Ainda haverá revoluções?

Por Renato Janine Ribeiro | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O que é mais difícil, equivocado e vão de fazer na História é prever o que vai acontecer. Até um ou dois séculos atrás, a previsão histórica era um tipo de adivinhação, que por vezes se confiava a astrólogos ou praticantes de alguma arte mântica. Contudo, desde que se desenvolveram as Ciências Humanas, e que passamos a pensar em termos de processos históricos e não mais de acontecimentos isolados, as coisas mudaram de figura. Não discutimos mais como será a sucessão do rei ou quem vencerá a batalha, mas quais mudanças políticas, econômicas e sociais poderão ocorrer. Mas sempre com riscos enormes. Basta lembrar que, nos anos 1950, Nikita Khrushchov afirmava com toda a convicção que em uma ou duas décadas a União Soviética superaria os Estados Unidos em qualidade de vida. E seu país nem existe mais…

 

Parece bastante razoável, em que pese toda a cautela, afirmar que acabou já faz algum tempo a Era das Revoluções, esse período que se abre com a Inglesa (de 1640), continua com a Americana e a Francesa, no século seguinte, e vai dar no século XX na Russa, na Chinesa, na Cubana. Podem ser várias as razões para esse término. A principal é que revoluções – que pretendem mudar completa- mente as coisas, “virar o mundo de cabeça para baixo” – somente prosperam quando o presente está tão ruim que não vale a pena preservar o que quer que seja dele. “Nada tendes a perder senão vossos grilhões”, ou “vossas ilusões”, essa era a frase-mestra do marxismo. Quando se tem a perder algo mais tangível, já não se aceita tanto risco. Exemplo: os operários de meados do século XIX ganhavam tão pouco que não dava nem para criarem filhos.

 

Quando muito, tinham “prole” – como os bichos – daí, o nome de proletários. Não tinham futuro. Morriam em poucos anos de trabalho. Por isso, não perdiam muito lutando contra tudo o que ali estava. Mas no final daquele período já estavam formando família, tendo casa.

 

Mas quer isso dizer que desapareceu a vontade de mudar, e muito, o mundo? Não. Só que a preservação do que aí está passou a ser importante. Qualquer mudança tem de se dar por outras vias. Primeiro, então, a via armada perde muito de seu sentido. Correr o risco de morrer? A última guerra em que homens livres expuseram a vida em defesa de uma causa terminou há 70 anos. De lá para cá, ou foram travadas por soldados sem liberdade, como no conflito entre Irã e Iraque na década de 1980, ou por profissionais pagos, no estilo dos antigos mercenários, como os do exército norte-americano atual. Um princípio como o “pro patria mori”, dos romanos antigos e das cidades-estados italianas da Renascença, acabou.

 

Segundo, as mudanças hoje em jogo afetam muito os costumes. Superar a miséria se tornou possivelmente tecnicamente. Embora a distribuição do mínimo necessário para viver ainda não esteja assegurada, as causas dessa falha são políticas, e não econômicas. Podem ser superadas, e há fortes indicações de que este poderá ser o último século da História em que haja fome (salvo, obviamente, casos excepcionais, devido a calamidades). Novas causas políticas e éticas vão surgindo, que têm a ver menos com o mundo das necessidades básicas e mais com uma gama crescente de possibilidades de vida. Não está mais em jogo a vida nua, a mera sobrevivência, mas o direito a dar à sua vida o sentido que você possa, deseje ou queira.

 

Continuamos num mundo prenhe de mudanças. Fukushima errou quando, inebriado pela vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria, escreveu que tínhamos chegado ao fim da História, que daí em diante só teríamos aprimoramentos no interior da democracia liberal. Passaremos por mais mudanças do que ele queria. Quais são, não sabemos. Mas penso fortemente que serão o fim da miséria e, daí em diante, mudanças culturais e de costumes.

 

*Renato Janine Ribeiro é professor de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP).
www.renatojanine.pro.br

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 112