respostas a prosseguir. Quando eu me olho de fora para dentro eu sou uma casca de árvore e não a árvore”.

 

A epopeia do autoconhecimento pode iniciar pelos motivos que a ele conduzem, chamam, justificam. A jornada pode revelar-se outra, pois não é raro que a explicação que aqui cativa também deforma. Um ponto agudo que remete a Edgar Morin: “Todo o conhecimento supõe ao mesmo tempo separação e comunicação. Assim, as possibilidades e os limites do conhecimento relevam do mesmo princípio: o que permite o nosso conhecimento limita o nosso conhecimento, e o que limita o nosso conhecimento permite o nosso conhecimento.

 

O conhecimento do conhecimento permite reconhecer as origens da incerteza do conhecimento e os limites da lógica dedutiva-identitária. O aparecimento de contradições e de antinomias num desenvolvimento racional assinala-nos os estratos profundos do real”.

 

Mas o autoconhecimento, uma opinião em si, para si, clama rapidamente por outros cantos quando o autor entoa suas distrações. Em Memória de minhas putas tristes, Gabriel García Márquez pontua o discurso na voz de um homem de 90 anos: “Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio”.

 

No consultório, uma ocasião houve na qual ouvi uma senhora afirmar que somente se aceitava e convivia bem com o mundo porque não tinha a menor ideia de quem ela era na realidade. Mas se não tinha ideia de quem era, como podia afirmar que era por tal fato que se aceitava?

 

Vergílio Ferreira demonstrava sua dúvida sobre o assunto: “Nós somos o artifício de nós. Mas é aí que construímos a legitimação de se existir. Somos duplos do que somos e por baixo da camada que nos torna plausíveis há uma outra realidade que revela o plausível em ficção. O que somos não é. O que somos é o que resta depois de tudo se dissipar”.

 

Depois de tudo se dissipar… Mas será que enquanto isso, enquanto somos farsa, distância, dúvida, arrogância, medo, tensão, não somos muito de nós mesmos? A fumaça que fazemos não é parte do pulmão e do ar em nosso peito? O que houve existencialmente que muitos acreditam que somente são aquilo que sobra depois que a mentira e a encenação partiram? Por que não são as mentiras tão nossas quanto nossas são as verdades? Nas mentiras a maioria parece possuir maior fluência. As mentiras vividas no cotidiano podem ser as verdades mais íntimas que uma pessoa procurou ser.

 

Em seus pensamentos, Pascal argumentou: “Não nos contentamos com a vida que temos em nós e no nosso próprio ser: queremos viver na ideia dos outros uma vida imaginária e para isso esforçamo-nos por manter as aparências. Trabalhamos incessantemente para embelezar e conservar o nosso ser imaginário, e descuramos o verdadeiro”.
Autoconhecimento, um dos sintomas de provável dubiedade em nossos dias.

 

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed.

Adaptado do texto “Ao encontro de si”

*Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC, de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br