As pessoas mudam: veja análise sobre a psicologia

Por Renato Janine Ribeiro

Antes do microscópio, muitos pensavam que o embrião humano, invisível a olho nu, fosse uma cópia minúscula do que é o ser humano pronto. Teria cabeça, tronco e membros – e também dois olhos, cada dedo, cada unha.

O mesmo valia para o que hoje chamamos de Psicologia. Não se imaginava uma psique diferente do bebê, da criança, mesmo do pré- adolescente. Uma das hipóteses é que sua mente fosse uma tábula rasa, um papel em branco, no qual se escreveria o que seu mestre mandasse. Em vez de Educação, tínhamos “instrução” – e não é por acaso que hoje essa palavra sobrevive principalmente nos manuais de instrução para usar máquinas ou outros aparelhos sem humanidade.

A revolução na compreensão do homem, quem comandou foi Rousseau. Um dos erros maiores dos cursos de graduação em Filosofia consiste em confiná-lo à disciplina de Ética, em vez de dar-lhe a honra suprema de estrelar a História da Filosofia (por alguma brasileira razão, pensamos que a Filosofia é menos que a História da Filosofia, que pensar é menos do que contar o que os outros pensaram…). Sua teoria da Educação, exposta no Emílio, vem com uma revolução mais ampla, que afeta a Política e a História.

Qual o cerne do Emílio? É que a criança não é um papel em branco. Ela, a cada fase de sua vida, está apta a aprender e desenvolver certas coisas, outras não. Deve ser tratada da forma adequada à sua idade. Fazê-la brincar – “deixá-la sempre sem fôlego”, como ele dirá – é uma das chaves para os pequenos. Há uma hora para ensinar a propriedade, outra para a religião. Perder essa relação entre o ensino e a psique é jogar fora o trabalho de educar.

Educar é um movimento, pelo qual se sai de algo fechado para algo mais aberto (do latim ex+ducere). É uma abertura para o mundo. A visão “antiga”, que via no feto um homúnculo e na criança uma tábula rasa, é substituída pela ideia de que desde o começo já somos alguma “coisa” (portanto, não somos papel em branco). Mas diferente do que depois nos tornaremos (portanto, não somos um microadulto). Por isso a Educação começa, desde seus primórdios, a namorar a ideia de mudar as pessoas.

Um exemplo. La Bruyère, no final do século XVII, traduz Os caracteres de Teofrasto, obra velha de 2 mil anos, e acrescenta Novos caracteres. Caráter, plural caracteres, quer dizer duas coisas. Primeira: o caráter da pessoa, no sentido de quem ela é, como ela é, algo como sua personalidade. Segunda: a letra ou acento com que se escreve (aquilo que a ignorância da Microsoft chama de “caractere”). Cada caráter é um tipo psicológico. É com uma série de caracteres – ou tipos psicológicos – que se escreve a complexidade da vida. Haverá avarentos, pusilânimes, aduladores, só que esses tipos não mudam com o tempo. Muda talvez tudo, mas não o caráter ou o tipo. O avarento de Teofrasto seria como o avarento de hoje, só economizando moedas diferentes e de outra forma.

Pois bem, é isso que muda desde o século XVIII. Percebe-se que no tempo e no espaço ocorrem diferenças enormes, que não cabem numa única tipologia. No tempo, é o que a História revela. Ela deixa de apenas referir datas que permitem localizar eventos indiferenciados, e passa a apontar modos de ser e de sentir diferentes: o pagão do cristão, o antigo do moderno. No espaço, é o que os viajantes, alguns deles os primeiros etnólogos, mostram: sociedades em que não há vaidade, ou avareza, ou algum dos outros traços, “bons” ou “maus”, de nosso tempo. Assim nascem o que hoje chamamos de História, Etnologia, Antropologia. Mas elas não permitem apenas descrever diferenças profundas.

 

 

 

Renato Janine Ribeiro é professor de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br

 

 

 

Revista Filosofia, Ciência & Vida Ed. 116