Alzheimer e nossa confusão conceitual

Por João Teixeira* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Na semana passada fui assistir a Para sempre Alice. É um filme comovente, que retrata a história de uma linguista brilhante que, ao chegar à meia-idade, descobre que tem mal de Alzheimer. Daí em diante começa a triste trajetória de desagregação da memória, até que seu eu, ou seja, sua própria identidade pessoal, sucumbe à doença.   Não é o primeiro filme a que assisti sobre o mal de Alzheimer. O filme Iris conta a fascinante história da escritora inglesa Iris Murdoch, que morreu de Alzheimer. Esse filme também retrata o drama de uma pessoa cuja memória é corroída por essa doença, de causas ainda não identificadas.

 

A imagem popular do mal de Alzheimer é a de uma doença cerebral que, progressivamente, derrete a memória. Nos estágios mais avançados, a pessoa já não se recorda da história de sua vida e também se torna incapaz de reconhecer até os parentes mais próximos. É a doença da memória, da Mnemósine, uma das deusas gregas mais poderosas, a base de toda civilização. Ironicamente, Mnemósine foi esquecida.

Afastando-se da depressão

 

Mas o que é a memória? A ideia popular de memória é a de um grande arquivo, de um lugar no qual ficam estocadas lembranças, dados e procedimentos como andar de bicicleta, dirigir um carro ou digitar um texto. Em algumas ocasiões solicitamos os dados que estão no arquivo, alguns deles são recuperados imediatamente, outros, demoram a reaparecer e causam um sentimento de angústia por saber que o dado está estocado, mas, por alguma razão, não conseguimos recuperá-lo.   Mas será esse modelo popular de memória correto? Será que ele deve ser utilizado como pressuposto para pesquisas neurocientíficas sobre a memória? O que diz a Filosofia da Mente sobre o conceito de memória?

 

 

No século passado, escritores e filósofos, como Proust, Joyce e Bergson, salientaram, em suas obras, o quanto a memória é fragmentária, errática, e como as lembranças estão relacionadas de forma que pouco se assemelha ao modelo do arquivo organizado.

 

Lembramo-nos de fatos do presente como, por exemplo, onde deixamos a chave do carro, e também de fatos acerca do futuro, como o horário de nosso voo para o Rio de Janeiro. Lembramos, ainda, de fatos que nada têm a ver com passado, presente ou futuro, como a tabuada do 9 e a fórmula para resolver equações de segundo grau.

 

A mágoa e o caminho da cura

 

Essas dificuldades conceituais e linguísticas reforçam, também, o quanto o modelo do arquivo é inadequado. Uma ideia mais apropriada para conceber a memória, que vem sendo cada vez mais aceita pela Neurociência, é a de retenção. Quando troco alguns móveis da minha sala de estar, mas mantenho a mesa de minha avó, estou retendo-a. Isso é diferente de colocá-la no sótão, que seria estocá-la. Essa mesma diferença deveria ser aplicada ao caso da memória. Essa ideia, defendida por Norman Malcolm, um discípulo de Ludwig Wittgenstein, começa a ser aceita por pesquisadores da base Neurobiológica da memória, como Ivan Izquierdo. Nesse modelo, memória é retenção, o que precisa ser explicado são os processos de supressão ou desaparecimento de lembranças. É o inverso do modelo do estoque que, se levado a sério, resultaria em uma patologia, como a de Funes, o memorioso, personagem de Borges, que não podia se esquecer de nada e, por isso, não conseguia mais pensar.

 

Para os neurocientistas, o Alzheimer é mais uma evidência em favor da ideia de que a mente nada mais é do que o cérebro. Uma das hipóteses é que ela seja uma doença priônica. Há placas no cérebro feitas de príons, algo que não é nem uma bactéria nem um vírus, mas que pode desorganizar a reprodução de algumas proteínas, em um processo que se espalha rapidamente pelo tecido cerebral. No entanto, não se sabe ao certo como deter esse processo e se ele realmente seria a cura para o Alzheimer.

 

 

Uma alternativa de cura é a via biônica, o implante de chips no cérebro para resgatar a memória. Mas como traçar os limites entre a memória contida no chip e a anterior? Dificilmente será possível reconstituir as lembranças desse paciente, pois não existe um critério que determine as lembranças oficiais que ele pode ter, a não ser algumas informações gerais como o número de sua identidade, data e local de nascimento e outros dados que não sejam subjetivos. A memória pode ser manipulada e expandida. Recordar é, em grande parte, reinventar, reorganizar nosso passado e inseri-lo em uma narrativa que compõe nossa subjetividade.

 

É nesse sentido que o Alzheimer se torna algo muito mais devastador do que a doença do esquecimento. Ele compromete a coerência necessária para que tenhamos um self e, com isso, faz que a própria subjetividade entre em colapso.

 

Será a longevidade boa em si?

 

Encontrar uma cura para o Alzheimer é tarefa urgente. Nas próximas três décadas, 140 milhões de pessoas sofrerão dessa doença, 70% delas em países muito pobres, nos quais o sistema de saúde pública é ineficiente e, por isso, incapaz de acolhê-las em instituições especializadas. Rejeitadas por suas famílias, em geral desinformadas sobre a evolução da doença, acabarão expulsas de suas casas, por não poderem mais ser alimentadas e medicadas. Será o cenário distópico de um exército de andarilhos enlouquecidos caminhando pelas cidades.

 

 

*João de Fernandes Teixeira é PhD pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). www.filosofiadamente.org Adaptado do texto “Quando a memória derrete” Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 106