Análise desnuda do feminismo

Lutar para mudar uma condição pessoal, desconsiderando os contextos sociopolíticos, pode ser uma grande armadilha, especialmente no caso das lutas feministas

Por Monica Aiub | Adaptação web Caroline Svitras

 

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Com esta frase, Simone de Beauvoir (1908-1986) inicia o primeiro capítulo do segundo volume de seu livro O segundo sexo, publicado em 1949 e considerado a obra que funda o feminismo contemporâneo. Nesta obra, Beauvoir defende que: “A mulher não se define nem por seus hormônios nem por misteriosos instintos e sim pela maneira por que reassume, através de consciências estranhas, o seu corpo e sua relação com o mundo”. A mesma frase, tema de redação no Enem em 2015, tantos anos depois, ainda gera polêmica, apontando para a necessidade de se discutir a questão do feminismo, ainda que a temática seja, como para Beauvoir, “irritante, principalmente para as mulheres”.

 

Quando falamos em feminismo, não é possível negligenciar a pluralidade de abordagens à questão. Diferentes perspectivas históricas somam-se às diferentes abordagens das feministas inglesas, norte-americanas, russas, francesas, italianas, latino-americanas… A tais abordagens somam-se, ainda, destaques para questões – de gênero, classe social, raça, orientação sexual, entre outras – na constituição dos movimentos feministas.

 

A pluralidade de abordagens, quando vista de modo mais amplo, reafirma uma identidade multifacetada ao feminino, deixando claro que não existe um padrão único, uma essência, um arquétipo do ser mulher.

 

Contudo, vista de um modo restrito – e, na maior parte das vezes, equivocado – a pluralidade de abordagens gera seccionamento e disputa entre as mulheres, fazendo com que se perca o foco da questão. Neste caso, tenta-se traçar um padrão do que é ser mulher em cada abordagem, geralmente a partir de experiências singulares que são universalizadas e impostas a todas aquelas que desejam lutar pelas questões do feminismo, ou simplesmente serem reconhecidas como mulheres. Tornar-se mulher, nestes casos, é tornar-se o padrão estabelecido e aceito por determinado grupo. Seccionados, os diferentes grupos de feministas negam-se – e às vezes odeiam-se – mutuamente, não reconhecendo o diferente e enfraquecendo o movimento feminista.

 

Igualdade, identidade e diferença

Uma das principais bandeiras do feminismo é a igualdade de direitos entre homens e mulheres, reivindicação que surge a partir da crítica à exclusão da mulher da esfera pública e sua submissão ao lar. Historicamente, há a construção de um imaginário e de práticas sociopolíticas que discriminam as mulheres – considerando-as inferiores e, por isso, restringindo-lhes a atuação – a partir de várias perspectivas: biológica, fisiológica, intelectual, psicológica, comportamental… Em 1405, Christine de Pízan (1364-1430), em sua obra La ciudad de las damas, afirmou que as mulheres sabem menos “sem dúvida porque não têm, como os homens, a experiência de tantas coisas distintas, mas se limitam aos cuidados do lar, ficam em casa, ao passo que não há nada tão instrutivo para um ser dotado de razão como exercitar-se e experimentar coisas variadas”. Sua afirmação mostra o quanto a questão é antiga, embora localizá-la como uma feminista ou fazer uso de seu argumento na atualidade seja extemporâneo.

 

O texto de Simone de Beauvoir, O segundo sexo, não é um marco do feminismo contemporâneo apenas por colocar a questão. Ela aborda o “tornar-se mulher” por diferentes perspectivas, examinando,uma a uma, as justificativas apresentadas em sua época para as relações de dominação e sujeição.

 

Não há, entre as mulheres, elementos históricos aglutinadores como há entre pessoas de uma mesma etnia, de uma mesma classe social, de uma mesma orientação sexual

 

Na primeira parte do livro, intitulada O destino, ela analisa as perspectivas biológica, psicanalítica e materialista dialética, a fim de mostrar que não pesa sobre a mulher um destino fisiológico, psicológico ou econômico, ou seja, não há, nestes campos, uma essência do ser mulher, muito menos uma essência que justifique as relações de dominação e sujeição.

 

Os argumentos fisiológicos da força física masculina, por exemplo, podem ser desconstruídos a partir da observação da existência de várias tarefas necessárias à sobrevivência que não demandam força física. A questão posta é: por que, em nossa sociedade, as atividades realizadas pelos homens foram mais valorizadas que as atividades realizadas pelas mulheres? Considerando-se, ainda, que o desenvolvimento tecnológico exige cada vez menos o uso da força física, podemos afirmar que hoje, ainda mais do que em 1949, as atividades que poderiam trazer restrições à mulher, devido à exigência de força física, podem ser realizadas como auxílio de instrumentos que as possibilitem. Além disso, com as atividades que desenvolvem a força muscular, muitas mulheres, atualmente, possuem mais força física que muitos homens que não desenvolvem sua musculatura.

 

A questão da maternidade, também utilizada para afastar a mulher da esfera pública, restringindo-a ao lar, também é repensada. Beauvoir apresenta o papel histórico do desenvolvimento de técnicas contraceptivas; além disso, aponta para a necessidade de se pensar em instrumentos sociais coletivos para auxiliar as mães nos cuidados com as crianças, tornando as tarefas da maternidade mais leves porque distribuídas com toda a sociedade. A existência, hoje, de creches, escolas e aparatos sociais que permitem à mulher conciliar seus papéis de mãe e profissional, faz com que a questão da maternidade não possa mais ser utilizada como um fator gerador de dependência econômica para a mulher e, consequentemente, não traduz uma impossibilidade ou necessidade de uma escolha entre ser mãe e ser profiional.

 

Partindo da perspectiva de pensadores como Martin Heidegger (1889-1976), Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), que consideram que “o corpo não é uma coisa, é uma situação: é a nossa tomada de posse do mundo e o esboço de nossos projetos”, Beauvoir defende que somos um vir-a-ser, tornamo-nos no decorrer de nossa existência, ao construirmos e efetivarmos nossas possibilidades. Somos nossos corpos, mas isto diz respeito a como significamos nossos corpos nos contextos em que se inserem e nas possibilidades de transcendermos os limites previamente determinados por nossos corpos e por tais contextos. Criamos e recriamos a vida em sociedade na busca pela superação dos limites. As pesquisas em biotecnologia e as questões do pós-humano são um exemplo disto. Tentamos transcender os limites do corpo, tentamos transpor os limites da morte. Assim, não é possível definir limites ao “destino” dos seres humanos, sejam homens ou mulheres, a partir de suas características fisiológicas, pois as possibilidades da existência são muitas e, constantemente, estão por ser criadas.

 

O documentário No devagar depressa dos tempos, de Eliza Capai, descreve a modificação do “ser mulher” na cidade de Guaribas, no sertão do Piauí, em apenas uma geração, a partir da implantação do projeto piloto do Bolsa Família, permitindo uma renda mínima às mulheres e, consequentemente, uma rápida mudança nas relações de dominação e sujeição. Uma pequena mudança no campo social permitiu, segundo o documentário, uma grande mudança na forma de compreender o que é “ser mulher” naquela cidade e, consequentemente, na vida daquelas mulheres.

 

As mulheres de Guaribas não poderiam deixar de ser mulheres, mas puderam se libertar e dar um novo significado a seu existir a partir da quebra da condição de dependência econômica

 

Apesar de nossa compreensão sobre o corpo como uma situação, apesar de inúmeros exemplos históricos sobre mudanças desta situação advindas de novos contextos ou novas interpretações, apostamos, cada vez mais, nas intervenções no corpo, nas mudanças corporais como forma de transcender os limites, seja modelando o corpo a um padrão ideal, seja incorporando tecnologias, seja tentando modelar o organismo com fármacos para alterar as emoções ou os comportamentos. Interessa-nos este viés na medida em que a questão do feminino ainda carrega, nos argumentos em favor da dominação, as diferenças corporais. Contra tais argumentos, servem-nos as possibilidades de alteração ou significação dos corpos, mas principalmente o corpo como situação e não como definidor de um destino inexorável.

 

Contudo, a sofisticação que o argumento do corpo como definidor de nossas possibilidades ganhou com os avanços tecnológicos pretende transformar o corpo num padrão ideal de otimização, padrão este que, muitas vezes, serve a interesses de produção e consumo, expropriando-nos dos saberes situacionais necessários para a compreensão e realização de nossas possibilidades. Somos um corpo situado no mundo, e as formas de organização deste mundo, muitas vezes, são mais determinantes e mais fáceis de transformar do que certas dimensões de nossa corporeidade.

 

O argumento da corporeidade, somado ao argumento psicológico – também bem explorado por Beauvoir, considerando o contexto dos estudos em Psiquiatria, Psicologia e Psicanálise de sua época – é insuficiente para justificar a dominação masculina. Citando Emmanuel Levinas (1906-1995), Beauvoir traz como principal foco do problema a alteridade.

 

O “mesmo” e o “outro” são conceitos modernos que definiram muitos elementos, desta e de outras questões, no âmbito das relações de dominação e sujeição. O “mesmo” é o sujeito que define a si mesmo como “ser humano”, é o homem, branco, heterossexual, burguês, proprietário, é aquele que tem direitos, é aquele que nasce livre e igual. O “outro” é seu negativo, sua oposição, todo aquele que é diferente. A identidade feminina é traçada como o negativo da identidade masculina, é definida como o “outro” diante do padrão, do “mesmo”. Sendo o diferente, nesta compreensão, deve ser dominada. Da mesma maneira, todo aquele que é diferente: o índio e o negro podem ser escravizados por serem diferentes; o operário pode ser explorado por ser diferente; enfim, a problemática encontra-se em não considerar a diferença, em não reconhecer a legitimidade do “outro”. Obviamente, há questões específicas do feminino que não podem ser negligenciadas, assim como há questões específicas em cada um dos grupos discriminados. Mas a questão da alteridade, o não reconhecimento da legitimidade do “outro”, atua como uma questão central, um pano de fundo que gera e dá sustentação às demais.

 

Quando as mulheres reivindicam igualdade, não se trata, como pensam alguns, da mulher tornar-se igual ao homem, desconsiderando as especificidades de cada um. Trata-se de igualdade de direitos, trata-se de substituir uma relação de dominação por uma relação de coexistência, de convívio. Também não é o caso, como alguns defendem, de tornar o padrão feminino hegemônico, impondo a todos um padrão único de ser humano; não apenas porque, como já apresentado, não há um padrão único para o feminino, mas porque isso implicaria em replicar relações de dominação e submissão, apenas invertendo os polos da relação. Trata-se do respeito à diferença, do direito a ser, independentemente de um padrão hegemônico ao qual  todos devam se subordinar. Não se trata de colocar a mulher na posição de dominada ou de dominadora, mas de estabelecer formas de convívio que permitam a cada singular tornar-se, sem esquecer a coexistência necessária. Homens e mulheres são diferentes. Homens, entre si, são diferentes. Mulheres, entre si, são diferentes. É preciso que a diferença seja considerada.

 

Quais características permitem a distinção entre homens e mulheres? O que justifica as relações de dominação e sujeição que se construíram no decorrer da História?

 

Por outro lado, o respeito às diferenças singulares não pode ser usado – como muitas vezes é – para tirar a legitimidade das lutas por direitos e respeito dos movimentos feministas. Neste caso, o argumento defende que todos sofremos discriminação, desconsiderando as questões históricas que tornam a situação da mulher pouco propícia ao pleno desenvolvimento de seu tornar-se .

 

Para que esses referenciais possam ser observados e pensados é preciso pesquisar sua gênese, sua construção histórica, a que serviam ao serem estabelecidos e, diante dos contextos contemporâneos, a que servem. É preciso, portanto, um olhar histórico e um olhar mais amplo, conjuntural,  que nos permita apreender as formas de construção e de articulação que confluem nos modos de vida contemporâneo.

 

 

Mulheres em uma sociedade sexista

Pesquisar a gênese começa por uma pesquisa histórica, observando os elementos que o constituem e suas articulações. Apropriados desta compreensão, temos mais clareza acerca do problema com o qual lidamos e, consequentemente, temos mais possibilidades de encontrar ou criar formas melhores para lidar com ele. Contudo, olhar ingenuamente para a História pode gerar uma visão alienada ou equivocada desta, nos expropriando de um conhecimento necessário para lidar  com a questão. Para evitar a ingenuidade do olhar, é preciso observar os elementos  em seus contextos, acompanhar seus processos de construção, suas implicações nos contextos do viver, assim como as influências que sofrem destes.

 

Na segunda parte de O segundo sexo, Beauvoir traça um longo percurso, da Pré-História ao século XX, mostrando como se deram as formas de constituição do ser mulher como o “outro”, das relações de dominação e submissão entre homens e mulheres. Esta parte de seu livro descreve a construção de uma sociedade sexista, constituída  tendo como finalidade a replicação dos processos de dominação; e denuncia, ao mesmo tempo, o papel das mulheres em tal replicação, na medida em que se veem e se tornam tendo como base a aceitação do papel de submissão.

 

Luis Felipe Miguel afirma sobre Simone de Beauvoir: “encarnação da mulher livre dos constrangimentos  da sociedade machista, capaz de fazer o próprio caminho. Sua relação com Jean-Paul Sartre aparecia como promessa de uma nova conjugalidade, mais livre, equilibrada e satisfatória, uma idealização que ignorava que a ruptura com algumas das premissas predominantes na organização das relações afetivas convivia no relacionamento entre os dois, com a manutenção de assimetrias muito significativas e a aceitação, por parte dela, de uma posição bastante subordinada”. Com mais detalhes, Hazel Rowley, em Tête-à-Tête: Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, descreve a questão.

 

Assim como Beauvoir, muitas mulheres traçam seu caminho de liberdade escolhendo para si, sem que percebam, uma posição subordinada. Em nome de sua liberdade, escravizam-se a padrões, submetem-se ao parceiro, ao chefe, ao amigo, a uma ideia do que venha a ser a liberdade da mulher, acreditando ser esta a sua escolha. Quando olhamos da perspectiva singular, defendendo o direito de cada um ser aquilo que é, o risco disto ocorrer é muito grande. Não trato, aqui, de escolhas conscientes de uma condição. Trato de um equívoco, por falta de um conhecimento conjuntural mais detalhado, que leva muitas mulheres à submissão em nome da liberdade.

 

Beauvoir dedica a segunda parte de seu livro, O segundo sexo, a observar a questão da mulher na História

 

Tal submissão implica, muitas vezes, em mutilação existencial – e algumas vezes corporal – porque ser livre é compreendido como fazer determinadas coisas que existencialmente entram em choque com elementos extremamente importantes em sua estrutura. Não é preciso violentar-se para ser  mulher – ao contrário, tornar-se mulher pode ter muitos e diferentes significados, é preciso encontrar ou criar aquele que seja compatível com as possibilidades e as necessidades situacionais e suas próprias necessidades e possibilidades. Em outras palavras, respeitar-se. Para tal, é preciso conhecer-se, ter dimensão de seus limites e possibilidades,  pesquisar, testar e exercitar seus graus de flexibilidade sem que as afrontas gerem rupturas irreversíveis, traumas insuperáveis. Outras mulheres, na expectativa de garantir seu espaço, veem todo e qualquer homem como o opressor, como o inimigo que precisa ser combatido, não se permitindo o convívio, a coexistência. Por ter nascido homem numa sociedade sexista, já é um privilegiado e, consequentemente, um opressor. Na tentativa de assumir o papel dominante, de lutar contra o pseudo-opressor, escravizam-se, subordinam se a um sistema de exploração e dominação, sem que  haja percepção deste processo.

 

Trazer elementos universais para o singular e vice-versa têm sido um grande problema para várias lutas. Muito facilmente os interesses individuais podem se sobrepor aos interesses coletivos, gerando um seccionamento e uma forma de luta que esvazia o movimento. Por outro lado, universalizar a condição feminina pode ser o fator impeditivo de conquistas para as mulheres, tornando aquilo que inicialmente deveria ser uma conquista em mais um elemento de opressão.

 

Donna Haraway, em O manifesto do ciborgue, destaca o enfraquecimento do movimento feminista com o seccionamento em vários e diferentes movimentos. A luta dos homens negros não inclui as questões femininas; a luta das mulheres não inclui as questões específicas da mulheres negras; a luta das mulheres negras não inclui as questões específicas das mulheres negras lésbicas… e assim vão se formando os subgrupos. Os aspectos e questões singulares ganham lugar em detrimento das  causas maiores que afetam a totalidade dos grupos. Tais causas maiores, ao saírem do foco, acabam esquecidas; as questões específicas de cada grupo ganham lugar, colocando os grupos em competição e luta entre si. Esta é uma forte maneira de destruir os movimentos.

 

Os movimentos feministas, como nos mostra a História, não surgiram à toa. Eles foram motivados pelos processos de dominação, e garantiram vários avanços na condição feminina

 

Por outro lado, desconsiderar as questões do “outro” apenas por não sermos afetados diretamente por elas, é negar sua legitimidade, é excluir o “outro” tanto quanto lutamos para não sermos excluídos. Esta também é uma forte maneira de destruir os movimentos. A luta feminista é, em sentido amplo, uma luta por uma sociedade mais justa. Se considerada como uma luta pelo respeito ao diferente, por direitos iguais, permitirá, com suas conquistas, conquistas para outras lutas, tais como as raciais, sociais, sexuais etc.

 

Haraway, no texto “Gênero” para um dicionário marxista, traz uma excelente contribuição para a discussão da questão sexo/gênero. Não apenas observando a questão a partir do pensamento de Karl Marx (1813-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), mas também a partir das feministas norte-americanas do século XX. Acompanhando o histórico dos termos traçado por Haraway, destacam-se as categorias sexo/gênero compreendidas como construções abstratas sociopolíticas, fundamentadas no conceito de sujeito e na biopolítica. A naturalização de um saber produzido com fins de dominação, incorporado e replicado de modo a aceitarmos uma normatividade como dada.

 

O conceito de “sujeito”, do “mesmo”, que não reconhece o diferente e o submete às normas que garantem sua hegemonia e dominação, é o ponto central de toda a discussão. Há uma contradição intrínseca a este conceito, que é pautado na distinção entre natureza e cultura. O mesmo é alguém que dá a si próprio mais direitos que o outro – inclusive o direito de subjugar o outro – justificando seu direito em aspectos naturais; mas também é alguém que se diferencia da natureza através da cultura, dando-se ao direito de dominá-la, transformá-la para seu benefício – atribuindo a tal processo o caráter de aperfeiçoamento da natureza. O que é  feito em benefício próprio é apre – sentado como benefício para o outro. E a justificativa é ao mesmo tempo uma determinação natural e o aperfeiçoamento da natureza. Ora, se há uma determinação natural, como é possível aperfeiçoar a natureza? Eis a contradição, que fica obscurecida diante da força da incorporação e da repetição desta ideia.  Os questionamentos feitos ao determinismo natural são respondidos com a ideia de aperfeiçoamento da natureza pela cultura.

 

Os questionamentos feitos às imposições advindas de intervenções culturais são respondidos com a ideia de determinismo natural. Ficamos num dilema. Contudo, uma observação mais demorada mostra se tratar de um falso dilema. Nem uma pseudo determinação natural, nem um suposto aperfeiçoamento cultural são capazes de justificar as relações de dominação e sujeição. Não há justificativas para alguns atribuírem a si próprios o direito de subjugar outros, e este é o mais forte argumento em prol das questões do  feminismo. Não há o que justifique a supremacia dos homens, assim como não há o que justifique a supremacia das mulheres.

 

Cada ser singular possui seus limites e possibilidades, inclusive a possibilidade de ampliação ou superação de limites. Mas cada ser precisa ter as condições para realizar-se,  para tornar-se, e é responsabilidade de todos, independentemente do pertencimento ou não a grupos particulares, propiciar as condições para que cada um possa tornar-se. Se conseguíssemos transpor as barreiras do individualismo e as barreiras geradas pelas limitantes delimitações traçadas por grupos, que sob a denominação de lutas por direitos atribuem-se privilégios e direitos de dominação, poderíamos, de fato, propiciar as condições necessárias para que todos pudessem tornar-se.

 

Assumindo sua característica não discriminatória, os movimentos feministas são capazes de trazer reais transformações à existência humana, pois carregam, com suas bandeiras, a defesa de uma sociedade mais justa, de uma sociedade que não seja pautada nas relações de dominação e submissão. É preciso, contudo, cuidado – pois, acreditando defender direitos, corremos o risco de reproduzirmos as mesmas relações de dominação e submissão. Tais cuidados podem ser obtidos com o estudo e a pesquisa sobre a gênese dos conceitos que nos aprisionam e dos princípios que justificam nossos comportamentos, assim como, principalmente, por uma compreensão  conjuntural, que nos mostre a que servem as ideias e ações que assumimos para nós.

 

 

*Monica Aiub é doutora em Filosofia pela PUC-SP. Filósofa clínica, professora e pesquisadora no Interseção – Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. Atua na Editora FiloCzar como editora.

Contato: monica_aiub@uol.com.br

Site: www.institutointersecao.com.br

Adaptado do texto “Torna-se mulher”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 120