Análise do filme Inspeção Geral

Por Flávio Paranhos* | Foto: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

No início de seu Regarding the pain of others, Susan Sontag cita um texto de Virginia Wolf que era uma reflexão acerca da guerra. Wolf dialogava com um famoso advogado londrino que colocara a questão “Por que a guerra?”. Utilizando fotografias de vítimas de guerra, ela acreditava criar um canal empático com o advogado. Afinal, quem não se horrorizaria com tais fotos? Sontag pondera que não se deve ter como dado um “nós” que compartilha os mesmos sentimentos, ainda que diante do mesmo estímulo visual. O registro de uma cena abominável será mais ou menos abominável a depender de quem vê.

 

Sontag cita um exemplo fácil. Palestinos e israelenses não sentirão a mesma coisa diante de uma foto de crianças mortas por bomba. Se são crianças palestinas, estes sentirão muito mais. Se israelenses, estes é que sentirão. Além disso, ainda que um lado sinta compaixão por outro ao ver pessoas do outro lado mortas, ficará nisso. O sentimento de raiva e a vontade de vingança serão exclusivos do lado afetado.

Será que Admirável mundo novo acertou sobre o futuro?

 

Podemos ainda nos lembrar de confrontos ideológicos não sangrentos. Nos Estados Unidos, toda vez que o presidente pelo partido republicano, Donald Trump, regurgita e expele uma de suas muitas bobagens, a reação de sua claque de descerebrados é inacreditavelmente positiva. Já do lado oposto, as pessoas não conseguem acreditar que seja possível que ainda exista alguém assim no século XXI. Bernie Sanders, o melhor candidato do lado democrata, definiu bem Trump: um constrangimento para seu país. Não existe um “nós” norte-americano. Como certamente também não um brasileiro. E aqui ainda há um agravante. Ou você é petista ou você é tucano. Não adianta dizer que considera os dois lados irremediavelmente apodrecidos.

 

Agora me desdirei. Pode um “nós” distante vários quilômetros e muitas culturas um do outro ser o mesmo? Pode. Um média-metragem da HBO ilustra bem essa possibilidade. Strip search (no Brasil, Inspeção geral), escrito por Tom Fontana e dirigido por ninguém menos do que Sidney Lumet, tem uma função específica: denunciar a perda das liberdades constitucionais ocorridas nos EUA como consequência do ataque de 11 de setembro. Mas pode ser abstraído sem prejuízo dessa intenção original.

 

O filme começa com um professor colocando uma questão progressivamente dilemática a seus jovens alunos: vocês aceitariam conceder um dia de suas vidas em que perderiam todas as garantias constitucionais de liberdade em troca de se verem livres do terrorismo? A maioria: sim! E uma semana? Ainda a maioria: sim! E um mês? As vozes vão murchando. E sempre? Ninguém. Essa cena inicial, por si só, mereceria uma coluna aqui na revista. O quanto estamos dispostos a dar, de quanta liberdade estamos dispostos a abrir mão em nome da segurança? Trata-se de pergunta muitíssimo atual e bastante pertinente. Somos rastreados, vigiados por câmeras em todo lugar, profissionais ou amadoras. Os governos sabem praticamente tudo de nós. A intromissão do Estado em nossas vidas nunca foi tão grande. Em nome de nossa própria segurança. Será?

 

Conheça a filosofia que aparece nos filmes de Hitchcock

 

Mas, enfim, meu foco aqui é outro. Strip search mostra duas coisas acontecendo ao mesmo tempo em lugares tão distantes quanto EUA e China. Dois interrogatórios. No lado chinês, uma moça (Maggie Gyllenhaal) é presa e levada para uma sala cinza, calorenta, escura. Foi buscada por soldados mal-encarados num bar em que estava com amigos, sem nenhuma explicação. No lado americano, um rapaz de origem árabe é sequestrado em plena rua e levado para uma sala moderna, com portas automáticas e tudo o mais. São ambos estudantes estrangeiros em cada país. Quem interroga a moça é um homem. Quem interroga o rapaz, uma mulher (Glenn Close).

 

Os estudantes são acusados de praticar atos terroristas. Negam veementemente. E são convincentes (para o espectador). A ideia genial de Fontana e Lumet é estabelecer os contrastes (soldados chineses versus americanos de terno do FBI ou CIA; ambiente cinza e pobre chinês versus ambiente claro, clean, moderno americano; estudante americana do sexo feminino sendo interrogada por soldado chinês versus estudante árabe do sexo masculino sendo interrogado por agente americana do sexo feminino), para, em seguida, apresentar as semelhanças. Várias diferenças, nada que leve a pensar num “nós” unificado. Mas os diálogos são idênticos. Cada coisa que um lado fala, também o outro, da mesma forma. Cada coisa que um interrogador faz, também o outro. Assim como as respostas e reações dos estudantes.

 

Limites da liberdade

 

Lumet faz um jogo de pingue-pongue bastante habilidoso. Passa de um lado para o outro, mostrando como são… iguais. Cada país faz de si mesmo uma imagem a melhor possível. Democráticos somos nós. Os outros são ditaduras. Moralmente irretocáveis somos nós, os outros são canalhas. Mas no final do expediente, é tudo igual. Ou não?
Note que daqui podemos passar à velha discussão da Filosofia Moral acerca da existência de valores universalmente aceitos. Na bioética esse assunto fervilha. Beauchamp e Childress, os autores do altamente influente Principles of Biomedical Ethics, partem do princípio de que há uma “moralidade comum” para estruturar sua proposta principialista (os famosos quatro princípios da bioética – beneficência, não maleficência, respeito à autonomia e justiça). De acordo com eles, a moralidade comum não é “uma” moralidade, mas “A” moralidade. Esta seria composta por valores universalmente aceitos, o que transformaria o mundo numa imensa aldeia. Um “nós” formado por bilhões de pessoas. Estariam eles certos?

 

Chegou a hora d’eu desdizer meu desdito. Não. Beauchamp e Childress não estão certos. Colocar o mundo numa grande bacia contendo um bocado de princípios que serão aceitos por todos é cometer o mesmo erro da teoria ética das virtudes. O que é uma virtude? Faça aí uma tábua de virtudes. Agora a submeta ao crivo das circunstâncias temporais e espaciais. Vai caindo (ou enfraquecendo) uma por uma. O mesmo se dá com uma lista de valores com a pretensão de unanimidade.

 

A Ética no discurso político

 

Mas e o filme? Está completamente equivocado? Não completamente. O que o filme ilustra é antes o compartilhamento de vícios do que virtudes. Se não há valores universais, há interesses universais. O que o ser humano está disposto a fazer para alcançar e se manter no poder não tem limites. E o modus operandi os aproximará. Os fins justificam os meios. Tanto estes como aqueles serão comuns. Nações democráticas (ainda que pretensamente) deixarão de lado todo escrúpulo e torturarão, prenderão arbitrariamente, farão de tudo para destruir a ameaça (ou o que consideram ameaça), seja ela interna ou externa.

 

* Flávio Paranhos é médico (UFGO), doutor (UFMG) e research fellow (Harvard) em Oftalmologia. Mestre (UFGO) e visiting fellow (Tufts) em Filosofia. Professor da PUC Goiás. Autor de Cinema & Filosofia (Kindle Portuguese Edition) e do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial).

Adaptado do texto “quem é ‘nós'”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 111