As tatuagens do passado

Por Walter Cezar Addeo* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Quando o corpo congelado de um homem foi descoberto nos Alpes em 1991 seu corpo mumificado pelo frio foi alvo de uma série de análises, pois era um raríssimo exemplar preservado pelo gelo de um habitante europeu de 5.300 anos atrás (Idade do Bronze). Foi chamado de OTZI, devido ao maciço de Otzal, na região do Tirol, onde foi encontrado. A análise de seu corpo, vestimentas e objetos que portava revelaram muitas coisas aos arqueólogos e antropólogos. Entre os dados recolhidos foi anotado que Otzi trazia na pele 61 tatuagens. A milenar arte da tatuagem teve ali uma confirmação visual. Muitas delas estavam muito próximas dos pontos utilizados atualmente em acupuntura. Se forem realmente pontos medicinais de acupuntura seriam muito mais antigos do que os primeiros registros que temos na China. As marcas de tatuagem no corpo de Otzi são geométricas; a maioria delas barras paralelas superpostas que remetem, por aproximação visual, às barras do I Ching. Algumas eram cruzes. Barras paralelas e cruzes são também sinais persistentes por toda arte rupestre pré-histórica. Essas tatuagens da era do Bronze encontradas no corpo de Otzi, por sua vez, confirmam o uso generalizado de uma forma de arte disseminada por todos os povos antigos e culturas primitivas – a decoração do próprio corpo seja através de pinturas aplicadas em momentos rituais específicos ou mais persistentes e duradouros, através de tatuagens.

 

Muito provavelmente, em paralelo com a arte rupestre encontrada nas cavernas de Altamira e Lascaux, a pele humana possivelmente tenha sido o primeiro suporte para a arte do Homo Sapiens. Desenhado, pintado, escarificado (como na prática dos Maoris de Papua Nova Guiné) ou tatuado, o corpo humano foi a primeira tela da humanidade. O que nos leva ao uso marginal das tatuagens por toda a história ocidental, estratégia utilizada pelos “outsiders” de todas as épocas para marcar uma identidade de exclusão e, ao mesmo tempo, de pertencimento a um clã, um grupo.

 

Leituras da História: Manifestações culturais e corporais

 

Mudança

Os jovens, atualmente, procuram na tatuagem uma forma de criar para si um rito de passagem numa sociedade dessacralizada, onde formas de afirmação da passagem da infância para a idade adulta deixaram de ser marcadas com exatidão. À deriva, os jovens criam para si suas próprias maneiras de enfatizar essa entrada numa nova etapa de suas vidas. Nos anos sessenta criaram seus emblemas através de novas roupas, novos cortes de cabelo, novas músicas, inclusive, elegendo as guitarras elétricas como seus totens. Passados os tempos dessa forte revolução cultural, novos emblemas foram buscados. Vimos então, tatuagens e piercings reaparecerem para marcar esse trânsito existencial. Assim, uma forma ritual milenar, inesperadamente, encontrou novamente seu nicho na sociedade contemporânea. Note-se que tatuagens são feitas sem anestesia, numa prova de resistência à dor, antes de tudo. Prova física de que não se é mais uma criança.

 

Possivelmente, toda arte seja, igualmente, símbolos de transição de uma etapa cultural para outra, autênticos “ritos de passagem” pictóricos. Aconteceu na Renascença, aconteceu no Modernismo. Está acontecendo agora, embora não tenhamos um nome consensual para isso que chamamos, provisoriamente e por falta de um nome melhor, de pós-modernismo. A civilização, portanto, também teria suas tatuagens. A arte as inscreveria indelevelmente no próprio corpo social. O “espírito do tempo” criaria suas “tatoos” únicas. De qualquer forma, as tatuagens estão a nos lembrar que, um dia, a pele humana foi realmente a primeira tela da humanidade.

 

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*Walter Cezar Addeo (W.C.A) é mestre em Filosofia pela universidade de São Paulo (USP) e membro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), escritor e roteirista. Escreve sobre artes visuais nestas páginas.

Filosofia Ciência & Vida Ed. 125

Adaptado do texto “A primeira tela”