Ciência e religião devem se misturar?

A falácia do falso meio-termo é, às vezes, utilizada para argumentar que pode haver um lugar para a Religião junto à Ciência, mas esse lugar jamais deverá estar disponível. Reflexões acerca do pensamento de Richard Dawkins e do filósofo Daniel Dennett

Por Samuel de Castro Bellini-Leite* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

É comum tentarmos escolher posições não extremistas e não radicais para qualquer tópico polêmico; elas tendem a unificar  o que há de melhor em vários pontos de vista. Entretanto, devemos ter cuidado com a falácia do falso meio-termo (argumentum ad  temperantiam). Muitas pessoas acreditam ser uma postura radical e, portanto equivocada, se  posicionar a favor da Ciência e buscar eliminar a Religião, ou vice-versa. Ambas são vistas como posições extremistas. Apesar disso, a falácia nos lembra que, do simples fato de ser radical, de adotar um extremo e eliminar o outro, não podemos concluir nada. Por exemplo, em épocas em que a  escravidão era mais frequente, existiam grupos se posicionando completamente a favor e outros  inteiramente contra à ideia. Uma pessoa que se pauta na falácia do falso meio-termo teria dito  que algo como um servo, ou um escravo com mais direitos humanos, seria a melhor opção a se manter. A visão radical nem sempre está equivocada, às vezes ela pode ser o melhor caminho a ser traçado.

 

Algumas pessoas apontam que Religião e Ciência falam de objetos diferentes e, portanto, não têm relação alguma. Isso é falso. Religiões proliferam opiniões sobre a origem do universo, a origem do nosso planeta, a origem do homem, a origem da bondade, quem é o homem, o que é a mente humana e a nossa saúde. Essas mesmas questões são abordadas pela Ciência: Física, Biologia, Primatologia Comparativa, Psicologia, Medicina, Neurociência, entre outras áreas.

 

Tendo isso em mente, podemos perguntar: é possível haver colaboração da Ciência e da Religião para uma compreensão de mundo mais completa? Vamos investigar. A primeira pergunta que temos que responder antes de mais nada é a seguinte: por que devemos confiar na Ciência ou na Religião?

 

 

 

A Ciência é um método de investigação dos fenômenos utilizados por pesquisadores de todas as universidades do mundo. Ela tem como base a busca pelo conhecimento, para que com esse conhecimento se possa construir tecnologias, promover saúde, educação e gerar novidades de interesse para a sociedade. Sua metodologia é baseada na investigação empírica; isso significa que o mundo deve nos mostrar como ele verdadeiramente é. Por exemplo, para saber se uma bactéria é resistente a um antibiótico, não podem apenas teorizar que sim, por ter tido muito contato com o antibiótico. Os cientistas precisam fazer testes para verificar se, de fato, a bactéria é resistente a certo antibiótico. Essa busca por verificação empírica é a base do sucesso da Ciência. No fim, a Ciência é confiável porque podemos mostrar publicamente que ela funciona. Baseados nela, criamos a Medicina atual, carros, aviões, foguetes, computadores, métodos educativos, terapias psicológicas. Seu sucesso é evidente.

 

A Ciência é revisionista, suas teorias mudam de acordo com o surgimento de novas evidências. A Ciência nem sempre  consegue mostrar qual teoria é verdadeira, mas ela tem um dom claro: é eficaz para falsear teorias. Para falsear uma teoria, é preciso apenas mostrar que suas teses não representam bem o mundo, o que é muito mais fácil do que construir uma teoria que realmente represente bem o mundo.

 

A Ciência tem, porém, ao menos um problema. Todo o esforço empírico que os cientistas nos trazem não é o bastante para formar uma visão de mundo completa. É preciso afirmar mais do que as pesquisas mostram, até mesmo para pensarem sobre o que pesquisar e como pesquisar no futuro. A Ciência nos mostra evidências, mas não precisamos de evidências isoladas, e sim de teorias que unifiquem essas evidências formando uma visão de mundo. Essas teorias não são formadas com evidências apenas, temos que ter alguma ideia, conceituar, julgar, interpretar, unificar, para assim formarmos teorias. esse ponto, a Ciência não é tão segura e pode precisar de ajuda.

 

A reintrodução de Deus na filosofia de Kant

 

Se há pelo menos um ponto em que a Ciência não é segura e pode precisar de ajuda, qual outro método poderia ajudar? Temos, de uma forma resumida, basicamente três candidatos: o senso comum, a Religião e a Filosofia. O senso comum pode trazer alguns conhecimentos e intuições que ser-  vem de inspiração para os cientistas, em virtude de carregarem resultados de investigações de várias gerações sobre o mundo.  Esse também serve para nos auxiliar na maior parte de nossas decisões cotidianas que são baseadas em casos em que a Ciência  não investigou ou pouco investigou. A Ciência pode nos ajudar a criar nossos filhos, mas, por enquanto, não há evidências suficientes sobre Educação e criação a ponto de podermos abandonar todas as estratégias do senso comum na Educação. Deixaremos a Filosofia para ser mencionada no fim. Vamos partir agora para a Religião.

 

As metodologias principais da Religião são a e a revelação. Fé significa acreditar em algo, ou formar  teorias, sem precisar de evidências para isso. Se fossemos utilizar esse método para descobrir algo comum em nosso dia a dia, por exemplo, se uma pizza no forno está pronta, não  deveríamos olhar e verificar, como sugerido pela metodologia empírica, simplesmente teríamos de ter fé. Religiosos poderiam dizer que minha descrição foi simplista, que o método da fé trata de questões do ser, de sentir, de transcendência. Entretanto, se esse método não funciona para questões tão simples, isso apenas significa que ele é até menos eficaz para as questões complexas sobre visões de mundo, pois quanto A palavra “teoria” será utilizada em um sentido frouxo, como formar conjecturas  mais complexo o objeto, mais difícil é conhecer e mais rigorosa sua metodologia precisa ser para abarcá-lo. Apenas sentir não irá fazer você conhecer alguma realidade sobre o mundo, várias pessoas sentem coisas contraditórias e nenhuma está justificada apenas por sentir. O fato de um cristão ortodoxo na Rússia sentir que, para ter uma relação com o divino, é preciso batizar crianças afundando seus corpos em lagos congelantes não justifica a crença nem o ato.

 

 

Para a Ciência (por sua herança filosófica), também é importante investigar as plausibilidades das ideias. Há vários problemas com a definição de Deus, problemas a priori sobre o que é dito, e não sobre o que é testável. Isso passa pelas contradições de dizer que há livre-arbítrio e que o plano de Deus para as pessoas já está traçado, em falar de bondade e ter como ameaça o inferno. Mas essas questões são bastante conhecidas e não são o maior motivo pelo qual a Religião deve se manter distante da Ciência. Entretanto, é interessante propor um experimento de pensamento para averiguar a metodologia da revelação: como os religiosos poderiam saber e afirmar que Jesus realmente voltou? Se Jesus, o carpinteiro do Oriente Médio de 2 mil anos atrás, voltasse, como muitos acreditam, ele teria que se materializar repentinamente. Alguns acham que ele virá do céu,  mas no céu temos atmosfera, e acima temos espaço, planetas e estrelas. Se ele já chegar do céu, isso apenas significa que ele se materializou no céu antes de descer, e por algum milagre sobreviveu à queda. Soa cômico, mas são as consequências do  que é afirmado por religiosos. Vou supor a possibilidade de reencarnação para continuar a investigação. Como o método da revelação não requer evidências, as pessoas teriam apenas que sentir que Jesus voltou. Entretanto, há várias pessoas que já  afirmam ser Jesus. Como um religioso poderia conseguir distinguir essas pessoas barbudas comuns do original Jesus caso ele volte? Como o método é apenas sentir  (ele não precisa provar seus milagres), o que iria acontecer é uma nova separação de crentes, como houve entre judeus e cristãos, e em menor escala entre os cristãos brasileiros que acreditam ou não que Inri Cristo seja Deus.

 

Por um lado, a Religião realmente nos promove uma visão de mundo que a Ciência empírica sozinha não consegue nos fornecer. Para fornecer uma visão de mundo completa, a Ciência teria que ir  além de suas evidências, dizer mais do que ela poderia dizer. Mas, por outro, há um problema grave nas visões de mundo que a Religião instaura. Elas são falsas. Como mencionado anteriormente, a Ciência em uma dificuldade em construir teorias que sobrevivam às  tentativas de falseamento, mas ela tem o dom de falsear ideias e teorias. A Ciência falseia as afirmações religiosas, os deuses pessoais.

 

Utopias buscam uma sociedade ideal, porem não perfeita

 

Como falsear uma teoria sobre Deus

É comum escutarmos que a Ciência não pode falsear deuses, por serem ideias metafísicas. Os ateus  comumente dizem que o ônus da prova está em quem acredita. Entretanto, acredito que a situação é  ainda pior para a Religião. Enquanto o ateísmo comum se portava com uma postura apática, uma  simples descrença em relação às religiões, o Neoateísmo propõe que devemos agir para distanciar as  religiões da Ciência (como também do Estado). Os principais proponentes do Neoateísmo no mundo são o biólogo Richard Dawkins (1941), o filósofo Daniel Dennett, o jornalista falecido Christopher Hitchens (1949- 2011), o filósofo e neurocientista Sam Harris (1967) e o físico Lawrence Krauss (1954). No Brasil, essa postura tem sido representada de forma corajosa pela instituição ATEA.

 

Para verificar se uma ideia é verdadeira ou falsa, é preciso verificar suas consequências no mundo e se essas consequências são suportadas pelas evidências. No caso de ideias metafísicas que tenham consequências no mundo, o que precisa ser feito é supor a existência de uma entidade e o que  la faz no mundo. Se falsearmos o que ela faz no mundo, por modus tollens, falseamos a proposição, mas não a entidade. Conseguimos falsear a teoria sobre a entidade quando não conseguimos mais elaborar proposições verdadeiras sobre o que ela pode fazer no mundo.
Vamos focar em alguns aspectos do Cristianismo, investigando algumas de suas afirmações básicas: se o deus cristão existe, ele cura através da oração.  Se o deus cristão existe, ele ajuda seus fiéis. Se o deus cristão existe, ele criou o ser humano. Se o deus cristão existe, ele salva, isso significa que nós temos almas. Se o deus cristão existe, ele é justo. Não precisamos discutir a ideia abstrata de um deus cristão, ela não precisa nem  ser tocada, podemos assumi-la como hipótese e apenas falsear suas consequências no mundo. Essas proposições condicionais foram formadas a partir do que  a maioria dos fiéis acredita e por isso as tomei como exemplo, mas várias outras poderiam ser formadas e também falseadas. Eventualmente, se falsearmos várias dessas proposições, a teoria cristã em si, se torna falsa.

 

 

A forma para descobrir se algum método de saúde funciona é por meio de testes clínicos com grupo controle. É assim que a eficácia de medicamentos e até mesmo terapias psicológicas são verificadas. Se o medicamento, ou terapia, consegue ter efeito maior do que de um placebo, verificamos que ele funciona. Se o medicamento não passa no teste clínico com grupo controle, ele nem chega às farmácias. Se a Ciência exige esse rigor para testar suas práticas na saúde, mesmo quando possui boas razões para serem verdadeiras, podemos, no mínimo, supor que ela  deva exigir o mesmo rigor para as teses de cura religiosa. Nenhum método religioso de cura até hoje passou na meta-análise de testes clínicos com grupo controle, lembrando que até terapias psicológicas passam. Ainda, a metodologia de pesquisa não interfere no tipo de cura, ela verifica  apenas os resultados de melhora em saúde, qualquer prática pode ser testada por ela. Logo, oração não cura. Outras evidências são o fato de um amputado nunca ser  curado, o “milagre” teria que acontecer apenas com doenças cujo corpo, às vezes, consegue combater, como o câncer.  Depois de a Ciência descobrir curas para certas doenças, as pessoas começam a atribuir o sucesso a deus, mas, antes das  descobertas, Deus não curava essas doenças. A melhor conclusão das evidências é que se Deus existir, ele não cura.

 

O Deus cristão não beneficia seus fiéis, pois não há nenhuma evidência de que  os cristãos sejam mais bem-sucedidos do que os ateus ou pessoas de outras religiões. Pelo contrário, na realidade, geralmente, os países com grande qualidade de vida são países com grande número de  ateus (Suécia, Noruega, Japão, Inglaterra, Alemanha, França). A existência de ateus felizes e satisfeitos é o bastante para falsear a hipótese de que ser fiel tem qualquer  validade durante a vida.

 

 

O deus cristão não criou o ser humano, as evidências são fortes de que  houve evolução por seleção natural e que não houve um propósito final  guiando o processo. Órgãos já serviram diversas funções, 99% das espécies que  existiram foram extintas, nossos corpos não são perfeitos, mesmo sem contar problemas com bactérias e vírus, diversos problemas genéticos naturais  podem ocorrer, e ainda temos partes do nosso corpo que marcam a nossa história evolutiva e que hoje são inúteis,  como o dente do siso, sequências no DNA que não são mais funcionais e o cóccix. Inclusive algumas pessoas ainda nascem com rabos. Esse assunto demanda mais tempo, e Richard Dawkins já cobriu. (Explicações: no livro O relojoeiro cego. Evidências: no livro O maior espetáculo da Terra.)

 

Para o deus cristão salvar nossas almas é preciso, em primeiro lugar, que tenhamos almas. Mas esse não parece ser o caso, uma vez que a   Neurociência mostra como as funções que eram atribuídas antigamente a almas são efeitos do estado específico de nosso cérebro em dado momento. Até mesmo nossa personalidade pode se transformar se lesarmos a estrutura do cérebro, assim como memórias, identidade pessoal, pensamento, visão,  capacidade de ser bom e qualquer outra característica que possa ser atribuída à alma. Não há personalidade, memória, identidade pessoal, pensamento após a morte, porque mesmo na vida nós podemos perder ou modificar essas funções apenas lesando nosso cérebro, quanto mais na morte,  quando ele não estará mais funcionando.

 

O deus cristão não pode ser justo e bondoso, pois ele teria que privilegiar jogadores de futebol  sobre crianças que passam fome ou nascem com doenças e deformações graves, pois é isso que realmente acontece no mundo. O mundo não é da forma que seria se existisse um deus cristão. Os cristãos  podem ter sua visão de mundo própria, mas várias de suas afirmações essenciais são falsas, e por  isso devem ser distanciadas da Ciência.

 

 

Algumas pessoas podem querer responder a isso dizendo que esse método de falseamento não é o suficiente, ou que sempre há a possibilidade de ele não atingir tudo que seria necessário falsear. O que ocorre é que essas são as melhores formas disponíveis, e as mesmas que a Ciência exige para suas teorias. Mesmo assim, alguém poderia ainda não estar satisfeito. Entretanto, se perguntarmos a essa pessoa se ela acredita no cupido ou em deuses hindus,  ela dirá que são teorias falsas de outras culturas. O problema é que ela chega a essas conclusões utilizando do mesmo ou de métodos mais frágeis do que esse exemplificado. Alguns religiosos dizem que possuem teorias racionais, e percebo que são honestos. Mas racionalidade não vem de graça, ela nos força a admitir o que não queríamos que fosse verdade. Logo, deve ser aceito que o método para falseamento de qualquer deus deve ser o mesmo, e se um é falso com certo método, o outro deve também ser possível de análise pelo mesmo método-sociedade. Não estou dizendo que religiosos são irracionais por natureza ou em todas suas atividades, as evidências mostram que não são. Estou apenas apontando a ocorrência de uma irracionalidade epistemológica, e todos nós podemos estar sujeitos a outras sem que percebamos.

 

A teoria de deus que não pode ser falseada é aquela em que esse não interfere em nada no mundo, não criou o ser humano, não se importa com o ser humano, não faz milagres, não é justo, pode, no máximo, ter criado o universo e ter sumido (mesmo assim alguns físicos estariam contra esse último aspecto). O problema é que ninguém se interessa por esse deus impotente, ele não  satisfaz aos religiosos e não incomoda os ateus ou cientistas. Postular ele é meramente um acréscimo verbal sem relevância.

 

Utilizar a história de Adão e Eva para justificar a origem da humanidade é ingênuo e antieducativo, além de reforçar os ideais do patriarcado

 

A religião distante da ciência

A Religião é antieducativa. Ensinar às crianças que temos almas, que fomos criados do barro,  que houve dilúvio, que Adão e Eva existiram, que oração é um método relevante para a saúde, que há  um design inteligente na evolução, e que nossa moralidade e consciência são capacidades unicamente  humanas (dadas por deus) é ensinar mentiras. Isso seria equivalente a ensinar que o Brasil foi  colonizado por espanhóis; equivalente a ensinar que a água não é composta por H2O; equivalente a ensinar que força é igual energia mais gravidade. Muitas pessoas acham que o Cristianismo não deveria estar nas aulas de Ciências por equivalência cultural. É claro, outras religiões também
teriam o direito. Mas o problema essencial não é essa equivalência cultural, é simplesmente que essas religiões possuem afirmações falsas, e afirmações falsas são excluídas da Ciência. Ensinar  Ciência significa, entre outras coisas, passar adiante as descobertas que a  humanidade batalhou  muito para conquistar. Uma das tarefas importantes de várias Ciências (Biologia, Psicologia, Economia, Neurociência, Antropologia, entre outras) é apresentar evidências sobre quem o ser humano é e como ele funciona, e a Religião vem atrapalhando essa tarefa. Nesse sentido, ensinar teses falsas  da Religião é antieducativo.

 

Como Lawrence Krauss aponta, a Ciência, pelo seu próprio método, não pode  se aliar a um livro (Bíblia) que foi escrito no Oriente Médio por pessoas que não sabiam que a Terra era redonda,e acrescento, não conheciam antibióticos, não entendiam sobre o cérebro, não sabiam da existência de fósseis de Homo neanderthalis e  Denisovans (outras espécies de hominídeos com as quais os Homo Sapiens se reproduziram durante sua história evolutiva), não entendiam que seres humanos não são  meramente semelhantes a primatas, e sim que são uma espécie de primata.

 

Se os seres humanos ocupam a superfície da Terra há mais de 200 mil anos, por que deus só enviou um representante há 2 mil anos?

 

Como Christopher Hitchens aponta, a Ciência não pode aceitar que os seres  humanos estiveram no mundo por 200 mil anos e apenas há 2 mil anos atrás um deus bondoso resolveu enviar Jesus, um carpinteiro (que não viveu nem quarenta anos), para contar para algumas poucas pessoas no Oriente Médio que realmente existia um deus e, apenas a partir desse momento, explicar como as pessoas deveriam agir e no que deveriam acreditar para se salvar, para esperarem a volta de tal carpinteiro. A Ciência precisa se ater às evidências e mostrar que o Cristianismo é só mais um mito dentre todos os outros religiosos que existem.

 

Como Sam Harris e Daniel Dennett apontam, a Religião se apropria dos valores bons do ser humano como se fossem dela. A compaixão, o altruísmo, a esperança são características dos seres humanos e até de outros mamíferos, não são características apenas  de pessoas religiosas. Essas características não têm relação alguma com a crença em um deus, afinal, vários ateus também possuem essas qualidades, e também mamíferos que cuidam do próximo, até mesmo de outra espécie. Essa  é só mais uma afirmação da Religião sobre as qualidades do ser humano e dos animais, as quais a Primatologia, Neurociência e Psicologia Comparativa falseiam.

 

 

 

Se até mesmo as teorias científicas que foram mostradas serem falsas são excluídas da Ciência,  porque as teorias religiosas falsas não deveriam ser excluídas? Logo, ao contrário do defendido por  Everaldo Cescon, não temos motivo algum para pensar em uma via de mão dupla entre Ciência e Religião. A não ser que o método da fé mostre algum resultado, vantagem ou proponha alguma teoria  verdadeira, mas isso ainda não aconteceu. Qualquer dificuldade que a Ciência tenha para acertar não mostra que a Religião pode ser útil, apenas mostra que é difícil conhecer o mundo.

 

Finalmente, se a Ciência fosse se aliar à Religião, por que deveria ser ao Cristianismo? Foquei no  texto sobre crenças cristãs por serem dominantes no Brasil, mas a Ciência precisa buscar ser  universal e não cultural. São inúmeras as religiões praticadas no mundo, diversos deuses,  diversas teorias de origem, teorias do homem, da mente, cada uma com crenças contraditórias e na  maioria das vezes falsas, pois se baseiam em fé, e não em pesquisa. A Ciência não pode se aliar a  um conjunto de contradições ou falsidades.

 

Como fica o problema mencionado sobre a Ciência, que ela não pode sozinha fornecer uma visão  completa do mundo? Bem, esse é o papel da Filosofia. A Filosofia, que também tem como  base a mudança e o revisionismo, e não a fé, pode nos ajudar a formar visões de mundo provisórias que servem para interpretação das evidências e para motivação de mais pesquisas, apontando problemas a ser resolvidos e caminhos para resolvê-los. A Filosofia deve se manter distante  das religiões pelos mesmos motivos que a Ciência.

 

Não há motivo convincente para acreditar que a Religião tenha algo a contribuir para a Ciência.  Não devemos procurar uma via de mão dupla entre Ciência e Religião, isso seria buscar a falácia do falso meio- termo. Vale ressaltar que não devemos ser submissos a teorias científicas (estas são provisórias), mas sim às evidências científicas, que são nossa guia. Qualquer papel de formação de visão de mundo  que falte à Ciência pode ser abarcado perfeitamente pela Filosofia que aceita mudanças e que não impõe dogmas de fé ou ideias falsas.

 

 

 

*Samuel de Castro Bellini-Leite, doutorando em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais, (UFMG). samuelcblpsi@gmail.com

Adaptado do texto “Fugindo do meio-termo”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 90