Argumentação: um dos pilares para a formação da cidadania

Parece um clichê, mas, quem é educador, já se perguntou várias vezes: “que tipo de pessoa pretendemos formar”?

Por Marcelo Cesar Cavalcante* e Rita de Cássia Silva Soares** | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Se fizermos uma busca nos dicionários pelo verbete “argumentar”, veremos que a definição comum contempla a utilização de raciocínios lógicos que levem a uma determinada conclusão. Entretanto, a construção de textos com argumentos coerentes e lógicos não é tão simples e fácil; caso contrário, nossos alunos não sentiriam tanta dificuldade na hora de produzir um texto. É um processo que leva tempo porque faz parte de uma construção cognitiva, cultural e pressupõe um repertório de leituras e vivências.

 

A todo o momento nos encontramos em situações de argumentação em que opiniões, crenças, valores, ideologias diferentes podem acabar gerando algum tipo de conflito nas situações de comunicação. Nesse embate há sempre um interlocutor que procura fazer com que sua “verdade”, seu ponto de vista prevaleça sobre os demais. Podemos dizer, portanto, que sempre estamos enredados em situações comunicativas de persuasão.

 

Foi na Grécia antiga, que Aristóteles em sua Arte Retórica e Arte Poética definiu a Retórica como “ a faculdade de ver teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão”.

 

A arte de ouvir

 

A Retórica aristotélica constitui uma prática significante e comunicativa que só se efetua na relação entre dois termos interdependentes: o orador e o auditório, o emissor e o receptor da mensagem. Sem um elemento não há o outro. Para ser um bom orador é preciso, antes de tudo, conhecer o seu auditório. Como disse Aristóteles em sua obra (AR, I, cap.1, p.38):

 

Um discurso comporta três elementos: a pessoa que fala; o assunto de que se fala e a pessoa a quem se fala. O fim do discurso refere-se ao ouvinte. Conserva-se, também, da Retórica Antiga a ideia de auditório que é sempre evocada quando se pensa num discurso.

 

Para Aristóteles, a atividade argumentativa comporta os meios racionais e os meios que dizem respeito à afetividade, dando lugar à dimensão intersubjetiva da persuasão e sua componente afetiva. Os meios que dizem respeito à afetividade são, por um lado, o ethos, o caráter que o orador deve assumir para chamar a atenção e angariar a confiança do auditório; e, por outro lado, o pathos, as tendências, os objetos, as emoções do auditório das quais o orador poderá tirar partido. O elemento objetivo, que diz respeito ao discurso é denominado de logos. Conforme Aristóteles (AR, 1, cap.I: 38):

 

As provas administradas pelo discurso são de três espécies: as primeiras consistem no caráter do orador; as segundas, nas disposições do auditório; as terceiras, no discurso mesmo, pelo que ele demonstra ou parece demonstrar.

 

As duas primeiras provas são relativas aos sujeitos da comunicação que definem a situação de fala. A primeira delas é relativa ao orador e à imagem moral que ele dá de si mesmo ao falar. A segunda refere-se ao auditório e às emoções que o orador desperta nele pelo seu discurso. São elas:

Prova ética: que busca dispor favoravelmente o auditório em relação ao orador.

Prova patética: que mobiliza as paixões do auditório para obter sua adesão afetiva à causa do orador.

 

 

A terceira prova origina-se a própria ordem do discurso. Ela pretende persuadir pelos elementos racionais construídos pelo discurso: é a argumentação do discurso, propriamente dita, e recebe o nome de prova lógica.

 

Com o passar do tempo, a Retórica aristotélica foi perdendo seu prestígio devido ao uso indiscriminado que se fazia dela; ela passou ser a técnica de manipulação a qualquer custo para lograr o objetivo de persuadir outrem. A partir do século XVIII, a Retórica se transforma num catálogo imenso de figuras de linguagem e do discurso e perde seu caráter de estratégia, de busca, de investigação.

 

Corroborando as características da capacidade argumentativa defendida neste artigo, fomos buscar na fonte do século XX, aproximadamente em 1958, a obra O Tratado da Argumentação- A Nova Retórica, escrita pelo jus filósofo belga Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, que retomam a retórica de Aristóteles e revitalizam os estudos da argumentação voltada para uma nova configuração de mundo em que o respeito aos direitos humanos, ao multiculturalismo e ao pluralismo de ideias e convicções devem ser respeitados e, sobretudo, praticados. Ele procura sistematizar a Nova Retórica como uma filosofia para o século XXI. Os fundamentos da Nova Retórica representam uma ruptura com a concepção da razão e raciocínio cartesianos que marcou a filosofia ocidental por muitos séculos. Para Perelman(1996):

 

O campo da argumentação é o do verossímil, do plausível, do provável, na medida em que este último escapa ás certezas do cálculo.

 

Em decorrência, para Perelman não existe apenas um ponto de vista, uma só verdade ou dogmas. Para Perelman (apud MANELI,2004) “há muitas estradas que levam à verdade”. Essas “verdades” refletem o pluralismo de ideias, convicções, crenças que devem ser respeitadas num processo argumentativo. Para ele, não existem assuntos proibidos ou tabus.

Vivendo a filosofia política

 

Já não se trata de privilegiar a univocidade da linguagem, a unicidade da tese válida, mas sim de aceitar o pluralismo, tanto nos valores morais como nas opiniões. A abertura para o múltiplo e o não-coercivo torna-se então a palavra mestra da racionalidade.

 

No momento atual, em que a função da educação, preconizada no Art.2º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, tem por uma das finalidades o preparo do indivíduo para o exercício da cidadania, a Teoria da Argumentação se faz tão viva e indispensável.

 

Para conferir o artigo na íntegra garanta a revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 129 aqui!

Adaptado do texto “Argumentação: um dos pilares para a formação da cidadania”

*Marcelo Cesar Cavalcante é mestre em Letras Vernáculas, pela USP e Doutor em Língua Portuguesa pela PUC-SP. Trabalha com Comunicação, Discurso, Argumentação e Retórica. Foi Professor de Comunicação na Faculdade Belas Artes de São Paulo e atualmente é Coordenador de Curso na Anhanguera Osasco. Faz pesquisas na área de Argumentação e Educação.

**Rita de Cássia Silva Soares é doutora em Linguística pela FFLCH/USP, Mestre em Letras Clássicas e Vernáculas pela FFLCH/USP, Coordenadora Acadêmica na Universidade Anhanguera de São Paulo – Campus Osasco, Professora na Graduação e Pós-Graduação nos cursos de Letras. Desenvolve pesquisa nos grupos GPDG/USP, GPS/UFU, Projeto Tesouro de do Léxico Patrimonial Galego Português cuja sede é a Universidade de Santiago de Compostela-ES.