Burnout: expectativas que esgotam

Por Arthur Meucci* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Nesta coluna eu gostaria de analisar o relato da professora Fernanda, uma carioca que leciona Português na rede pública de ensino. O caso dela se assemelha ao de muitos outros profissionais da Educação que se encontram na mesma situação. Professora recém-formada, leciona no ensino fundamental e médio há dois anos e tem de se afastar regularmente da sala de aula por problemas de saúde. Desde o primeiro semestre em que começou a lecionar, ela passou a sentir palpitações no coração, dores de cabeça, problemas para dormir, medo de sair de casa sozinha, dor no estômago e oscilação de humor. Passou por três ginecologistas e um cardiologista, mas não conseguiu um diagnóstico para o seu problema. Ela desconfia que esses sintomas sejam uma resposta emocional às situações estressantes vividas em sala de aula.

 

A jovem Fernanda está correta em sua hipótese. Assim como ela, muitos professores em início de carreira sofrem da Síndrome de Burnout. Segundo dados da UNB/MEC de 2008, 15,7% dos professores do ensino básico foram diagnosticados com esse transtorno emocional. O Burnout foi descoberto na década de 1970 pelo psicanalista americano Herbert Freudenberger. Ele constatou que repetidas experiências profissionais negativas desencadeavam um estado de esgotamento físico e mental que pode se assemelhar à síndrome do pânico ou à depressão, porém sem uma relação direta com estas patologias e a necessidade de um tratamento distinto.

 

Os estudos sobre a Síndrome de Burnout com professores, feitos por Graziela Silva e Mary Carlotto em 2002 e por Maria Silva em 2006, nos mostram que oito fatores contribuem diretamente com o desencadeamento deste mal-estar. São eles: acúmulo de aulas e atividades extraclasse; excesso de alunos na sala de aula; problemas indisciplinares que não sofrem a devida intervenção da escola; falta de uma infraestrutura adequada para a realização das atividades pedagógicas; sentimento de impotência perante os problemas; violência física ou psicológica desferida por alunos, coordenadores ou pela Secretaria da Educação; falta de um plano de carreira; baixos salários. As pesquisas de Silva e Carlotto também mostraram que há uma relação importante entre o elevado grau de capacitação do docente (especialização, mestrado ou doutorado) com o surgimento e a intensidade dos sintomas. Quanto melhor a formação, maior a incidência da síndrome.

 

Esse assunto, que é de vital importância para o bem-estar do professor, é negligenciado durante a sua formação profissional. Nem na disciplina de Psicologia da Educação este tema é tratado. A minha hipótese sobre esse assunto é polêmica: acredito que os cursos de licenciatura contribuem com o surgimento desta síndrome.

 

Há um ano eu atendi dois jovens professores com esse transtorno, em meu consultório, e ambos sempre relatavam suas frustrações e vergonhas por não conseguirem “operar as mudanças” que se comprometeram na faculdade devido a situações adversas em sala de aula. Percebi que quanto melhor é a formação e a consciência ética do educador, maior é a expectativa e a frustração diante da realidade. Quem disse que todos os cidadãos precisam fazer uma boa faculdade? Até parece que os cursos técnicos são inferiores ou que para abrir uma padaria é preciso estudar muito. Quem disse que o estudo promove políticos melhores? A maioria dos políticos e empresários corruptos tem especialização, mestrado ou doutorado – sem falar que o presidente mais bem-sucedido na história do nosso país tinha só o ensino médio e um curso no Senai.

 

Não precisamos ir muito longe: os professores, paladinos da cultura e da cidadania, profetas de uma vida melhor através dos estudos, ganham salários miseráveis e poucos conseguem ter uma vida minimamente decente. Como podemos vender a promessa de uma educação para um futuro melhor se o destino de quem se entrega aos estudos e ao ensino é ruim? Os discursos de mudança de vida das igrejas neopentecostais fazem muito mais sentido que as promessas da Pedagogia. Por esse motivo, as expectativas que os professores têm deles mesmos são muito desgastantes e opressoras. Os educadores não vivem os seus educandos, a comunidade escolar, as novas experiências, pois estão presos à arrogante pretensão de fazer os alunos “cidadãos melhores” segundo o ponto de vista que os doutrinou.

 

Muitos professores que sofrem desta síndrome questionam: Será que eu escolhi a profissão errada? A preocupação excessiva mostra que eles fizeram uma boa escolha. Eles são vítimas do autismo que a vida universitária criou em relação ao cotidiano escolar. Os educandos precisam que os educadores entendam o mundo que eles vivem, que os ajudem a mudar o que eles precisam. O conhecimento crítico deve brotar do cotidiano, das músicas que os alunos escutam, dos produtos que consomem, e não da geopolítica mundial ou da indústria cultural. A docência é um exercício de alteridade, e não de sabedoria, é um gesto de colaboração, e não de formatação. Essa consciência do nosso papel é muito difícil de entender em sua plenitude, porém é libertadora quando alcançamos. O conhecimento precisa estar a serviço do educando, não o contrário.

 

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*Arthur Meucci é mestre em Filosofia pela USP, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pelo Mackenzie. Membro da Associação Filosófica Scientiae Studia. Professor, psicanalista e editor da revista Espaço Ética: Educação, gestão e consumo. www.meucci.com.br

Adaptado do texto “Burnout: expectativas que esgotam”