Como dar rumo ao Brasil?

Por Renato Janine* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

No último artigo, disse que o Brasil perdeu o rumo. Está dividido, de uma forma que não se via há meio século. Não concordamos nem mesmo sobre os fatos: tivemos agora um golpe ou um impeachment? Mas o que sugiro é que o fundo do poço talvez seja o melhor lugar para pensar num projeto novo para o Brasil.

 

Em 2013, interpretei as manifestações como sinal de que o Brasil tinha mudado. Afirmei que tínhamos cumprido – bem – três agendas democráticas sucessivas, uma a cada dez anos. Primeira, a democratização de 1985, com o PMDB. Segunda, a estabilização da moeda com o PSDB. Terceira, a inclusão social com o PT. Esta, incompleta, porque não é rápido acabar com cinco séculos de exclusão. Mas, em 2013, as ruas exigiram uma quarta agenda: a qualidade dos serviços públicos. Saúde, educação, transporte coletivo e segurança pública. Em suma, o Brasil tinha melhorado dentro de casa, na vida privada, com os iogurtes de FHC e as geladeiras de Lula, mas precisava resolver o espaço público, os serviços públicos, a coisa pública.

 

Depois, em vez de somarmos esforços para uma nova agenda, tudo piorou. A inclusão, a moeda, a democracia pioraram. Sem dinheiro, os serviços públicos dificilmente melhoram. Ganhos de gestão são necessários e possíveis, mas não resolvem nosso drama. O País entrou em depressão. Não falo de economia. Falo de nossa psique.

 

Precisamos de um novo projeto. Os discursos da campanha de 2014 podem nos inspirar. Dilma Rousseff falou em reforçar a inclusão social. Sem isso, o País continua injusto e continua desperdiçando suas potencialidades. Quando 57% das crianças não são alfabetizadas até os 8 anos, então mais de metade da população não realiza tudo o que pode. Jogamos talentos no lixo.

 

Aécio Neves falou em crescimento econômico. Sem isso, é impossível promover a inclusão. Mas não é qualquer crescimento. Marina falou na sustentabilidade, que é herdeira de seu velho tema, o ambientalismo. Sem o respeito ao meio ambiente, o crescimento só cria mais problemas. Isso precisa ficar claro. Embora seja fácil ter um consenso sobre a economia, onde precisamos mudar nossa cabeça é nos pontos que as duas candidatas mostraram: 1) que a grande meta do País tem que ser dar igualdade de oportunidades a todos, para sermos justos com cada um e para que o Brasil realize sua natureza, seu tamanho, sua história; 2) e que isso seja feito com um grande “Mariana nunca mais!”, porque a destruição que esta cidade sofreu, um ano atrás, nos ensinou a duras penas que o crescimento que descuida da natureza causa mais males do que bens.

 

Unir três propostas. Dialogar. Pensar no futuro. Propor mais do que acusar. Cooperar. Não nos preocuparmos tanto com os partidos ou os líderes que tivemos. Eles mostraram seus méritos, suas falhas também, mas nada vai melhorar no Brasil sem um projeto novo. Podemos nos separar quanto aos meios de executá-lo. Mas podemos pelo menos concordar que esses três pontos são necessários. Trocar ideias a respeito. Difundir boas práticas. Exigir isso dos gestores eleitos. Podemos entrar em uma nova fase da nossa História. Vai ser difícil. Ficaram feridas terríveis destes dois anos. Confesso: quando vi a lama de Mariana, pensei, era só o que faltava, e logo acrescentei, chegamos ao fundo do poço. Mas, do fundo do poço, dá para olhar para cima. Dá para ver o céu. Dá para buscarmos o céu. Dá trabalho, mas ele está lá.

 

 

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 123