Barroco brasileiro – Um estranho sincretismo

Entenda como a nossa tendência por um sincretismo forte e aglutinador explica nosso maneirismo tropical

Por Walter Cezar Addeo* | Foto Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Barroco

Alguma coisa acontece com as categorias estéticas quando elas adentram os trópicos. A linha do Equador parece ter o estranho poder de embaralhar estilos. Abaixo do Equador, hibridismos predominam. Temos uma preferência quase inata para fazer pouco caso de categorias estéticas rígidas. Fato já notado por Oswald de Andrade ao propor o conceito de antropofagia como uma constante cultural brasileira.

O termo será fecundo e reaparecerá sob a denominação de tropicalismo muito tempo depois. Grosso modo, ele nos diz que sempre seremos uma nação miscigenada, mestiça e que o arcaico e o moderno sempre participarão de uma estranha dança no nosso inconsciente cultural. Ao nos apropriarmos dos diversos
estilos artísticos que aqui chegam, praticamos um “maneirismo” muito particular nessas formas canônicas.

Essas considerações se impõem ao visitarmos a mais do que oportuna exposição do Museu Afro Brasil denominada “BARROCO ARDENTE E SINCRÉTICO – LUSO-AFRO-BRASILEIRO. De pronto, percebemos que, na verdade, nunca deixamos de ser uma nação barroca, onde o profano e o sagrado se misturam sem cerimônias. Até nossa lamentável política vive teatralizando esse nosso gosto pelo bizarro ao misturar seriedade e liturgia com o grotesco e o cômico. Mas, há algo neste barroco brasileiro que revela outra coisa.

Aqui, a vertente maneirista que precedeu na Europa o estilo barroco propriamente dito, manteve-se uma constante. Ele se infiltra o tempo todo nas obras ditas barrocas tropicais. Na verdade, o maneirismo esteve sempre presente como um veio subterrâneo em toda a arte barroca mesmo na Europa. No Brasil, entretanto, essa vertente oculta aflorou com mais desenvoltura e é ela que nos permite falarmos sobre um barroco brasileiro diferente do europeu.

Mantivemos sempre uma constante maneirista forte e isso se torna mais visível nos detalhes decorativos, nas figuras de anjos, nos elementos secundários da composição. Os rostos quase caricaturais dos soldados romanos em Aleijadinho são outros indícios. Pertence ao maneirismo o gosto pela distorção do corpo humano.

Religião

Nossa tendência por um sincretismo forte e aglutinador, certamente, explicaria esse nosso maneirismo tropical. São inúmeros os detalhes em que essa solução aparece nos elementos escultóricos ou pictóricos. Como foi dito, nunca é o foco principal, mas lá está, como a zombar da seriedade excessiva do tema proposto. Nos temas religiosos, inclusive, aparecem como um elemento de dessacralização.

Quando, por exemplo, as feições da Virgem são visivelmente mestiças. Também vamos encontrar querubins negros ladeando a figura da Virgem. Um atrevimento sem dúvida, mas que impõe uma solução não prevista, extremamente individual, dentro de uma iconologia que não prevê este tipo de solução. Muitas das figuras secundárias de anjos apresentam ainda feições e formas de olhar pitorescas, fora do contexto sagrado.

Neste sentido é instrutivo observar com mais vagar as expressões nos rostos dos anjos de Mestre Valentim da Fonseca e a gestualidade de suas estátuas. São detalhes maneiristas antes de tudo e que aqui se preservaram. O material de divulgação desta mostra, com curadoria de Emanoel Araujo, nos informa que ela se faz também em homenagem ao Jubileu dos 300 anos de Nossa Senhora Aparecida. Pois bem, essa imagem, é peculiar.

Ela foi quase destruída por um vândalo que a espatifou no chão e teve que ser restaurada. O rosto, inclusive, teve que ser quase todo refeito. Praticamente perdeu-se grande parte do material original, reduzido a fragmentos muito pequenos. Entretanto, temos fotos da imagem original de antes do vandalismo. É interessante notar um detalhe inusitado. O artista que a esculpiu em barro a fez com os lábios entreabertos.

Mas, contra todo o estilo tradicional de se representar faces sagradas, ele mostra os dentes da Madona. Este detalhe embaraçosamente realista não é considerado próprio para a representação sagrada. Um detalhe físico por demais terreno para um ente espiritual. Mas lá está. De novo, um detalhe estranho que combina muito mais com um espírito maneirista que aproxima o alto e o baixo, o sagrado e o profano, o grotesco com o sublime do que com o cânone barroco clássico de magnificência.

Adaptado de Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 131

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*Walter Cezar Addeo é mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), escritor e roteirista.