Animais para entretenimento?

Por Daniel Borgoni* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

No dia 06 de outubro de 2016, o Supremo Tribunal Federal proibiu a vaquejada, evento que acontece no nordeste do Brasil no qual homens montados em cavalos devem derrubar bois dentro de uma faixa de areia puxando-os pelo rabo. Isso repercutiu nos meios de comunicação de massa e argumentos pró e contra essa medida judicial foram levantados. De um lado, quem protestava contra essa decisão alegava que a vaquejada era uma manifestação cultural e movimentava economicamente a região. De outro, quem era a favor da proibição afirmava que os animais sofriam muito com essa atividade a ponto de, no limite, terem as peles dos seus rabos arrancadas.

O debate que se estabeleceu na sociedade trouxe a tona questionamentos sobre o modo como agimos em nossas relações interespecíficas, isto é, aquelas que mantemos com os animais não humanos. Desde relações que envolvem afeto até aquelas em que os tratamos como objetos, muitas delas demandam uma reflexão urgente e a vaquejada é uma destas.

É fato que por serem seres sencientes como nós, isto é, capazes de sentir dor e prazer, os bois sofrem ao terem os seus rabos puxados com tamanha brutalidade. Se o sofrimento tem relevância ética, precisamos nos perguntar se a vaquejada (e atividades afins como rodeios e touradas) está eticamente justificada, ou seja, se nós estamos agindo corretamente ou não.

 

Avaliação

Se submetermos o modo como agimos com os bois na vaquejada ao princípio da igual consideração de interesses, evidencia-se que nesta atividade interesses menores são colocados acima de interesses maiores. Isso ocorre porque o entretenimento e o giro econômico que a vaquejada proporciona têm menos relevância moral do que a dor e os ferimentos que ela causa aos animais, uma vez que o sofrimento é um interesse fundamental a ser respeitado. Tendo em vista que os interesses por trás da vaquejada não valem tanto quanto o interesse de não sofrer de um animal, as alegações favoráveis à continuidade da vaquejada não são justificáveis. De forma mais clara, esta atividade viola o direito dos animais.

Uma vez que nós causamos muito sofrimento aos outros animais nas touradas, rodeios e circos, e que os motivos oferecidos para a continuidade destas práticas são os mesmos dos que defendem a vaquejada, a conclusão que chegamos acima se aplica a todas essas atividades, isto é, não é razoável que elas continuem.

 

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*Daniel Borgoni é doutorando em filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Atualmente faz estágio de pesquisa na Université du Québec à Montréal.

Adaptado do texto “Animais para entretenimento?”