Como foi viver na Grécia Antiga?

Como seria viver na Grécia há mais de dois mil anos? Embriagado pela realidade que se mistura a experiências oníricas, o indivíduo é incentivado a tomar consciência de si

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Antonio foi à Grécia em setembro, quando Atenas retomou suas feições, e a terra ilhada por arquipélagos suavizou após as arritmias do verão. Antonio estranhou seu táxi sem taxímetro, mas apreciou a sugestão de passar uma ensolarada tarde em Plaka. No dia seguinte, sua ideia era caminhar pela Acrópole, passar pelo anfiteatro Odeon, alcançar o Parthenon e inspirar-se com a face de Atenas, o porto Pireus, e, para os outros ângulos, os telhados avermelhados dos velhos bairros. E foi então que Antonio se perguntou como seria viver ali há mais de dois mil anos.

 
Antonio estava em meio a um funeral, mas não tinha certeza, pois havia dançarinos, um sátiro, e mais adiante músicos com cítaras, flautas de pã, e de algum lugar ecoavam tamborins marcando a dança. Os sons e as coreografias se mesclavam. Um solavanco, um tropeço, e era então Corinto. Alguém corria, vencia, mas ele não conseguia divisar entre os acontecimentos. Achava que estava dormindo. Alguém vencia a corrida. Era em Olímpia, Delfos, Corinto?

 

Uma coroa de folhas, de fitas, mais presentes eram levados ao vencedor: azeite e tecidos. Seu nome era anunciado, bem como o local de onde vinha, sua família. Algo se moveu e Antonio se deslocou rumo ao sexto século antes de Cristo. Ele imaginava assim porque ouviu pessoas conversando sobre o sentido da vida, a origem da vida. Por alguns dias Antonio acompanhou dois matemáticos e considerou formidável que eles estudassem a música e as relações entre matemática e música.

 
Desejando mudar imediatamente as coisas, pois pensava seriamente que algo grave estava acontecendo, Antonio passou a frequentar cerimônias: ofereceu sacrifícios em altares familiares. Logo explicaram a ele que ali perto, em Dodona, no Templo de Zeus, a fala divina se promovia pelo farfalhar das folhas dos inúmeros carvalhos sagrados. Cabia aos sacerdotes ouvir as árvores. Mas Antonio misturava seu devaneio com embriaguez, pois logo o tempo o atirou para o meio de uma assembleia ateniense, e, em seguida, para uma aula em uma escola espartana na qual o professor anunciava aos alunos que eles deveriam sempre ocultar o que sentiam.

 

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Antonio havia se perguntado: como viveria na Grécia antiga? Em seu sonho, mesmo a alimentação lhe mostrava como seriam os cotidianos. Ele experimentou o mel das montanhas e o queijo de cabra; lentilhas, maçãs e castanhas. Observou mulheres moendo grãos de trigo em tigelas de pedra; em um forno à lenha todo de barro aprendeu como assar o pão; admirou-se ao auxiliar no transporte do vinho, nas peles de cabra costuradas colocadas sobre mulas.
Antonio estava curioso com os gregos antigos. Queria aprender o quanto fosse possível sobre a vida em seu dia a dia. Soube que os corantes para pintar tecidos, objetos, vinham de Cartago e da Fenícia; descobriu como do junco era produzido o papiro, mas isso lhe disse um mercador que trazia o papiro do Egito; disse-lhe ainda que os bens importados eram quitados com as moedas de prata; nos mercados Antonio presenciou alguns dos mais acirrados embates sobre política.

 
Antonio trabalhou modelando potes, como oleiro. Depois passou uma jornada confeccionando mantos como tecelão. Mais tarde, tornou-se ferreiro. Seus dias eram trabalhosos ao lado de um forno de tijolos e argila, com o ferro derretendo e sendo moldado pelo calor gerado pelo carvão.

 
Com o trabalho, Antonio adquiriu roupas. Usava sandálias de couro que eram engraxadas com azeite de oliva. Macias, duráveis. A sola de cortiça era um alento nas longas caminhadas de Antonio. Após o usual banho em sua tina de barro, ele trajava sua túnica de linho, um sobretudo de lã drapeado. Porém, Antonio somente chegou a tais descobertas sobre trabalho, vestuário e alimentação após compreender que pertencia a uma família, que os criados e os escravos eram parte de sua família, que seu pai era o responsável por todos. Logo Antonio estava na escola, utilizava um ábaco para contar e fazia ginástica, declamava poemas.

 
Antonio começava a ter uma ideia muito próxima do que seria viver naqueles dias, quando se deparou com garatujas que pareciam indicar um mapa. O Mediterrâneo, o norte da África, os mares Egeu e Jônico, Os amigáveis citas, os temíveis persas, as colônias ao longo da Turquia ocidental. Tudo surgiu em redemoinho nas ideias do rapaz; ele percebia as mulheres que não podiam participar da vida pública, que viviam dentro de casa; constatou que era um “bárbaro”, conforme os gregos se referiam a qualquer estrangeiro ou incivilizado porque não falava o grego.

 

O orgulho, a democracia, a família, o trabalho, Antonio sentiu-se grego. Não era mais um sonho, ele esteve sempre dormindo enquanto imaginava ter estado acordado, isso até chegar à Grécia naquele setembro. Agora, desperto, lúcido, Antonio subiu em sua charrete, formoso em seus trajes, seu elmo, espada e escudo, disparou. Os cavalos alcançavam as estradas, cortavam as colinas, e uma voz firme, sonora, da sacerdotisa, chegava aos ouvidos de Antonio, o homem que em seu sonho acreditou ser um indivíduo do ano 2016. Antonio despertou e desperto agora compreendia claramente suas questões. A alma de Antonio deslizava pelos lados da charrete, esparramava pelas águas, enquanto ao longe um tema o aguardava. Mas não é sabido se Antonio o atingiu.

 

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e sistematizador da Filosofia Clínica no Brasil. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel.

luciopackter@uol.com.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 121