Afastando-se da depressão

Por Lúcio Packter* | Foto: 123REF | Adaptação web Caroline Svitras

 

Taone esteve “amarrado em depressão”, conforme as palavras dele, por alguns anos. Conheceu em duas ocasiões a hospitalização, procedimento adotado pelos filhos quando ele permaneceu acamado por muitos dias, abstendo-se de sua habitual alimentação e higiene.

 

Alguns se aproximam tanto do artifício que acabam convencidos de que estão vivos, comportam-se como criaturas sensíveis e vivas nesta área, mas padecem das motilidades de um boneco de plástico, enferrujam as juntas metálicas, enquanto outros poucos se dão por felizes pelo alento que o paradoxo lhes concedeu.

 

Taone modificou seu modo de ser no mundo quando descobriu Vincent Van Gogh por meio de gravuras em revistas que folheou no hospital. “Algo aconteceu comigo, doutor, e eu passei a ver o mundo com os olhos de gente como o Vincent… passei a olhar o mundo como pintor. Sou o pintor Taone, o senhor sabe”. E isso aconteceu de uma revista para outra, na breve distância que separa alguns minutos, desde que o fenômeno seja caracterizado ao largo da historicidade de Taone, 65 anos de vida.

 

 

“Esses dias, mudando, transportando todos os móveis, embalando as telas que lhe enviarei, foi triste, mas me parecia muito mais triste o fato de que isso me foi dado com tanta fraternidade por você, e que durante tantos anos foi no entanto você sozinho quem me sustentou, e afinal ser obrigado a vir lhe contar toda esta triste história; mas me é difícil exprimir isto como eu o sentia. A bondade que você teve para comigo não se perdeu, pois você a teve e isto permanece sendo seu, e mesmo que os resultados materiais fossem nulos, é razão a mais para que isto permaneça sendo seu […]. Todas as suas bondades para comigo, hoje eu as achei maiores do que nunca, não consigo dizer-lhe como eu o sinto, mas eu lhe asseguro que essa bondade foi de um bom quilate, e se você não vê seus resultados, meu caro irmão, não se atormente por isto, sua bondade permanecerá.” – escreveu Vincent Van Gogh ao irmão, Théo, em 1889. Algo que aos olhos do pintor Taone se tornou inspirador, alegre, pedagógico para a existência.  Os olhos de Van Gogh para o mundo ainda eram os olhos de Taone.

 

Em uma de nossas consultas, ele trouxe um encarte de Delacroix, de seu Diário, e se aproximou da luminosidade da janela para ler em voz compassada: “O meu espírito, por seu turno, tem hoje uma segurança muito maior, uma maior capacidade de fazer associações e de se exprimir; a inteligência cresceu, mas a alma perdeu parte da sua elasticidade e irritabilidade. E porque é que, ao fim e ao cabo, não partilhará o homem o destino comum de todos os outros seres? Ao pegarmos num fruto delicioso, será justo pretender respirar ao mesmo tempo o perfume da flor? Foi preciso passar pela subtil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil para chegar a esta segurança e maturidade do espírito. Talvez os grandes homens – é o que eu penso – sejam aqueles que, numa idade em que a inteligência possui já a sua plena força, ainda conservam parte dessa impetuosidade das impressões, que é própria da juventude”.
Exultante, afirmou que descobrira modos de dialogar as distâncias entre Van Gogh e Delacroix, e poderia facilmente sintetizar tudo em uma cor: “tebialianto”.
Tebialianto, uma cor que possuía textura e um caractere de personalidade peculiar: somente poderia ser vista por quem compreendesse o significado da síntese da obra. Até aquele momento, somente Teone havia sido capaz de tal proeza.

Teone mostrava-se contente, otimista com as possibilidades do Tebialianto. Trouxe durante semanas para a clínica alguns escritos sobre o que seria um livro em breve. Desenvolveu um método segundo o qual as crianças poderiam aprender a distinguir o tebialianto na natureza, na formação do caráter, nas concepções religiosas. Em uma tarde da primavera, dia nublado e bonito, Teone apareceu com uma roupa que parecia manchada com tons pasteis. Desfilou perto da janela, virou-se, abriu os braços e anunciou que desenvolvera uma mescla que se aproximava do tebialianto, mas que era apenas um protótipo.

Durante algumas semanas Teone esteve em jornada de trabalho voluntário pelo sul da Europa. Ao retornar, trouxe uma novidade. A cor tebialianto teria se dissipado e desaparecido. Sua conclusão sobre o tema era perfeitamente lógica para ele. Chegou à conclusão ao se deparar com algumas obras de Salvador Dalí e ao ler algo sobre liberdade, da autoria do pintor: “A pior coisa é a liberdade. A liberdade de qualquer tipo é o pior para a criatividade. Quando estive dois meses na prisão em Espanha, esses dois meses foram os que me deram mais gozo e os mais felizes da minha vida. Antes de ter ido para a prisão, estava sempre nervoso, ansioso. Estava sempre em dúvida se deveria fazer uma pintura, ou talvez um poema, ou se deveria ir ao cinema ou ao teatro, ou ir ter com uma rapariga, ou ir brincar com os rapazes. Mas puseram-me na prisão, e a minha vida tornou-se divina”. Teone resolveu sua questão, decidiu um modo recatado de descortinar o mundo por olhares de grandes pintores e, de maneira decisiva, afastou-se para todos os dias dos episódios de depressão.

 

 

*Lúcio Packter é filósofo clínico e sistematizador da Filosofia Clínica no Brasil. Graduado em Filosofia pela PUC-
-FAFIMC de Porto Alegre (RS). É coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clínica da Faculdade Católica de Anápolis, Faculdade Católica de Cuiabá e Faculdades Itecne de Cascavel. luciopackter@uol.com.br

Adaptado do texto “Os olhos de Vincent Van Gogh”

Revista Filosofia Ciência & Vida Ed. 120