Você pensa sobre o seu trabalho?

Uma análise da consciência humana sobre o trabalho sob a perspectiva do pensamento de Hannah Arendt

Por Tania Azevedo Garcia | Adaptação web Isis Fonseca

Reflexão sobre trabalho humano

“Sou um idealista, um homem que vive para as suas ideias. Nunca permiti que minhas emoções e sentimentos interferissem em meu trabalho. Nunca recebi uma medalha de reconhecimento, apesar de ter desenvolvido um sistema logístico da mais alta eficiência. Era uma bela linha de montagem. Para cumprir minhas tarefas, eu mandaria meu próprio pai para a morte, mas que fique claro: eu nunca matei ninguém”.

As frases acima resumem a defesa do nazista Otto Adolf Eichmann em seu julgamento em Jerusalém entre os anos de 1961 e 1962.

Funcionário dedicado, eficiente, comprometido: qualidades exigidas no mercado de trabalho na atualidade. Provavelmente ele seria aprovado num processo seletivo e promovido numa organização pela sua dedicação, competência e eficácia.

Realmente ele nunca matou ninguém, mas seu trabalho levou aos campos de concentração um número imenso de judeus durante o período de 1938 até o final da segunda guerra mundial ao criar uma logística de emigração em Viena, que se tornou referência para todo o Reich, abastecendo os cofres do sistema nazista, mediante o sequestro de bens e a deportação em massa daquele povo.

Mas o que um burocrata nazista e suas atitudes têm a ver com o tema em questão? Um dos assuntos que mais me intrigam em minha carreira profissional como professora e consultora organizacional é o fato de identificar, com razoável regularidade, a forma mecanicista como as pessoas administram seus trabalhos, suas carreiras e, especialmente, como gerenciam outras pessoas.

Estamos todos vivendo numa mesma engrenagem de produção capitalista e, como uma máquina, apenas reproduzimos o que nos foi determinado ou o que parece ser a lógica da produção.

Não questionamos o que estamos fazendo, não refletimos se a forma como conduzimos os processos são realmente necessários e, desta feita, prejudicamos nossas relações no trabalho, afetando, por vezes, a nossa saúde mental e das pessoas com as quais trabalhamos.

Para refletir sobre essa questão me inspirei nas contribuições realizadas por Hannah Arendt em A condição Humana (2016) e Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (2015). Outros diferentes autores também nos acompanharão nessa trajetória.

Labor, trabalho e ação

Vita activa é um conceito fundamental na obra de Hannah Arendt. Ele significa tudo o que o homem faz para tornar o mundo humano. A vita activa se constitui de três atividades: labor, trabalho e ação, sendo essa última a única a qual o homem depende exclusivamente da convivência com outros homens.

O labor está conexo ao processo biológico de sobrevivência do homem e da espécie. Neste
conceito está implicada a sua condição vital, com o fim exclusivo de manter-se vivo. Não existe diferença.

Este ciclo, que termina com sua morte, é sustentado pelo consumo, que visa exclusivamente a sua sobrevivência, assim como o é para outros animais.

Com o trabalho, o homem vence a natureza e produz objetos que transformam a sua vida na terra, em virtude de sua criatividade, inquietude, necessidade e inventividade. O indivíduo que trabalha e consome é denominado por Hannah Arendt de animal laborans.

Labor, trabalho e ação

O maior sofrimento do animal laborans consiste na eterna luta pela sobrevivência. Dedicação
constante no atendimento de demandas que nunca findam. O trabalho, como sofrimento, foi muito bem ilustrado por Albert Camus (2008) na correlação que ele estabelece com o mito de Sísifo de Homero.

Condenado pelos deuses a carregar uma pedra morro acima por toda a eternidade e deixá-la rolar para, novamente, carregá-la até o topo da montanha é a alegoria que aponta o trabalho do animal laborans.

O que minimiza esse sofrimento humano é o trabalho desenvolvido pelo homo faber, que cria, fabrica e produz instrumentos que, além de atenuar o sofrimento do esforço humano, cria uma obra que, de certa forma, representa a sua imortalidade, mesmo que parcial, pois a obra tem o seu desgaste natural.

O homo faber, assim, desenvolve uma característica utilitária e instrumental, que, por vezes, degrada a natureza, produzindo por meios e fins que muitas vezes não se justificam.

“O tempo excedente do animal laborans jamais é empregado em algo que não seja o consumo, e quanto maior é o tempo de que ele dispõe, mais ávidos e ardentes são os seus apetites.

O fato de que esses apetites se tornam mais sofissticados, de modo que o consumo já não se restringe às necessidades da vida, mas, ao contrário, concentra-se principalmente nas superfluidades da vida, não altera o caráter dessa sociedade, mas comporta o grave perigo de que afinal nenhum objeto do mundo esteja a salvo do consumo e da aniquilação por meio do consumo” (ARENDT, 2016. p. 165).

O estado atual de degradação em que se encontram algumas regiões do planeta Terra na atualidade poderia ser explicado por essa transformação desordenada promovida pelo animal laborans e pelo homo faber.

Situação acentuada pela produção em larga escala decorrente da aplicação dos pressupostos da administração científica proposta por Frederick Taylor (2010) no final do século XIX, o que explica em grande parte o fenômeno consumista, o sucesso do capitalismo e a exploração do trabalho humano na
modernidade.

A ação é a atividade mais importante para a autora e representa a pluralidade humana, que possui dois aspectos, o da igualdade e o da distinção. Se não fossemos iguais não nos compreenderíamos, não poderíamos entender as nossas necessidades passadas e futuras. Mas ao mesmo tempo somos diferentes, o que torna imperativo o espaço da discussão e do debate.

Na pólis, o homem reconhece a sua própria identidade e a do outro, possibilitando a construção de um bem comum. Como numa teia afetamos as histórias de vida de todos os que entram em contato conosco e somos, igualmente, afetados.

“A rigor, a pólis não é a cidade-estado em sua localização física; é a organização das pessoas tal como ela resulta do agir e falar em conjunto, e o seu verdadeiro espaço situa-se entre as pessoas que vivem juntas com tal propósito, não importa onde estejam” (ARENDT, 2015 p.246).

Entretanto, a modernidade traz consigo a obsessão pelo lucro, busca a maximização da produtividade e inspira a competição, tornando o diálogo e o real reconhecimento da existência do outro quase que uma utopia.

A glorificação do trabalho

Adriano Correia prefaciando A Condição Humana (Arendt, 2016) descreve que Karl Jaspers quando leu a versão alemã deste, que nela foi intitulada Vita Activa, comentou que a obra explicita conceitos e coisas as quais a autora não fala sobre elas, mas que nos fazem refletir sobre “o que estamos fazendo”.

Na Grécia antiga, o trabalho era destinado aos escravos, sendo a escravidão considerada por Aristóteles um fenômeno natural. Segundo Platão, o cidadão não deveria se dedicar a ele, por considerá-lo uma atividade inferior. “Todo cidadão devia abster-se de profissões mecânicas e da especulação mercantil: a primeira limita intelectualmente e a segunda degrada eticamente” (BORGES, 2004.p.28).

A política, portanto, não era considerada um “trabalho”, mas uma atividade “superior”. A partir da revolução industrial, da aplicação dos métodos científicos propostos por Taylor na forma de produção e o surgimento do capitalismo, muitas mudanças ocorreram na vida do homem e de toda a sociedade.

A revolução industrial possibilitou ao animal laborans a diminuição do esforço físico, já que a máquina agora desempenha o papel manual antes destinado ao homem.

Os princípios básicos da administração científica preconizados por Taylor (2010), como: planejamento do trabalho; concentração de poder e controle nas mãos do gerente; seleção e treinamento do trabalhador; fragmentação das tarefas; aplicados nas indústrias possibilitaram a produção em larga escala.

O capitalismo vinculado à ética protestante criou as bases ideológicas para a glorificação do trabalho. Em 1748, Benjamin Franklin, presidente americano, imbuído de seus preceitos religiosos, aconselhava aos homens de negócios que tempo era dinheiro; crédito é dinheiro e dinheiro produtivo se multiplica.

Pregava a respeito da retidão e da pontualidade nos negócios. Princípios econômicos que ilustram bem a relação entre ética protestante e capitalismo. O trabalho e a vocação passam a ser valorizados como uma benção divina.

Ditos e provérbios populares como “Deus ajuda quem cedo madruga”; “o trabalho é a fonte de todas as riquezas”; “treine enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham” denotam a glorificação que o trabalho passa a ter e sua conexão com o sucesso, mais facilmente evidenciado a partir do século XIX.

Para Arendt: “a súbita e espetacular ascensão do trabalho, da mais baixa e desprezível posição à mais alta categoria, como a mais estimada de todas as atividades humanas, começou quando Locke descobriu que o trabalho é a fonte de toda propriedade.

Prosseguiu quando Adam Smith afirmou que o trabalho era a fonte de toda riqueza e atingiu seu clímax no sistema do trabalho de Marx, no qual o trabalho passou a ser a fonte de toda produtividade e a expressão da própria humanidade do homem” (ARENDT, 016. p. 124.).

A modernidade então traz consigo a ideia do utilitarismo, da centralidade do trabalho na vida, do cumprimento do dever e de soberania do homem sobre a natureza, que passa a fazer dela o que bem lhe aprouver.

O princípio de felicidade associa-se à quantidade de dor que o homem consegue suprimir e do prazer que obtém de sua produção e das coisas que pode consumir.

Todo esse processo implicou em mudanças na sociedade, como o crescimento dos grandes centros urbanos; a concentração de muitas pessoas nas fábricas e o crescimento das cidades no entorno delas; a concentração do capital nas mãos de uns poucos; a criação de bens de consumo, nem sempre necessários; intenso desenvolvimento tecnológico e científico. Mas trouxe consigo também consequências para a saúde do trabalhador.

Saúde mental no trabalho

No filme “O corte” (2005), o diretor Costa Gavras, de forma bastante peculiar, nos conta a história de um homem que perde seu emprego, em plena crise econômica na França.

Após dois anos desempregado e sem motivação para outro trabalho que não seja aquele ao qual ele havia sido desligado, o protagonista encontra uma saída inusitada para reconquistar o emprego perdido.

Ele cria uma forma de captar possíveis candidatos à vaga desejada, com o objetivo de eliminar seus concorrentes.

Ele os persegue e literalmente os mata. Desenvolvendo explícita correlação entre capitalismo e adoecimento psíquico, o roteiro de Gavras nos leva a refletir se o trabalho provoca ou precipita o adoecimento?

A Psicologia tem trazido contribuições significativas na tentativa de responder a essa questão. Christophe Dejours (1987), em seu seminal A loucura do Trabalho, traz reflexões importantes sobre o adoecimento no contexto de produção.

Em A Psicodinâmica do Trabalho ele nos relata que o prazer é a essência do trabalho e a evitação do sofrimento faz parte da condição humana.

Uma das formas mais saudáveis de se minimizar o sofrimento seria através de estratégias de mobilização coletiva.

Os sujeitos criam modos de agir em coletividade, através do espaço público da discussão e da cooperação. Espaços cada vez mais exíguos quando falamos em organizações que primam prioritariamente pela competividade.

Metas ousadas, reestruturação, crise econômica, o medo de perder o emprego, são algumas das causas que podem fazer emergir o adoecimento psíquico e levar a depressão no trabalho a quadros epidemiológicos.

Le Guillant (2006), na vertente da sociogênese, trabalha com a ideia de que o homem é um ser biopsicossocial, não existindo supremacia de um sobre o outro.

A individualidade se constrói na relação com o meio. Sob essa perspectiva, o autor acredita existir nexo causal entre trabalho e adoecimento psíquico.

Saúde mental no trabalho

Segundo Boletim Quadrimestral sobre Benefícios por Incapacidade1, divulgado pelo governo federal em 26 de abril de 2017, estresse e transtornos mentais são a terceira maior causa de afastamento no trabalho no Brasil nos últimos quatro anos.

O que endossa a tese de relação causal entre trabalho e saúde/doença mental. A centralidade do trabalho na vida do homem na modernidade acaba por afirmar a ideia de sua importância na formação da identidade social do sujeito.

Eu sou alguém porque trabalho. Minha identidade está colada à minha formação e à minha produção. Quanto mais eu produzo, mais valor eu tenho na sociedade moderna.

Quando descreve os principais atributos de personalidade que influenciam o comportamento organizacional, Robbins (2009) apresenta, como um dos atributos, a Personalidade Tipo A.

As pessoas definidas com o perfil tipo A vivem uma luta constante e incessante na conquista de bens materiais. São profissionais que primam seu trabalho pela quantidade que produzem.

São ansiosos, estão sempre em movimento, andando e comendo ao mesmo tempo. Tendem a fazer duas ou mais coisas ao mesmo tempo. Têm dificuldades para lidar com o ócio. São características peculiares aos denominados workaholics.

Em minha experiência profissional tenho observado que a promoção nas organizações tem acontecido com relativa frequência com pessoas com esse perfil, contrariando pesquisas realizadas nos Estados Unidos da América.

Naquele país, em oposição à própria cultura que valoriza a ambição e a competitividade, as promoções costumam ir mais para o que Robbins (2009) denomina personalidade tipo B, perfil característico de profissionais mais hábeis no relacionamento interpessoal, mais criativos, que não sofrem de impaciência e regem seus trabalhos pela qualidade.

Tem-se a impressão de que os workaholics não pensam sobre o que fazem. É tudo tão automático,
mecânico e competitivo!

Não percebem o quanto de estresse desenvolvem à sua volta, afetando a produtividade e a qualidade de vida no trabalho de seus pares e subordinados. O animal laborans aqui parece imperar.

Muitos recursos são utilizados na propagação das ideias de um mundo produtivo, como livros e treinamentos.

A produção literária, especialmente de autoajuda, segundo dados de Nielsen Bookscan2, cresceu 42% em 2015. Os títulos no topo de vendas estão geralmente relacionados a temas ligados ao
sucesso e ao empreendedorismo.

O treinamento nas organizações visa desenvolver competências e habilidades com o intuito da elevação
do desempenho organizacional.

Alguns profissionais que trabalham com treinamento e desenvolvimento organizacional atuam de forma irrefletida, não questionando a filosofia que embasa suas próprias práticas.

Equívocos são cometidos no intuito de obter a maximização dos resultados. É a mecanização  de um processo que deveria ser de reflexão, análise e motivação.

É notório que evoluímos muito em termos de sobrevivência e conhecimento quando se analisa a evolução da economia mundial.

Desde as sociedades extrativista e agrícola, passando pela sociedade industrial até a atual sociedade do conhecimento, segundo Crawford (1994), houve um aumento na expectativa média de vida das pessoas, melhorias nas condições de vida, saneamento e saúde.

Conforme nos aponta Arendt, esses impactos afetaram positivamente a construção do conhecimento. Para ela “a humanidade europeia sabia menos que Arquimedes no século III a.c., ao passo que os primeiros 50 anos de nosso século testemunharam mais descobertas importantes que todos os séculos de história registrada juntos” (2016,p.323).

Contudo, o ritmo de trabalho e as cobranças numa sociedade que, em tese, deveria valorizar o “capital
humano”, acaba por produzir sujeitos doentes imersos num movimento constante e repetitivo de produção, que, muitas vezes, não sabem sequer por que e para que trabalham tanto.

Desde a revolução industrial, o tipo de adoecimento vinculado ao trabalho se transformou muito. Antes, a falta de equipamentos de segurança e a inexistência de legislação que garantisse condições mínimas de saúde levavam muitas pessoas a perderem suas vidas.

As condições físicas melhoraram consideravelmente desde então. Atualmente, menos pessoas se
afastam por lesão por esforço repetitivo. Contudo, mais gente tem adoecido em virtude da depressão no trabalho, que tem sido considerada o mal do século. Onde Eichmann entra nessa história?

O pecado de Eichmann, o pecado de todos nós

Hannah foi convidada pela revista New Yorker a cobrir o julgamento do nazista Eichmann
na cidade de Jerusalém, que ocorreu no ano de 1962. Ela, judia, acabou criando um mal-estar com suas publicações, inclusive com seus amigos e familiares judeus.

Ao analisar a postura do réu e os fatos que se apresentaram durante o julgamento, Arendt chegou à conclusão que Eichmann era apenas um homem como outro qualquer.

Não era a o anjo caído que todos os judeus esperavam e ainda terminou por denunciar a participação efetiva de membros da comunidade judaica no processo de extermínio de seu próprio povo.

Isso não lhe trouxe muitos simpatizantes. Até hoje, muitas de suas constatações referentes ao caso são objetadas por muitos judeus.

Mas certamente ela contribuiu enormemente com a humanidade ao, a partir deste caso, desenvolver toda a sua teoria sobre a Banalidade do Mal. Eichmann não tinha nada de excepcional. Ele simplesmente não pensava.

Nas palavras da filósofa política, como Hannah gostava de ser identificada, ele era “uma pessoa mediana, “normal”, nem burra, nem doutrinada, nem cínica”. Normal como pode ser adjetivada uma pessoa que tem consciência de seus atos.

O fato é que ele não era o único no regime do Terceiro Reich. Ele era um homem simples como outro qualquer e só ficava com a consciência pesada quando não fazia aquilo ao qual lhe ordenavam.

Um cidadão limítrofe, ignorante da própria ignorância e tinha um posto e funções importantes dentro de um sistema que matou mais de seis milhões de pessoas.

Para elucidar, Eichmann se tornou o oficial responsável pela emigração dos judeus. Ele foi condecorado “por seu conhecimento abrangente dos métodos de organização e ideologia do oponente, o
judaísmo” (ARENDT, 2015. p.56).

Seu mérito estava no fato de ter desenvolvido um método de trabalho que agilizou todo o processo logístico de análise e cobrança dos judeus que poderiam ser autorizados a emigrar.

Como numa montadora, o judeu com alguma propriedade ou dinheiro entrava numa porta e, passando de seção em seção, saia do outro lado quase sem dinheiro, mas com o passaporte, que determinava sua saída do país em quinze dias, sob pena de ser enviado para um campo de concentração.

Num mesmo espaço, Eichmann reuniu o Ministério das finanças, a polícia, o departamento do imposto de renda e a comunidade judaica. Desta feita, o sistema se capitalizou muito mais rapidamente.

Como homo faber, Eichmann foi um funcionário brilhante e irrepreensível. Desenvolveu um trabalho digno de nota do ponto de vista do pragmatismo, da dedicação e da eficiência. Qualidades requeridas na maioria dos processos seletivos nas organizações.

Pecado de Eichmann

O paradoxo está no fato de que a complexidade humana, as demandas organizacionais numa economia globalizada, os conflitos internacionais, transcendem o simples processo de produção e consumo. Tem a ver com a ética e com a política.

Para Arendt (2016), a política é o essencial da vida humana. Cabe aqui repetir, no espaço público os homens visam o bem comum da cidade, o bem comum de todos os indivíduos que fazem parte da pólis.

Cada indivíduo tem como foco o todo, sem a supremacia de um indivíduo sobre os outros. Essa visão se torna mais radicalmente utópica numa sociedade capitalista, utilitarista e competitiva, característica da modernidade. O interesse particular é priorizado.

O individualismo se tornou virtude. A existência se conjuga exclusivamente na primeira pessoa. No fillme Um valor de um homem, do diretor Stéphane Brizé, o personagem principal está desempregado e faz cursos de capacitação para conseguir um novo emprego.

A necessidade urge, pois ele tem uma família para sustentar e um filho deficiente mental que inspira cuidados e atenção. Enfim ele consegue um trabalho como segurança num supermercado. Sua função é identificar possíveis clientes ou funcionários que cometem furtos.

Ele passa por várias situações desconfortáveis em entrevistas de emprego e por cursos de postura, de impostação de voz para demonstrar segurança, que nos fazem questionar sobre o que fazemos quando queremos condicionar as pessoas em treinamentos organizacionais.

Alguns modelos de treinamento propostos por profissionais, inclusive da psicologia, às vezes me fazem sentir vergonha pela demonstração de falta de conhecimento, por deficiência técnica e, sobretudo, pela carência de ética.

Parecem esquecer que estão lidando com seres humanos. E que o principal objetivo de uma capacitação, em minha opinião, seria o desenvolvimento da autonomia do sujeito, condição fundamental para que
ele desempenhe suas funções de forma crítica e criativa.

O protagonista é um homem simples, com baixa escolaridade, mas diferentemente de Eichmann, ele é dotado de senso crítico, sensibilidade, decência e ética, ou seja, um homem de valor.

Ele pensa sobre as questões existenciais envolvidas em cada uma de suas atitudes, sejam pessoais ou profissionais. Nos limites de sua função, sua atitude ética denota que temos opções, mesmo quando não exercemos cargos de poder.

O homem é o único ser capaz de interrogar sobre a sua existência. Para a filosofia existencial de Heiddeger (2006), o modo de ser do homem é o da possiblidade e não da realidade. Quando pensamos sobre o que estamos fazendo, desenvolvemos nossa capacidade de pensar, criticar e fazer escolhas.

Enfim, quão alienados nos tornamos quando não questionamos o que fazemos? O quanto isso pode
pesar nas relações que temos com nossos pares ou subordinados e como isso pode repercutir na saúde mental das pessoas? Como animal laborans, para manter nossos empregos precisamos aceitar tudo?

Vejo muitas pessoas cumprindo tarefas e direcionando suas equipes como se máquinas fossem. Muitos respondem às demandas organizacionais sem refletir, pensar ou questionar. Será que a forma e o que está sendo feito são realmente necessários? Existe outra maneira de conduzir a situação?

A atividade de pensar para Arendt, como nenhuma outra capacidade humana é vulnerável. É mais fácil agir do que pensar. Em sua concepção, venceu o animal laborans, vivendo exclusivamente para a sua sobrevivência e de sua família, no ritmo alucinante da modernidade, que não o deixa pensar sobre o que é efetivamente importante em sua existência.

Concluindo, reproduzo aqui uma história muito interessante contada por Rollo May (2009). Certo dia, um rei observando as pessoas na sacada de seu castelo decide fazer um experimento. Ele escolhe um homem comum, livre e dá ordens para colocá-lo numa jaula.

Um psicólogo passa a ser o cientista a analisar o comportamento deste homem. E quão grandes contribuições esta pesquisa trará para a humanidade!

O homem, a princípio revoltado, acaba se conformando à sua nova condição. Ele até agradece ao rei pela comida e estadia. Ele se aliena de tal forma que, de servil, sua expressão passa a ser vazia e sem significado. O homem já não usava a palavra EU.

Refletindo sobre a situação na qual este homem se encontrava, o psicólogo sente um grande vazio. Percebeu que algo havia se perdido, que “alguma coisa tinha desaparecido do universo nesse experimento”. “Por que eu não disse ao rei que esse é o experimento que nenhum homem pode fazer?

Por que não gritei que eu não teria nada a ver com todo esse negócio sujo?” Então, ele chega à conclusão
de que talvez perdesse o emprego ou não conseguisse mais as verbas da fundação para sua clínica e, provavelmente, seria criticado por não ter agido como um cientista.

“Mas talvez ele pudesse viver numa fazenda, talvez se tornasse um escritor ou pintasse algo que fizesse os homens mais felizes e livres”.

Você pensa sobre o seu trabalho?

O homem é um ser-no-mundo e o único capaz de interrogar sobre o seu ser (Heidegger, 2009). Somos lançados no mundo, num período histórico, que nos antecede e continua após a nossa morte.

Contudo, mundo e homem são cooriginários, o que nos aponta a possibilidade de romper com o nosso cotidiano automatizado pelas demandas da sobrevivência e ressignficarmos a nossa existência, a nossa história e a realidade de nosso tempo.

Não é uma tarefa fácil, especialmente num tempo caracterizado pela massificação; pela competitividade alucinante das organizações; pelo controle da informação pelas grandes mídias; pela polarização dos discursos, em que cada grupo tenta se impor e ninguém escuta ninguém; pelos conflitos de poder econômico e religiosos; e, principalmente, pelo domínio do capital e da exploração do trabalho.

Mediante esse quadro, nos parece utópico vislumbrar saídas possíveis. Lançados no mundo, temos nossos horizontes e dentro deles poucas, algumas, várias ou muitas possibilidades. Por meio da linguagem conseguimos avaliar nossas escolhas, portanto precisamos falar sobre isso.

 

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Fotos: Filosofia Ciência & Vida Ed. 128

Adaptado do texto “Você pensa sobre o seu trabalho?”

*Tania Azevedo Garcia é psicologa clínica, consultora de carreiras e organizacional. Mestre em Administração de empresas. Professora e coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Pitágoras de Belo Horizonte. Professora de cursos de pós-graduação da Faculdade Pitágoras.