As lições dos fracassos

Por Renato Janine Ribeiro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Uma vez ouvi alguém dizer: o tolo não aprende com seus próprios erros e vive a repeti-los; o inteligente aprende com eles, e evita cometê-los de novo; o sábio é aquele que aprende com os erros dos outros. E quem disse isso – dou o nome, Jô Soares – concluía: só que sábios não há.

 

Estamos, nós brasileiros, aprendendo com nossos erros? Duvido. Pedimos ética na política, ética na sociedade, mas em que deu isso? Lembremos a primavera de nossas esperanças, o momento histórico em que se dizia que o Brasil tinha mudado de vez, logo depois de um impeachment que contou com o apoio entusiasmado das ruas.

 

Foi em 1992. Fernando Collor, eleito porque prometeu acabar com a corrupção e a inflação, tinha fracassado. A imprensa revelou casos de corrupção chocantes. A indignação popular foi enorme. Quando a Câmara votou a acusação contra ele, menos de 40 deputados o apoiaram (Dilma teve cem a mais a seu favor, embora insuficientes para deter o processo). E veio uma chuva de denúncias, contra ele, contra parlamentares. O Executivo e o Legislativo pareciam a ponto de ser “passados a limpo”, era esse o bordão da época. Só o Judiciário ficou fora disso.

 

 

Para completar, Betinho, que era quase um ídolo nacional, o representante honesto de uma sociedade civil revoltada contra um Estado corrupto, lançou a proposta do “Natal sem fome”. A luta contra a corrupção e contra a miséria andavam de mãos dadas. O otimismo era grande.

 

Em que isso deu? Em pouca coisa. As velhas raposas da política voltaram ao poder, ainda que em posição subalterna, com FHC – e foram mantidas por Lula. O combate à corrupção e à miséria foi substituído, por FHC, pela luta contra a inflação (necessária, é claro). Já com Lula, a miséria e a pobreza foram atacadas, mas a corrupção continuou sendo um fantasma difícil de localizar e debelar.

 

O que podemos aprender com o fracasso das esperanças depositadas no primeiro impeachment de nossa história?

 

Apesar do fracasso, a lição é que mobilizar os atores sociais, chamem-se sociedade civil ou simplesmente sociedade, é a chave para resolver nossos problemas. Políticos e partidos são necessários, mas insuficientes. Se não exercermos um sério controle sobre as instituições, elas não funcionarão em favor da sociedade.

 

Prestem atenção aos noticiários de televisão, como a Globo News: para eles, política é o que fazem o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e o Ministério Público, mais a grande mídia. É isso o que discutem. Na política realmente existente, a sociedade é um enorme vazio. Assim veem também os governos. O clipping de notícias distribuído aos ministros, toda manhã, pouco fala do que está fora da Praça dos Três Poderes e da mídia importante. Nem movimentos sociais, nem redes (igualmente? desigualmente?) sociais aparecem por aí.

 

O erro de 1992 foi a sociedade sair de cena e deixar as coisas com as instituições.

 

Dica: vejam todas as notícias de projetos bons. Podem ser de educação de crianças, de reeducação de presos, de prevenção de doenças, de proteção do meio ambiente. Podem ser aqui ou no exterior. Criem uma pasta no computador, para reunir esses projetos de um mundo melhor. Leiam, releiam, divulguem. Precisamos rever tudo no Brasil, política, economia, sociedade, natureza. Precisamos valorizar os projetos bons – mesmo que pareçam conflitantes entre si. Precisamos fazer um projeto de um País melhor. Nós, a sociedade, precisamos tomar o protagonismo.

 

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Adaptado do texto “As lições dos fracassos”

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br