Alcance uma vida harmoniosa

Por Lúcio Packter* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Você considera harmonioso colocar um chafariz de pedra pesando meia tonelada, golfando cinco litros de água por minuto, precisamente no centro do seu quarto de dormir? Não gostaria? O motivo pode ser a composição. Mesmo cabendo em seu quarto, mesmo você querendo algo assim, talvez ficasse grotesco. Algo burlesco, aquela água irrompendo pelo quarto. E o amor? O amor ficaria bem definido na paisagem de sua vida neste momento? Talvez sim. Mas sabe onde o colocaria? Sabe se ele poderia viver entre as mágoas, os ciúmes, as esperanças, o desejo e o receio que possui de amar? Como saber, como dimensionar tais fatores? Primeiro, o exame da historicidade, da Estrutura do Pensamento, os dados categoriais. Isso mostrará por aproximação de que forma, quais as premissas e os encaminhamentos do recebimento de algo como o amor. Ou seja, onde este elemento, o amor, caberia no mobiliário de sua existência. Lembre que estamos nos referindo, muito provavelmente, a uma mobília móvel. Segundo, a pesquisa das funções, das conversações entre os elementos, os encaminhamentos. As consequências do estudo apontam para o cabimento do desejo, a pertinência de algo na vida da pessoa, o lugar, disposições em torno de forma e conteúdo.

 

Forração de soalhos, um assento comprido, estofado, gravuras estampadas. A sala está mobiliada. Calçados de lona, meias, bermuda, pequena camisa de mangas curtas. A pessoa está vestida para a caminhada matinal. Tomate, alface, rúcula, agrião, salsinha, brócolis, azeite extravirgem, um naco de sal, tudo em uma porcelana. Salada pronta para o jantar. Amor, carinho, respeito, reciprocidades, zelo, pacificidade. O relacionamento viceja apropriadamente. Se sabemos os elementos de composição, conforme os nossos padrões de época, para inúmeros eventos importantes em nossas vidas, por onde entram os elementos que colocam tudo a perder? Por onde entram o ciúme, a traição, a mesquinhez e outros que colocam em derrocada o que se busca construir e preservar desenvolvendo?

 

 

Observe algumas portas usuais, respeitando a observância de que cada caso é único:

1. Uma composição pode permitir que se insira elementos arriscados, experimentos.

2. Alguns elementos que não poderiam estar no contexto são admitidos por outros motivos, como um objeto raro, herança de família, que deve necessariamente estar exposto na sala.

3. Lacunas: há diversas brechas que permitem elementos pontes. Assim, um sofazinho-cama aparentemente não causará maior estorvo no ambiente…

4. Aspectos disjuntivos: um belo móvel de demolição pode cumprir a missão estética no ambiente, mas pode falhar para resguardar uma delicada louça.

5. A dinâmica da vida: uma bela composição que estaria perfeitamente bem se o mundo fosse uma fotografia, encontra problemas pelo movimento, pelos usos cotidianos, as modificações naturais em cada sistema.

6. O desenvolvimento que solicita constantes substituições, complementações, alterações. Algo de entendimento simples, mas de execução problemática quando determinadas situações estão em andamento. Exemplos: um bebê que nasce, um vovô que morre, mudança de cidade são eventos que podem alterar demasiadamente uma composição que funcionava a contento.

7. Enganos naturais do que se considera que uma composição ocasionará na vida, a relação dela com a vida. Não é raro que uma composição passe a ocupar uma primazia que não seria pertinente dela. Exemplo: o poeta escreve um verso para expressar sua alegria e o verso acaba sendo motivo de atenção tamanha do poeta que a razão de existir do poema se perde.

8. Controle e questões datadas de nossos dias. Uma composição pode ter vida própria e, ao invés de dizermos a ela o que queremos, ela nos diz o que deseja de nós.

 

Entenda a cultura do corpo

 

Ainda há muitos outros aspectos. Citei alguns frequentes.

Ao cear com pessoas queridas, o velho conta belas passagens de um futuro próximo. Ele “compõe” o futuro feito em um tear, urdido, em ordem de vinculação bem concatenada com o que se vive hoje. Todos à mesa se emocionam. O bebê nascerá em algumas semanas. A mãe tece a lã, entrelaça os fios de algodão, lacrimeja, sabe que o bebê está em perfeito acordo com a família que o aguarda com amor, conhece a realidade na qual a criança estará colocada como um elemento de composição. Um homem caminha por uma longa vereda, habituou sua alma com ensinamentos importantes sobre composições. Aprendeu as lições, caiu, ergueu-se, respeita a força das vias. Por isso, tal homem cuida de educar seu pensamento, seus olhos, a vida.

 

A composição existencial pode ser uma das chaves a abrir sendas essenciais em nossa época. Não para todos, mas para muitos. Um modo simples, amplamente funcional em muitos casos, de saber como um elemento participará de uma ordenação é colocar a codificações, as arrumações, diante do elemento. Exemplo: mostre a uma pessoa um quadro pintado a óleo no qual uma pequena embarcação veleja suavemente por uma angra rumo a uma área portuária. Pergunte o que acrescentaria, o que retiraria, o que modificaria, e provavelmente terá como resposta um elemento de composição. Composições existenciais podem ter uma força considerável se os elementos constroem uma conversação consistente em relação ao que se passa.

 

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Filosofia Ciência & Vida Ed. 103

*Lúcio Packter é filósofo clínico e criador da Filosofia Clínica. Graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC, de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br