Como ensinar a filosofar

Não se ensina Filosofia, mas a filosofar"

Por Samir Thomaz* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Se o conceito de filosofia não é consenso nem entre os próprios filósofos, como podemos esperar que um ser humano que ainda está descobrindo o mundo possa apreender, por mais incipiente que seja, qualquer definição de algo que nem mesmo os adultos conseguem definir?

 

No entanto, e paradoxalmente, o próprio ato de descobrir o mundo, que é próprio dessa faixa etária, já é, ele próprio, eminentemente filosófico. O que é um filósofo senão aquele que vive em estado de admiração e espanto diante dos fenômenos da realidade? O que são a criança e o adolescente senão aqueles que vivem se espantando com as descobertas diárias? Essa proximidade de atitudes entre seres aparentemente tão distantes é o indicador do caminho mais seguro na abordagem da filosofia direcionada aos jovens.

 

Assim escreveu a educadora Maria Luiza Silveira Teles em seu livro Filosofia para crianças e adolescentes (Vozes, 1999):

Se nos lembrarmos que crianças, adolescentes e filósofos compartilham algumas disposições comuns, como a curiosidade, o espanto e o deslumbramento diante do mundo, então a coisa já não é tão extraordinária assim. A natureza das semelhanças e das diferenças, as comparações e analogias são interesses intelectuais comuns a eles. A atitude de busca e descoberta também.

 

 

A consciência desse fato constitui uma postura crucial para que não se queira fazer da criança e do adolescente um pequeno filósofo mais do que eles já o são. Sua “filosofia natural”, sua predisposição inata para a admiração e a curiosidade diante daquilo que vão assimilando em seu crescimento devem ser resguardadas, sob pena de tornar o frescor desse espanto artificial. É nessa medida que a frase do filósofo francês André Comte-Sponville (1952) faz um enorme sentido: “Não há idade para filosofar; porém os adolescentes, mais que os adultos, precisam ser acompanhados ao fazê-lo”.

 

Processo escolar

Um dos aspectos que tornam decisivas essa consciência e essa necessidade é a existência da diversidade sociocultural da criança e do adolescente, especialmente num país multicultural como o Brasil. A escola abriga tanto alunos que se originam de um ambiente elitista, que proporciona o contato com a cultura, a palavra escrita, a reflexão e o diálogo desde a mais tenra idade, quanto jovens oriundos de contextos totalmente avessos a qualquer estímulo ao pensamento. O momento de iniciação ao contato com a filosofia, portanto, adquire um caráter determinante de qual será a relação dessa criança e desse adolescente com essa disciplina no decorrer de sua vida escolar e, muitas vezes, no curso de sua vida. É o mesmo cuidado que se deve ter no primeiro contato do jovem com a literatura. Quantos jovens e adultos não sentem repulsa pela leitura por terem tido uma iniciação sem critérios e traumática com os livros?

 

A questão se torna um tanto mais grave se consideremos a concorrência da imagem, do som e das redes sociais em nossa sociedade completamente dominada pelos meios digitais. Entre ouvir as novas canções da sua banda preferida, assistir a uma nova série de TV, combinar no facebook a próxima balada com os amigos e ler um texto de Platão ou de Marx que a professora pediu para a próxima aula, o jovem, em grande parte dos casos, não hesitará em deixar a leitura por último. Não são raros os livros didáticos e paradidáticos que, logo na introdução, apresentam textos enigmáticos de filósofos que muitas vezes nem mesmo os professores conseguem decifrar. E estes, muitas vezes, em vez de fazerem a mediação entre o texto e o aluno, simplesmente lavam as mãos, afinal, o livro didático possui a aura de autoridade pedagógica e metodológica eficiente, o que nem sempre se constata.

 

O que significa educar?

 

Isto não quer dizer, no entanto, que se deva simplificar a abordagem filosófica para que o aluno a compreenda ou para que suas primeiras leituras nessa área sejam mais palatáveis. Este equívoco é tão grave quanto apresentar ao aluno um texto com uma reflexão inatingível pelo seu nível cognitivo e sociocultural. Ao ler os primeiros textos filosóficos, seja o texto original de um pensador ou o de um comentador, o aluno deve sentir, ainda que de forma sutil ou incipiente, a faísca de que há algo novo ali, uma espécie de estranhamento, um olhar diferente que se distancia daquilo que ele viu até então até mesmo nos textos literários.

 

Busca por respostas

Esse aluno não precisará ter consciência do seu natural espanto diante do mundo nem mesmo substituir esse espanto por outro que ele porventura aprenda nas aulas de filosofia. Essas tentativas de “compartimentalizar” as atitudes são em tudo avessas à reflexão filosófica, porque trazem a necessidade de dar um sentido cabal a todas as coisas e a todas as ações, quando a filosofia faz o movimento oposto, o de sempre problematizar ou questionar os fenômenos sem se preocupar em enfeixá-lo necessariamente em uma resposta definitiva.

 

É nesse sentido que apresentar desde o primeiro instante a nomenclatura filosófica – sobretudo aquela mais hermética – para seres que ainda mal compreendem os próprios sentimentos é outro erro que se deve evitar tanto nas primeiras aulas quanto na escrita de livros didáticos e paradidáticos de filosofia para crianças e adolescentes. É preciso respeitar o nível cognitivo dos jovens de acordo com as vivências de cada idade. Não se pode falar de livre-arbítrio entre o bem e o mal para crianças de 7 ou 8 anos, que ainda não têm maturidade nem malícia para compreenderem esses conceitos – ainda que inconscientemente possam praticar atos de bondade ou maldade em suas brincadeiras diárias –, mas, sim, numa linguagem adequada, mostrar o que é legal ou bacana e o que não é sem o tom repressor e absoluto da dicotomia entre bem e mal, deixando assim espaço para a relativização. Da mesma forma, não se pode apresentar o conceito de luta de classes para crianças que ainda não entendem o mundo do trabalho ou a definição de logos para adolescentes que estão muito ocupados em apreender, às vezes à custa de muito sofrimento, o mundo real que se lhes é apresentado diariamente.

A filosofia no Ensino Médio

 

Há, certamente, temas que são mais próximos da criança e do adolescente, e são estes que devem ser explorados nas primeiras abordagens. A amizade, a beleza, o amor, a felicidade, a proibição, o movimento, a permanência, as diferenças, a igualdade, a relação de causa e efeito, entre outros, são alguns assuntos que já fazem parte do dia a dia desses jovens e não há por que não partir deles para despertar nesses alunos o lampejo do olhar diferenciado que a filosofia tem diante do mundo.

 

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*Samir Thomaz é jornalista formado pela Faculdade Casper Líbero (SP) com especialização em Globalização e Cultura pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp). Autor de ficção e não ficção e editor. Produtor de conteúdos didáticos de Filosofia e Sociologia.

Adaptado do texto “Não se ensina Filosofia, mas a filosofar”