As revoluções do capitalismo

Por Rodrigo Petronio* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Vendo as cartas de Ernst Jünger a Heidegger chegamos a uma irônica constatação: não se fazem mais nem conservadores nem revolucionários como antigamente. Até meados do século XX, a posição de esquerda e a conservadora puderam fornecer análises estruturais sobre os problemas políticos e econômicos do mundo. Não por acaso, um dos maiores juristas do século XX, Carl Schmidt, referência de diversos pensadores contemporâneos de esquerda, fora um ideólogo de uma revolução reativa, gestada durante a República de Weimar como o ovo da serpente nazista.

 

A obsessão de Adorno em criticar Heidegger demonstra algo valioso: ambos estavam sugerindo soluções opostas a um mesmo diagnóstico estrutural de época. Também não por acaso a revolução soviética e a chamada “revolução conservadora” alemã surgem como respostas diametralmente opostas a um mesmo diagnóstico dos impasses relativos a uma velha promessa Iluminista: a aliança entre democracia, secularização e capitalismo. Os exemplos se multiplicam.

 

O conflito que o mundo moderno nutre pelo que chamamos de capitalismo ou sociedade de mercado é compreensível. O capitalismo é uma das maiores revoluções na história do sapiens. E assim o é porque consiste em uma alteração global dos meios. As protologias e as escatologias, que recobrem praticamente todos os sistemas metafísicos e todas as religiões de salvação do mundo, a Oriente e a Ocidente, sempre enfatizaram as origens e os fins. Dessa forma, tornaram o meio opaco, inviabilizando uma revolução mesológica, ou seja, a apreensão do meio como meio.

 

A partir da expansão do capitalismo, essa neutralidade dos meios começa a ruir. Não por acaso, autores tão díspares entre si, como Marx e Leibniz, começam a desenvolver uma atenção especial aos meios. Enquanto Leibniz propõe uma cosmologia organicista baseada na pluralização das substâncias e dos meios-mundos que são as mônadas, Marx se tornou o maior arauto da crítica científica ao capitalismo, justamente ao propor uma teoria geral dos meios de produção, ou seja, uma reorganização mesológica entre começos, meios e fins.

 

Mas qual seria a alteração significativa introduzida pelo sistema baseado no fluxo de capital? Podemos resumir da seguinte maneira: o capitalismo consiste em uma mudança na dinâmica biotrópica entre meio e desejo. Desde o neolítico, o sapiens cria civilização para realizar o desejo imperial de soberanos e para realizar o desejo de Deus e dos deuses. A heteronomia é a pedra angular de todos os sistemas metafísicos e de todas as ontologias imperiais.

 

Com a emergência do capital, o humano deixa de ser o meio neutro de realização do desejo de um Outro. A sustentação do poder mundial se conecta à autorrealização imanente do desejo de cada ser singular. O capital produz uma axiomatização, uma dupla inscrição no desejo, tornando-o simultaneamente liso e estriado, como propõe Deleuze. O desejo de rea­lização de objetos ­exteriores ­durante muitos séculos foi definido como desejo de realizações de um conjunto de media, transcendentes tanto ao objeto desejado quanto ao sujeito desejante. O trabalho, por sua vez, transforma-se cada vez mais na realização abstrata do capital e na autorrealização do desejo de cada indivíduo, por mais ilusória que essa realização seja aos olhos de uma crítica ideológica.

 

Em poucos momentos os meios contaram com um pensamento à altura dos problemas que esses mesmos meios implicam. Da mesma forma, o capitalismo ainda espera uma teoria à altura de sua complexidade. Marx compreendeu e descreveu muito bem essa revolução dos meios a partir dos meios de produção. Mas é preciso ir além. É preciso compreender que os meios de produção são apenas parte de uma ontologia e de uma cosmologia dos meios. Nesse sentido, é produtivo pensarmos que não apenas o capitalismo representa uma revolução dos meios. O próprio capitalismo vive revoluções internas, como o filósofo Maurizio Lazzarato definiu com a expressão “revoluções do capitalismo”.

 

As revoluções internas ao capitalismo não dizem respeito apenas às alterações das relações de trabalho e ao conflito entre classes. Se essa fosse a premissa, seria mais simples detectar os agentes e pacientes do poder de uma vez por todas. Pensar as revoluções do capitalismo é pensar a partir das pluralidades e das multiplicidades de forças atuantes nesse todo abstrato e homogêneo que chamamos de capital. Da mesma forma, seria preciso refletir sobre um efeito decisivo que determina seu alcance antropológico: a heterogeneidade de meios-mundos criados e de novas realidades geradas pela transformação do mundo pela intervenção da técnica.

 

Paradoxalmente, apenas quando o capital deixar de ser pensado em escala global e passar a ser repensado em escala tribal, ou seja, apenas mediante a constituição de pluralidades de mundos dentro do mundo, como sugerem Tarde, Deleuze e Lazzarato, todos a partir de Leibniz, poderemos acreditar na emergência de uma alternativa ao meio-mundo da produção capitalista. Caso contrário, o novo estatuto da circulação e dos meios produz uma completa impossibilidade de refutar o capitalismo como um todo sem recorrer ao cinismo, ao totalitarismo ou à ingenuidade.

 

 

*Rodrigo Petronio, professor da pós-graduação da FAAP. Organizador dos três volumes das Obras completas do filósofo Vicente Ferreira da Silva (Editora É).  Coorganizador do livro Crença e evidência: aproximações e controvérsias entre Religião e teoria da evolução no pensamento contemporâneo (Unisinos).

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 113