Apenas homens pensam?

Tanto a identidade genética entre os sexos, quanto as qualidades que os diferem, são de grande valia para explorarmos outras dimensões do conhecimento humano

Por Marcos H. Camargo* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Com a pretensão universalista de abarcar toda a ciência humana, nunca houve qualquer campo do conhecimento em que a tradição filosófica não se fizesse presente, com a evidente exceção dos assuntos relativos à mulher. Uma das curiosidades mais espantosas que assombra o mundo da Filosofia é o completo e suspeito silêncio acerca do pensamento feminino e da mulher como pensadora. Todos os filósofos centrais da história oficial do pensamento são homens e tratam os temas femininos exatamente como o senso comum e vulgar de sua época, sem empreender qualquer reflexão mais ampla sobre o pensamento da mulher ou sobre a mulher como objeto de reflexão.

É certo que grande parte desse desprezo para com o pensamento feminino tem fundo religioso, devido à incestuosa promiscuidade entre a Filosofia ocidental e a Teologia judaico-cristã, desde o princípio desta Era. “A maioria dos doutrinadores cristãos, dos chamados membros da Patrística, migrou de algum movimento filosófico para o Cristianismo”. Com a rápida neoplatonização do pensamento cristão, observou-se desde muito cedo seus efeitos colaterais deletérios, dentre eles, a reprovação incondicional do corpo humano, a condenação da mulher e o banimento do pensamento feminino.


Naturalização do machismo

Também é sabido que a tradição machista do pensamento cristão não é devida apenas a seu idealismo neoplatônico, ela também se encontra em quase toda a história cultural dos povos. Reza a lenda que o deus Brahma criou a primeira mulher e lhe concedeu o nome de Sarasvati; ela lhe deu um filho por nome de Manu, que se tornou o pai da humanidade e grande legislador. Os livros oitavo e novo do Código de Manu legislam assim sobre a mulher: “Art. 420. Dia e noite as mulheres devem ser mantidas em um estado de dependência por seus protetores; e, mesmo quando elas têm demasiada inclinação pelos prazeres inocentes e legítimos, devem ser submetidas por aqueles de quem dependem à sua autoridade. Art. 421. Uma mulher está sob a guarda de seu pai durante a infância; sob a guarda de seu marido durante a juventude; sob a guarda de seus filhos na velhice; ela não deve jamais se conduzir à sua vontade”.

Ainda hoje, quando os judeus ortodoxos recitam suas preces matinais diárias, nunca se esquecem de agradecer a Javé: “abençoado seja Deus, Rei do universo que não nos fez mulher”. A graça que os judeus e muitos cristãos julgam ter recebido dos céus por terem nascido homens e escapado da má sorte de ser mulher certamente tem a ver com o que diz o texto bíblico: “O pecado começa com a mulher e, graças a ela, todos nós devemos morrer”.

 

Aristóteles (384 a. C.-322 a. C.), próximo à tradição de sua época, sustenta que a natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. Para este importante filósofo grego, a mulher é um espécime humano defeituoso e inferior. Seria o caso de se perguntar a Aristóteles porque a natureza erra tanto a ponto de criar uma humanidade com número tão elevado de mulheres?

Paulo de Tarso, em sua primeira carta a Timóteo, dá a seguinte orientação: “Pois não permito que a mulher ensine, nem que tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio”, assim como em sua primeira carta aos Coríntios: “conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina. […] para a mulher é vergonhoso falar na igreja”. Tomás de Aquino (1225-1274), refletindo o pensamento de Aristóteles em sua Suma Teológica, questão 92, diz com todas as letras no artigo primeiro: “A mulher é defeituosa e bastarda, pois o princípio ativo da semente masculina tende a produzir homens gerados à sua perfeita semelhança. A geração de uma mulher resulta de defeitos no princípio ativo”.

 

Análise desnuda do feminismo

No ocidente, muito raramente o pensamento filosófico de uma mulher chegou a gozar de boa reputação entre a comunidade de pensadores. Pelo contrário, até mesmo os grandes filósofos incensados pela historiografia oficial, fazendo coro a religiosos e hierarcas de todas as épocas, jamais desconfiaram que a mulher fosse um indivíduo pensante. “A mulher é declarada civilmente incapaz em qualquer idade: o marido é seu curador natural. […] as mulheres não defendem pessoalmente seus direitos, nem exercem por si mesmas seus deveres cívicos-estatais, mas somente mediante um responsável, assim como tampouco convém a seu sexo ir à guerra, e essa menoridade legal no que se refere ao debate público a torna tanto mais poderosa no que se refere ao bem-estar doméstico: porque aqui entra o direito do mais fraco, que o sexo masculino, já por sua natureza, se sente convocado a defender”.

O solteirão e celibatário Immanuel Kant (1724-1804) ainda tentou um falso elogio à mulher concedendo a ela o duvidoso poder de reinar sobre o lar, tal e qual o senso comum de todas as épocas. Georg W. F. Hegel (1770-1831), por seu turno, no livro Princípios da Filosofia do Direito (1821), declara que a diferença entre homens e mulheres é a mesma que se dá entre um animal e uma planta, sendo que o temperamento animal é masculino, e o da planta, feminino. Segundo este filósofo de Stuttgard, o pensamento da mulher é indeterminado pela sensibilidade e torna-se um perigo quando esta decide segundo suas inclinações emocionais, ao contrário do homem, que age segundo a universalidade exigida pelo governo do Estado.

E o mais interessante a registrar é que o mesmo Friedrich Nietzsche (1844-1900), que rompe com a filosofia socrática, desmonta toda a tradição metafísica platônica e dá início à mais radical de todas as revisões epistemológicas da Filosofia ocidental, não consegue ultrapassar o mais venal senso comum acerca do mundo feminino. Segundo o criador de Zaratustra, a mulher “aprende a odiar à medida que desaprende a fascinar. […] Onde não está em jogo nem o amor nem o ódio, as mulheres são medíocres artistas”. Este filósofo também acredita que o pensamento é incompatível com a maternidade, e quando uma “mulher tem veleidades literárias, eis um índice de qualquer afecção da sensualidade. A esterilidade predispõe a uma certa virilidade do gosto…”.

 

Friedrich Nietzsche

Adversários em pensamento, Kant e Nietzsche, ao menos em relação a um assunto coincidem perfeitamente: a inferioridade da mulher. Vejamos suas histórias de vida: eles não se casaram e, ao que parece, tudo o que aprenderam a respeito da mulher foi com suas mães, com seus livros e as tradições de seu tempo (!). O primeiro viveu seus oitenta anos de vida em castidade; o segundo chegou a pedir a mão de Lou Andrea Salomé (1861-1937) em casamento, que, ao recusá-lo, parece ter-lhe acentuado a misoginia. Ambos não mantiveram qualquer relação madura com uma mulher sexualmente ativa, mas só conviveram com estereótipos femininos.

Os filósofos, em geral, parecem nunca ter sido realmente amigos da mulher. Com exceção de alguns sofistas e epicuristas, que chegaram a compreender a especificidade do pensamento feminino, os pensadores da Antiguidade clássica, helenística, romana, medieval, renascentista e moderna apenas refletiram a cultura de seu tempo, quando a mulher não tinha posição de grande destaque na sociedade.

É óbvio que, desde sempre, a mulher produziu pensamento de qualidade em todas as áreas do conhecimento, mas isso foi constantemente negligenciado, ignorado ou menosprezado pelo pensamento oficial. Quando o Cristianismo se aliou ao poder imperial romano no quarto século desta Era, a reflexão passou a ser privilégio dos padres da Igreja – e nem é preciso comentar que o já mínimo espaço dado à mulher no estertor do mundo greco-latino desaparece completamente da ordem do pensamento cristão. Com o fim do medievo, a situação não melhorou para a mulher, pois a Modernidade cartesiana jamais compreendeu a contribuição feminina ao embate dialético entre razão e sensibilidade humanas.

Apenas com as feministas, no último quarto do século XX, a contragosto dos pensadores masculinos, a mulher começa a se imiscuir no mundo machista da reflexão filosófica. Ainda hoje, contudo, a Ciência e a Filosofia ocidentais formam uma Escolástica completamente falocrática. Prova disso é o fato de que, até o ano de 2016, as mulheres respondem por menos de 5% dos agraciados com o Prêmio Nobel. Em mais de cem anos, apenas duas mulheres receberam o Prêmio Nobel de Física.

 


Quando a Filosofia é entendida como teoria do conhecimento, dá-se o direito de dizer o que é o conhecimento humano, mas o olhar falocêntrico do filósofo não consegue enxergar ciência além de seu próprio sexo.

 

 

A mulher e a Estética

Uma das mais distintas evidências de que o pensamento do macho humano não tem condições de alcançar a tão propalada universalidade que sonha para seus conceitos reside no fato de que sua Filosofia não consegue compreender o campo da Estética nos termos de sua racionalidade. A mesma incapacidade que o pensamento falocêntrico tem de entender a Estética sem conceituá-la, curiosamente se repete na ideia que o filósofo masculino faz acerca da mulher como fenômeno do mundo.

Em primeiro lugar, o homem se recusa a lidar com a peculiaridade da razão feminina e trata a mulher como uma coisa entre outras, tornando-a um objeto que não dispõe de suficiente racionalidade. Oblitera o pensamento sensível da mulher e denuncia a incompatibilidade entre a intuição desta e a virilidade dos conceitos filosóficos. Ao desterrar a mulher para os confins da paixão e da sensibilidade, o homem nega a importância desse viés cognitivo, que o universo ­feminino desenvolve por meio de um pensamento experimental e estético.

O filósofo talvez seja o mais machista entre os homens. Praticamente estéril – como disse Nietzsche –, a subjetividade do filósofo é um deserto. Seu ego é atômico (de onde vem a crença masculina no uno, unidade, univocidade e não-contradição). Não tendo como se dividir psiquicamente, nem sequer consegue compartilhar de si com os outros – talvez por isso a “cabeça” masculina seja tão clara e distinta –, um vazio em busca de sentido, que lhe empresta a excepcional facilidade para abstrair. Por ser menos complexa, a mente masculina não experimenta conflitos identitários de imagem, o que lhe permite se maravilhar com a univocidade de seu raciocínio – o homem se sente sempre aquilo que ele pensa que é!

 

Paulina: entenda o conceito filosófico do filme

Ao temer a natural ambiguidade de sua psiché, dividida entre atitudes lógicas e estéticas, o homem experimenta uma grande angústia. Por esse motivo, sempre tenta fazer de sua personalidade um monobloco indivisível. Ao contrário, a mulher vive em si mesma com, no mínimo, duas subjetividades, por vezes até conflitantes: juntamente com seu próprio ego individual e singular, ela comporta outra subjetividade que lhe é posta pela biologia da espécie, a de ser agente do banco genético da humanidade, o meio de reprodução da espécie.

Esta segunda subjetividade, que compõe a psiché feminina, faz da mulher a casa do conflito existencial, emocional e psicológico, que lhe permite conceber o pensamento por perspectivas nunca alcançadas pelo raciocínio monológico do macho. Por isso, a mulher tem mais facilidade para desenvolver pensamentos híbridos acerca de si e do outro. Vendo-se como indivíduo e, ao mesmo tempo, como máquina biológica de interesse público, a mulher transita entre a consciência e o inconsciente (ipseidade) com muito mais facilidade, a ponto de ter um entendimento mais íntimo da fusão cognitiva entre sujeito e objeto, entre inteligível e sensível, entre lógica e estética. Mas, contabilizada pela tradição tão somente como serviçal da espécie, a mulher é constrangida e pilhada de seus plenos direitos à individualidade, devido ao compromisso a ela imposto pela sociedade de ser a garantia e a promessa de sobrevivência do grupo.

 

Sociologia: Masculinidade hegemônica e representatividade

Em variados graus, cada sociedade concede à mulher apenas uma pseudoindividualidade que limita sua completa autarquia pessoal, enquanto reafirma sua imagem social na forma de um maquinário biológico de uso geral, sob a administração do patriarcado, do clã, da religião e do Estado.

Esse controle arbitrário e alienador se impõe mais exatamente às funções biológicas vinculadas à reprodução. Por isso mesmo, é comum em todas as culturas as mais diversas formas de obstrução (e até mesmo de negação) dos direitos individuais da mulher, na medida em que seu corpo é tomado como responsabilidade política de toda a coletividade.

Não é à toa a enorme resistência que a tradição impõe contra leis que reservam à mulher o direito exclusivo sobre a gestação. O fato de que somente as mulheres possuem úteros faz com que toda tradição, de qualquer cultura humana, nutra algum tipo de temor, desconfiança e até mesmo ódio do sexo feminino, cobrindo-o com maldições, desprezo e condenações, que são abundantes nas narrativas dos livros religiosos, filosóficos e tradicionais. Tudo isso porque a história e até mesmo a glória de todo homem deve passar obrigatoriamente por entre as pernas da mulher.

 

 
Diferentemente do macho humano, cuja individualidade lhe confere um senso de unidade física, psicológica e emocional, a mulher luta desde sempre para se apropriar de seu próprio corpo, que, por diversas formas, lhe é alienado e colocado a serviço da descendência. Entender-se como uma pessoa esgarçada, com a psicologia dividida entre ser um indivíduo de plenos direitos e ser um objeto impessoal, destinado, à sua revelia, para o benefício da espécie, produz uma fissura psicológica na mulher, da qual o sexo masculino não tem a menor noção. Essa subjetividade bifurcada, de caráter dialético, que habita cada ser humano do sexo feminino, torna sua psiché muito mais complexa, multiforme, sofisticada e indefinida em relação ao monopsiquismo masculino.

Certamente, é por isso que a reflexão filosófica masculina sempre qualificou o pensamento da mulher como dispersivo e incapaz de alcançar a ideia de unidade na multiplicidade ou de entender a abstração da multiplicidade em favor da univocidade da essência universal. Blábláblá! A estéril tagarelice intelectual dos machos pensadores.

Os meandros labirínticos do pensamento polissêmico da mulher sempre serão obscuros e confusos para a cultura falocrática da filosofia. A mulher, por ter as mesmas condições cognitivas dos homens, está apta a elucubrar conceitos com a mesma desenvoltura de qualquer pensador masculino. Porém, ela desenvolve mecanismos intelectuais mais afeitos a conjugar a racionalidade dos silogismos abstratos com a sensualidade dos afetos concretos que se comunicam por meio dos corpos vivos.

 

Sociologia: Mulheres no poder

Forçada a encarar a materialidade dos corpos humanos que emergem de seu próprio corpo, a mente feminina sempre foi capaz de desconfiar das melindrosas especulações abstracionistas que têm grande valor para o pensador masculino. O pensamento feminino, no sentido oposto, é um mar atormentado por conflitos inteligíveis e derivas estéticas os quais o macho humano é incompetente para perceber, e portanto, criticar ou tomar como objeto de reflexão filosófica.

O pensamento feminino se conecta mais facilmente com a carne semovente do mundo, ao mesmo tempo que compreende conceitualmente esse devir em uma linguagem híbrida, que só recentemente a tecnologia da informação vem tornando possível.

Pode, então, o pensador tradicional imaginar-se criador de conceitos universais sem sequer vislumbrar o modo de pensar experimentado pela outra metade da humanidade – a mulher? Como o olhar feminino em direção ao mundo pouco foi levado em conta até hoje, o pensamento filosófico ignora ao menos outra importante forma de inferir conhecimentos acerca do real. Enquanto for majoritariamente masculino, o conhecimento filosófico não pode alegar universalidade.

A primeira grande diversidade irredutível a conceitos e impenetrável ao pensador masculino é a mulher. O feminino é o diverso que mais incomoda o pensador masculino, porque a sensibilidade feminina não pode ser convertida a uma identificação genérica pelos conceitos.

A tradição masculina do pensamento sempre temeu e condenou aquilo que não podia conter em ideias abstratas; sempre evitou abordar ou reconhecer o que não podia ser generalizado, classificado, compreendido e definido em qualidades essenciais de um conceito. A dor, o gozo, a alegria e a angústia da existência humana são arenas nas quais a razão masculina falha, enquanto aponta tais manifestações como demasiado humanas, refugos sensoriais que não merecem a atenção da ilustração – seriam os campos da obscuridade e da confusão afetivas próprios do mundo feminino.

O que a tradição filosófica masculina entende como reflexão só tem a ver com a virilidade sólida, rígida e objetiva do pensamento intelectual, que visa penetrar falicamente a substância das coisas, para fecundá-las com interpretações categóricas, fazendo germinar no útero da razão os conceitos de feições antropológicas, que se dão à luz para transcender o mundo e dominar a realidade.

O caminho da identidade escolhido pela reflexão masculina mesmifica, homogeneíza e aplaina as diferenças de fato existentes no mundo, tornando-se um olhar mortal sobre a vida.

 

 

Sexo e Filosofia

Segundo Stephen Pinker, a “neurociência, genética, psicologia e etnografia estão documentando diferenças entre os sexos que quase certamente se originam da biologia humana”. Mas, a desigualdade biológica entre os sexos não contradiz a realidade da extrema semelhança genética de nossa espécie, embora forneça uma rica oportunidade de colher dessa diversidade várias formas de ver o mundo. As diferenças entre os sexos masculino e feminino não devem ser apagadas, mitigadas ou hostilizadas, de modo a falsificar uma igualdade ideológica, mas explicitadas com o objetivo de ampliar toda experiência cultural da humanidade, para que o respeito à diversidade entre os sexos produza múltiplos olhares, capazes de ampliar os recursos cognitivos à disposição da humanidade. “Porque as pessoas têm tanto medo da ideia de que as mentes de homens e mulheres não são idênticas em todos os aspectos? […] O medo, evidentemente, é que diferença implique desigualdade – de que se os sexos diferem em qualquer aspecto, os homens teriam de ser melhores, ou mais dominantes, ou ficar com toda a diversão. […] [Mas] a seleção natural tende a um investimento igual dos dois sexos: números iguais, igual complexidade de corpos e cérebros, organizações igualmente eficientes para a sobrevivência. […] Homens e mulheres possuem todos os mesmos genes, com exceção de um punhado no cromossomo Y, e seus cérebros são tão semelhantes que é preciso um neuroanatomista com olho de águia para encontrar as pequenas diferenças entre eles”.

 

Até a baixa Modernidade, ainda pensávamos que o caminho da igualdade social, econômica, política e jurídica entre homem e mulher seria a única forma de resgatar o mundo feminino de seu lugar impróprio e garantir direitos até então vedados à mulher. Embora a promoção da cidadania feminina ainda seja uma luta importante e decisiva, neste princípio de século XXI tem se investido também no respeito às diferenças entre a mulher e o homem.

 

As mentes de homens e mulheres não são idênticas. Estudos recentes sobre as diferenças entre os sexos convergiram para algumas características dignas de nota: os homens têm mais probabilidade de competir violentamente pelos seus interesses, mais habilidade em manipular mentalmente coisas tridimensionais; elas, por sua vez, são melhores em lembrar a posição espacial dos objetos, são melhores em fazer cálculos, mais sensíveis a sons e odores, tem melhor percepção de profundidade, mais fluência e memória para material verbal, fazem correspondência entre as formas mais depressa e são muito melhores na leitura de expressões faciais e da linguagem corporal.

Duas dessas características diversificantes se provam promissoras: diversos estudos cognitivos têm atribuído à mulher grande facilidade em cálculo e mais fluência verbal, que parecem habilitá-las mais à Ciência e à Filosofia. Seria o caso de se imaginar o quanto as pesquisas se tornariam mais ricas e desenvolvidas caso fossem desde sempre abertas à participação da mulher.

 

 

Filosofia masculina

O pensamento tradicional alimenta a imagem de que todo filósofo é um crítico desinteressado, assexuado, incorpóreo e racional, insistindo na falácia epistemológica da neutralidade de gênero. Em vista dessa ingênua crença, os homens filósofos pensam que a reflexão crítica que eles produzem não é influenciada por seus corpos físicos, permitindo-lhes ser observadores externos da cena humana e, por assim dizer, despidos de sua sexualidade no ato da reflexão. Creem pensar não como machos da espécie humana, mas como mentes universais abstratas.

 

O conceito de minoria

O chauvinismo filosófico deplora a capacidade do pensamento feminino em promover um convívio frutífero entre a razão e a sensibilidade, já que, para a tradição do pensamento, qualquer miscelânea ou miscigenação é sempre perigosa e deletéria para a clareza e distinção dos conceitos. Assim, condenam a reflexão feminina, acusando a falsidade e a precariedade de seu ecletismo ou, pior dos pecados, denunciando o viés emocional de suas ponderações.

 

O idealismo da tradição sempre será misógino. Abstrações são incompatíveis com a cornucópia biológica da realidade do mundo. Atualmente, no entanto, tornou-se urgente denunciar a falsa superioridade do pensamento masculino. Ao contrário, o pensamento feminino revela-se muito mais rico do que o masculino, devido ao fato de a mulher tanto alcançar quaisquer níveis de raciocínio lógico desenvolvido pelo homem, como também exceder as capacidades masculinas ao obter conhecimentos eficientes a partir da sensibilidade e da percepção educadas pela experiência da vida feminina.

 

 

O pensamento feminino

Bem ao contrário do mundo das ideias perfeitas, sonhado e cultivado por homens pensadores que julgaram domesticar o real pela força mesmificadora do conceito, o pensamento feminino sempre atribuiu à carne de seu corpo o fundamento de qualquer forma de conhecimento humanamente factível. A mulher sempre soube que de suas entranhas provém a encarnação do homem, que por sua vez não pode pensar sem a carne que o constitui – a mesma carne que a mulher alimenta em seu ventre, cresce e se desenvolve em meio à violenta fluidez do real.

Por saber sentir mais do que o homem a dor dessa concepção mortal, a mulher conhece a dialética natureza insensata do devir e sempre soube mais que o homem acerca da completa falta de sentido em que o real existe no eterno conflito. “Todo vir a ser se faz da guerra entre os opostos: as qualidades definidas, que a nós parecem persistentes, expressam apenas a preponderância momentânea de um dos combatentes, mas a guerra não termina com isso; a contenda continua pela eternidade. Tudo ocorre conforme a luta, e é ela mesma que explicita a justiça eterna”.

 


O fato de sua natureza biológica lhe permitir gerar uma vida geneticamente diversa de seu próprio corpo faz da mulher um campo de batalha entre corpos, que se atraem e se misturam para, em seguida, se distanciar e se estranhar. Essa natureza diametral faz do pensamento feminino uma cognição estética. Desde sempre, a psiché feminina acostumou-se à inescrutável criação da vida e do efêmero. A mulher, portanto, possui a subjetividade única fendida, capaz de enxergar esteticamente tanto os conceitos abstratos da razão como o fenômeno sensível de um mundo cuja inferência só é possível a quem experimenta a paixão de um afeto que atinge sua carne cognoscente. A mulher pensa na encruzilhada dialética entre a Lógica e a Estética.

Se a Filosofia não se renovar agora para recepcionar o pensamento não-verbal, feminino e estético, ampliando seu modo de entender o mundo, a reflexão filosófica será definitivamente superada pela explicação tecnocientífica dos fenômenos, que vem se tornando bem mais eficiente ao justificar a dinâmica dos novos processos de apresentação e representação do real na cultura contemporânea.

 

 

*Marcos H. Camargo é pós-doutor pela UFRJ e doutor em Artes Visuais pela Unicamp. Professor adjunto da Universidade Estadual do Paraná. Autor do livro Cognição Estética: o Complexo de Dante (Annablume, 2013).

marcoshcamargo@yahoo.com.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 123